Brasileira deixa Microsoft e Google para apostar em startup

Bel Pesce, que tem 24 anos e quatro diplomas do MIT, acaba de lançar o livro “A menina do Vale”, onde dá conselhos para jovens empreendedores do Brasil

Claudia Tozetto - iG São Paulo |

A brasileira Isabel Pesce andava todos os dias pelos corredores da sede da Microsoft, em Redmond (EUA), onde trabalhava com pesquisadores do Office Labs. Ela havia sido selecionada para estagiar na empresa durante o verão, no período de férias do Massachussets Institute of Technology (MIT), uma das instituições de pesquisa mais importantes do mundo. Era tudo o que uma jovem estudante de Ciências da Computação poderia querer, mas, de alguma forma, Bel queria outra coisa. “Eu olhava para aquilo tudo e pensava em como Bill Gates se sentia. Ele começou em uma garagem e construiu um império”, diz Bel.

Divulgação
Com sonho de empreender, Bel Pesce trocou carreira em gigantes da tecnologia para investir no aplicativo Lemon
LEIA TAMBÉM:
Com nova febre de startups, até americanos trocam Vale do Silício pelo Brasil
Saiba o que são private equity, venture capital e capital semente
Designer cria relógio analógico que se conecta ao iPhone

O sonho de Bel, como de muitos empreendedores da área de tecnologia, é o de criar o próximo aplicativo ou plataforma de sucesso. Hoje, dois anos após sair da Microsoft, Bel dá os primeiros passos nessa direção: em outubro de 2011, ela propôs sociedade ao argentino Wences Cesares, criador do aplicativo Lemon, que permite fotografar recibos de compras e armazená-los na nuvem. “Meu coração dizia que eu precisava ajudar a construir uma empresa ‘do zero’. É uma ambição altíssima, mas estou aprendendo muito”, disse Bel, em entrevista ao iG.

O Lemon, que é mantido por uma startup composta de apenas 20 pessoas no Vale do Silício (EUA), funciona no iPhone e em aparelhos com o sistema operacional Android e já tem mais de 1 milhão de usuários em todo o mundo. Bel cuida das parcerias com outros serviços, como redes sociais, uma experiência que não teve ao trabalhar na Microsoft e no Google. “O trabalho nas empresas era muito técnico. Eu queria muito aprender mais sobre como fazer negócios”, diz Bel, que pretende voltar ao Brasil no futuro, para investir em startups.

Como tudo começou

Nascida em uma família de classe média, em São Paulo (capital), Bel sempre teve aptidão natural pela matemática. “O dono da banca de jornais me perguntava quantos pacotes de figurinhas eu podia comprar com o dinheiro que meu pai dava. Eu sempre acertava e ganhava mais figurinhas de graça”, conta Bel. O interesse pelos computadores também começou cedo, aos 11 anos, quando ela desmontava as máquinas da família e montava de novo, só para ver como funcionavam.

Na época do vestibular, Bel escolheu o curso de Ciências da Computação e se inscreveu em diversas faculdades, quando descobriu que o MIT aceitava candidatos estrangeiros. Contudo, o programa era concorrido: o candidato precisava começar a se preparar meses antes para dar tempo de cumprir com as exigências, mas ela só tinha algumas semanas. Para participar do processo, Bel apareceu de surpresa na casa de um dos avaliadores do MIT em São Paulo para conseguir uma recomendação e teve que torcer para sobrar uma cópia do teste no dia do vestibular do MIT – o número de provas que chega ao Brasil é contado. Felizmente, um candidato faltou. “Eu tinha certeza de que não passaria e quando vi o resultado, só consegui gritar e chamar minha mãe”, diz Bel.

Bel ganhou uma bolsa de estudos parcial e, antes de se mudar para os EUA, precisava guardar dinheiro para “bancar o primeiro semestre de aulas”. “Eu pedi um emprego para os diretores da escola onde eu estudava para fazer um ‘pé de meia’ e eles me ajudaram”, diz Bel. Ela chegou aos EUA em agosto de 2006: para conseguir manter o sonho, já começou a trabalhar no próprio MIT nas horas livres para arrecadar fundos. O tempo livre era escasso, já que Bel passou a estudar cada vez mais: enquanto a maior parte dos estudantes cursava quatro disciplinas, ela chegou a cursar 13.

Vida dupla

O esforço valeu a pena e Bel conseguiu quatro diplomas do MIT, os dois principais em Ciências da Computação e Administração e outros dois, em Economia e Matemática. Ainda na faculdade, ela conseguiu o estágio de verão na Microsoft, onde conseguiu participar da criação de um sistema que reconhece gestos e cores exibidas em frente a uma câmera conectada ao computador.

Divulgação
Bel Pesce, em frente ao MIT: quatro diplomas em quatro anos
Ao voltar para o MIT, Bel se inscreveu num programa de mestrado no Google e se mudou para Palo Alto, no Vale do Silício. Nesta época, ela também recebeu uma oferta para trabalhar na Microsoft, mas a vontade de empreender aumentava a cada dia. “Eu vivia uma vida dupla: trabalhava e estudava e, no meu tempo livre, passava muito tempo programando e participando de eventos de empreendedorismo.”

Quatro meses depois, Bel trancou o mestrado e deixou o Google. Ela terminou a graduação no MIT e começou a trabalhar na Oyalla, uma empresa que oferece plataformas de vídeo para empresas. “Eu estava acabando de me formar e pude liderar um time pequeno de engenheiros”, diz ela. Nos últimos dois anos, a Oyalla, empresa fundada por dois ex-funcionários do Google, recebeu cerca de US$ 5 milhões em investimentos e contratou mais de 200 pessoas. A carreira ia bem, mas o sonho de empreender “era maior”. Foi quando Bel conheceu o criador do Lemon e seu rumo mudou outra vez.

Aprendizados no papel

Com tantas experiências em apenas seis anos, Bel passou a receber e-mails e ligações constantes de outros brasileiros. Amigos, empreendedores locais e candidatos às bolsas de estudo do MIT pediam conselhos e dicas para ela sobre a vida no Vale do Silício. “Em vez de dedicar 15 minutos para responder a cada pessoa, resolvi anotar minhas ideias. De repente, já tinha escrito 18 capítulos”, diz Bel. A ideia inicial era publicar os textos em seu blog, mas, com a ajuda de amigos brasileiros, ela criou o livro digital (e-book) “A menina do Vale”.

O livro, disponível no site oficial de Bel, já chegou a 100 mil downloads em nos primeiros sete dias. “A principal lição que tento passar no meu livro é que as pessoas devem acreditar nos seus sonhos, mesmo que a probabilidade de dar certo seja mínima”, diz Bel. Nos capítulos do livro, Bel dá conselhos como “Não se preocupe com a sua idade”, “Acostume-se a aprender com os seus erros”, mas também dicas práticas, como os elementos de um plano de negócios e como fazer networking. O e-book é gratuito.

“Todo mundo quer ter retorno financeiro, mas dinheiro nunca foi meu foco”, diz Bel. Entre os sonhos para o futuro, Bel quer ajudar a desenvolver novas funções para o Lemon. “Acho que se você consegue criar um produto que toque a vida das pessoas de forma positiva, ser bem sucedido é consequência.” Mas trabalhar não é o único sonho da “menina do Vale”. Apesar de ter pouco tempo para curtir os amigos e visitar a família no Brasil, ela diz ter planos de se casar e ter filhos no futuro. “Ser mãe é ser empreendedora.”

Leia tudo sobre: MicrosoftGooglebel pescelemon

Notícias Relacionadas


    Mais destaques

    Destaques da home iG