Charlie Shrem enfrenta acusações de lavagem de dinheiro e envolvimento com tráfico de drogas

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NOVA YORK – Poucas semanas antes de ser preso no aeroporto John F. Kennedy, Charles Shrem estava em pé atrás do bar em Manhattan no qual investiu parte de sua fortuna em bitcoin, gabando-se dos grandes planos para a moeda virtual e para si mesmo.

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Shrem dá entrevista em bar de Nova York, poucos dias antes de sua prisão
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Em um ritmo frenético de narrador esportivo, Shrem, cofundador de um site popular onde bitcoin podia ser comprado usando dólares, passeando pela ideia de um cartão de débito do Bitcoin, as conversas recentes com os proprietários de uma empresa de jatinhos que queria aceitar pagamento em bitcoin, o objetivo de unificar as leis de transferência de dinheiro do país e os planos de viagem para quase todo canto do mundo, incluindo Amsterdã, de onde voltava quando foi preso recentemente.

"O bitcoin lhe permite ter essa vida global, permite ser capaz de se mudar para qualquer lugar em questão de dias se você quiser", disse Shrem, de barba malfeita, diante do letreiro anunciando que o bar, EVR, aceitava bitcoin.

Prisão domiciliar

Hoje em dia, no entanto, as explorações de Shrem na Bitcoin o restringiram à casa dos pais no Brooklyn, onde aguarda julgamento de acusações federais segundo as quais teria facilitado transações de drogas online. Shrem também foi acusado de comprar maconha. Ele alegou inocência.

Com 24 anos de idade, Shrem, que movimentou milhões de dólares em bitcoin ao longo dos anos, não é a primeira pessoa no mundo das moedas virtuais a terminar algemado, mas é o mais central dos protagonistas a encarar um processo. A recente virada de maré – e a meteórica ascensão que levou a isso – o tornam um símbolo dos altos e baixos que até agora definiram a experiência do Bitcoin, enquanto o valor de todas as moedas existentes passa dos US$ 10 bilhões.

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A moeda virtual – dinheiro digital que pode ser trocado entre carteiras online usando chaves virtuais – abriu caminho para ambições de mudar o mundo, fortunas de dinheiro novo e badalação global. Porém, todo esse estilo de vida refinado parecia a um passo de uma batida policial ou da repressão governamental.

Incertezas do Bitcoin

Durante entrevista recente, Shrem disse que, principalmente nos primeiros dias da Bitcoin, nem sempre estava claro o que era certo ou errado.

"Havia tantas coisas ruins acontecendo e tão poucas boas, que era preciso mergulhar na coisa e elevá-la."

De sua própria parte, ele admitiu, "então eu ainda não sabia direito o que era legal e o que era ilegal".

A incerteza provém – em boa parte – da falta de clareza sobre quais leis se aplicam às transações com bitcoin – e a relativa falta de interesse das agências de manutenção da ordem pública. Entretanto, além dessa incerteza, os problemas da Bitcoin surgiram da tendência de atrair personalidades rebeldes que querem testar a ordem estabelecida.

Desde a prisão de Shrem, algumas das principais figuras no mundo da Bitcoin se distanciaram de suas atividades. A Fundação Bitcoin, da qual Shrem era vice-presidente, afirmou em comunicado oficial divulgado após sua renúncia que "valia a pena ressaltar que a acusação em si não é contra a Bitcoin nem a comunidade como um todo".

Contudo, poucos vieram em seu auxílio. Roger Ver, um dos primeiros investidores na empresa de Shrem, disse que ele era uma "pessoa confiável, que nunca cometeria um crime no qual houvesse uma vítima".

Quase todo mundo que conhece Shrem concorda que ele era um vendedor carismático da Bitcoin quase desde o primeiro momento em que conheceu o dinheiro digital.

Bitcoin virou obsessão

Shrem disse que começou a lidar com a Bitcoin durante seu último ano no Brooklyn College em 2011. Ele cresceu no Brooklyn, formou-se em uma escola judia particular e fundou uma empresa durante os primeiros anos de faculdade.

