Sistema criado por pesquisador da UFMG com patrocínio do Google pretende rastrear, em tempo real, opiniões e reações de usuários da rede a determinados temas

Compartilhamentos, curtidas, retuítes. Para usuários ativos das redes sociais, os termos significam mais do que simples ações. Eles denotam aprovação, alegria, tristeza, descontentamento, ironia, revolta em relação a determinado tema. Compreender o que pensam as pessoas por meio dessas ferramentas se tornou um bom negócio.

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Projeto de pesquisador brasileiro financiado pelo Google quer monitorar sentimento dos usuários de redes sociais
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Projeto de pesquisador brasileiro financiado pelo Google quer monitorar sentimento dos usuários de redes sociais

Pedro Henrique Calais Guerra encarou o desafio de desvendar o que há por trás dessas ações em seu doutorado no Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais. O projeto chamou a atenção do Google, que financia a pesquisa. Guerra criou um sistema que monitora opiniões e reações das pessoas em tempo real nas redes sociais.

A partir de teorias sociológicas e psicológicas, Guerra transformou o modo como as pessoas expressam sentimentos na internet em algoritmos. O sistema é capaz de monitorar as reações – e entender se são positivas ou negativas – dos usuários a um debate político ou um jogo de futebol, por exemplo. “A análise é mais fácil em situações bipolarizadas”, admite.

Apesar disso, o pesquisador está trabalhando na concepção de mecanismos que filtrem também os sentimentos em ambientes com múltiplas possibilidades de opinião. “Isso pode ser útil, por exemplo, para acompanharmos as reações da sociedade em uma campanha presidencial, por exemplo, que há múltiplos candidatos, ou um tema polêmico”, afirma.

Guerra utiliza, especialmente, o Twitter em seu estudo. Nessa rede social, é mais simples avaliar as opiniões de muitos usuários que têm perfis públicos. Aos 30 anos, o estudante do doutorado usou o próprio interesse em entender o que as pessoas queriam dizer com curtidas, compartilhamento de opiniões e as discussões que provocavam na internet na pós-graduação.

“Existe um viés de publicação de aspectos positivos de si mesmo e do que se gosta. Tento explorar esse contexto social, olhando uma massa de pessoas, para entender os significados. Se acompanhamos o sentimento das pessoas em tempo real e conseguimos interpretar de forma relevante na hora, é possível reagir a isso”, pondera.

Essa monitoração da opinião, segundo ele, interessa às empresas, aos políticos, a grandes entidades, como clubes de futebol. Ele aposta que ações de marketing usariam bastante esse tipo de avaliação em estratégias e, por isso, acredita que o produto será atrativo para o mercado quando ficar pronto.

O Google, embora invista na pesquisa, não tem direitos autorais sobre a ferramenta. Guerra conta que a seleção de bolsistas feita pela empresa não implica em influenciar o projeto ou ser dona dele.

Projeto maior

A ferramenta desenvolvida por Guerra faz parte de um projeto mais ambicioso da UFMG. O Observatório da Web do Departamento de Ciência da Computação tenta há quatro anos interpretar diferentes dados disponíveis na web em tempo real. As pesquisas enfrentam as dificuldades com a ambiguidade da língua, a identificação das pessoas, os problemas técnicos.

“O interessante desse estudo é que, em vez de tentar interpretar o conteúdo de cada frase ou opinião, ele usa as teorias sociais para traçar um perfil de posicionamento dos usuários. É uma ideia base de que cada pessoa tem um viés: apoia um time no esporte, apoia um candidato. A posição se manifesta de forma mais coerente do que o que ela escreve”, analisa Wagner Meira Junior, orientador da pesquisa.

Dessa forma, o professor explica que a ferramenta passa a “entender o teor” de determinadas mensagens mesmo sem que ela “saiba” o que de fato ela diz. “Pela quantidade e o perfil das pessoas que tuítam, compartilham ou curtem essa mensagem nós passamos a entendê-la”, diz. Para ele, o grande desafio criar modelos computacionais que traduzam as teorias sociológicas em modelos computacionais, comenta.

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