Porém, a Bitcoin logo virou sua paixão.

"Eu me tornei obcecado", ele contou ao site MeetInnovators no ano passado.

Ele logo percebeu como era difícil trocar dólares por bitcoin e assim ajudou a fundar a empresa, BitInstant, com outro dos primeiros usuários que conheceu online. Para arrecadar dinheiro para a BitInstant, Shrem recorreu ao seu encanto de vendedor, até mesmo com a mãe.

"Eu falei: 'Mãe, eu adoro essa ideia e pus todo meu dinheiro nela, e nós vamos crescer rapidamente'", ele afirmou durante entrevista no ano passado à estação de televisão russa RT. "Ela me passou um cheque naquele dia mesmo."

Ele utilizou poderes de persuasão similares com Ver e os irmãos Winklevoss, famosos graças ao Facebook, que ajudaram a liderar uma rodada de levantamento de recursos de US$ 1,5 milhão.

Após a prisão de Shrem, os irmãos afirmaram que "éramos investidores passivos na BitInstant e faremos tudo que estiver ao nosso alcance para auxiliar a polícia".

Estrela do Bitcoin

O carisma de Shrem logo o levou além das fronteiras da empresa. Ele foi um dos fundadores do Conselho de Administração da Fundação Bitcoin e se tornou orador frequente nos eventos da entidade. Shrem fez um investimento, em bitcoin, no EVR, bar fundado por alguns amigos, que se tornou ponto de encontro para as festas da Bitcoin. Ele morava com os outros proprietários em um apartamento de cinco quartos acima do bar e badalava com a namorada, que às vezes trabalhava como garçonete logo abaixo.

O perfil de Shrem publicado no ano passado no site Vocativ dizia que em meio a tudo isso, ele nunca parou de se divertir.

Segundo a reportagem, ele afirmou que "não vou contratá-lo se não beber ou fumar maconha com você".

Há pouco tempo, Shrem afirmou que o comentário foi tirado do contexto e que era apenas uma brincadeira. Todavia, ele nunca foi discreto sobre o quanto atuava no mundo da Bitcoin. Durante a entrevista recente no EVR, ele relatou a conversa com uma antiga reguladora financeira: "Ela me falou: 'Charlie, você e seus amigos se tornaram grandes especialistas em finanças, direito, Patriot Act [legislação antiterrorista de 2001, aprovada após o atentado às Torres Gêmeas] e todas essas coisas'."

"Eu respondi: 'É por causa da Bitcoin.'"

Envolvimento com site de drogas

No final, foi seu negócio básico que lhe rendeu problemas. A acusação de lavagem de dinheiro, apresentada em 27 de janeiro, afirma que ele ajudou a trocar dólares por bitcoin para pessoas que queriam comprar drogas no site Silk Road apesar de conhecer sua intenção e ser alertado pelo sócio.

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As acusações surpreenderam porque Shrem costumava participar de eventos da Bitcoin falando sobre como efetuar trocas por bitcoin legalmente. Em uma conferência da Bitcoin no ano passado, ele se gabou de que a BitInstant "será a cidade brilhante no alto da colina".

Meses após o evento, o banco da BitInstant encerrou a conta da empresa repentinamente. A empresa saiu do ar logo depois disso, sendo processada por clientes que alegaram que ela deturpou seus serviços e buscavam uma ação civil pública.

Contudo, isso não atrapalhou os grandes planos de Shrem. Em janeiro, seu objetivo era reabrir a BitInstant no primeiro trimestre deste ano após arrecadar mais recursos. Depois da prisão, ele não pode negociar na Bitcoin, mas as grandes ambições para a moeda e si mesmo não chegaram ao fim.

"Tendo oportunidade, voltarei ao circuito de palestras e a ser um divulgador da Bitcoin. Ao mesmo tempo, quanto mais exposição se tem, mas cuidado é preciso tomar. É assustador."

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