Em entrevista exclusiva a AP, Nakamoto disse que alguém deve ter escolhido ele como bode expiatório

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Dorian Prentice Satoshi Nakamoto, engenheiro de 64 anos, nega ser o criador do bitcoin
AP Photo/Damian Dovarganes
Dorian Prentice Satoshi Nakamoto, engenheiro de 64 anos, nega ser o criador do bitcoin

Dorian Prentice Satoshi Nakamoto disse nessa quinta-feira (6) que ele não é o criador do bitcoin, acrescentando ainda mais mistério à história de como moeda digital mais popular do mundo nasceu. A negativa veio depois que a revista Newsweek publicou uma reportagem de capa de 4.500 palavras alegando que Nakamoto é a pessoa que escreveu as bases do código do bitcoin .

Em uma entrevista exclusiva de duas horas com a Associated Press, Nakamoto, 64 anos, negou que tivesse alguma coisa a ver com isso e disse que nunca tinha ouvido falar de bitcoin até seu filho vir e lhe dizer que tinha sido contatado por uma repórter da Newsweek há três semanas.

Nakamoto reconheceu que muitos dos detalhes da reportagem da Newsweek estão corretos, incluindo o fato de que ele trabalhou para uma empresa de defesa, e que seu nome de nascimento era Satoshi. Mas ele veementemente contestou a afirmação da revista de que é "o rosto por trás do bitcoin".

"Eu não tenho nada a ver com isso", disse, repetidamente.

A Newsweek reforçou sua história, que marcou o relançamento da sua edição impressa depois de 15 meses de reorganização sob um novo comando.

Desde o nascimento do bitcoin, em 2009, o criador da moeda tem permanecido como um mistério. A pessoa - ou pessoas - por trás da criação da moeda digital é conhecida apenas como "Satoshi Nakamoto”, que muitos observadores acreditam que seja apenas um pseudônimo.

O bitcoin se tornou popular entre os entusiastas da tecnologia, libertários e investidores em busca de risco porque permite que as pessoas façam transações um-para-um, comprem bens e serviços em troca de dinheiro sem fronteiras e sem envolver bancos, cartão de crédito ou outros terceiros. Criminosos gostam do bitcoin pelas mesmas razões.

Por várias razões técnicas, é difícil saber quantas pessoas no mundo possuem bitcoins, mas a moeda atraiu uma atenção descomunal da mídia e o fascínio de milhões conforme aumenta o número de grandes varejistas como Overstock.com que começam a aceitá-la.

Especuladores também entraram na briga do bitcoin, fazendo o valor da moeda flutuar descontroladamente nos últimos meses. Em dezembro, o valor de um único bitcoin atingiu a maior alta de todos os tempos de US$ 1,200. Chegou a valer por volta de US$ 665 na quinta-feira (6), de acordo com o site bitcoincharts.com. Blogueiros têm especulado que o criador do bitcoin possui centenas de milhões de dólares em bitcoin.

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Após a Newsweek publicar a história em seu site no início da quinta-feira (6), Nakamoto disse que sua casa foi bombardeada por telefonemas. No meio da manhã, uma dúzia de jornalistas esperava do lado de fora da sua modesta casa de dois andares em uma rua residencial em Temple City, na Califórnia, onde vive. Ele saiu pouco depois do meio-dia dizendo que queria falar com um repórter apenas e pediu um "almoço grátis”.

Durante um passeio de carro e, em seguida, um sushi durante o almoço no escritório da AP no centro de Los Angeles, Nakamoto falou longamente sobre sua vida, carreira e família, dirigindo muitas das afirmações ao texto da Newsweek.

Ele também disse que uma parte importante da matéria - onde ele é citado dizendo a repórter em sua porta na frente de dois policias "Eu não estou mais envolvido nisso e eu não posso discutir isso" - foi mal interpretada.

Nakamoto disse que ele nativo de Beppu, no Japão, que veio para os EUA ainda criança, em 1959. Fala inglês e japonês, mas que seu inglês não é perfeito. Perguntado se ele disse a frase citada, Nakamoto respondeu "não".

"Eu estou dizendo que eu não estou mais na engenharia. Só isso", ele disse em troca. “E mesmo que estivesse, quando você é contratado, tem que assinar um documento, um contrato dizendo que você não vai revelar nada durante e nem após o emprego. Então é isso que estava subentendido."

“Pareceu que eu estava envolvido com bitcoins antes e que eu não estou envolvido agora. Isso não é o que eu quis dizer. E eu quero esclarecer isso", ele disse.

A jornalista da Newsweek Leah McGrath Goodman, que passou dois meses pesquisando a história, disse à AP: "Eu mantenho a conversa que tive com o Sr.Nakamoto. Não houve confusão alguma sobre o contexto da nossa conversa e o reconhecimento de seu envolvimento com o bitcoin."

A revista reuniu sua tese sobre a identidade do criador combinando o nome de Nakamoto, sua história educacional, carreira, tendência anti-governo e estilo de escrita para então alegar que ele é o criador do bitcoin. Também é citado que a ex-mulher de Nakamoto e outros membros da família disseram que não tinham certeza de que ele era o criador.

Várias vezes durante a entrevista com AP, Nakamoto erroneamente se referiu à moeda como "bitcom”, como se fosse uma única empresa, o que não é o caso. Ele disse que nunca ouviu falar de Gavin Andresen, um líder entre os desenvolvedores de bitcoin que disse à Newsweek que trabalhou de perto com uma pessoa ou entidade conhecida como "Satoshi Nakamoto" no desenvolvimento do sistema, mas que eles nunca se encontraram pessoalmente ou falaram por telefone.

Quando apresentado ao texto com a proposta original do bitcoin em que Newsweek baseou sua história, Nakamoto disse que não o escreveu e disse que o endereço de e-mail no documento não era dele.

"Peer-to-peer pode ser qualquer coisa", ele disse. "Isso é apenas uma questão de endereço. Mas que diabos? Não faz sentido para mim."

Perguntado se ele era tecnicamente capaz de chegar ao conceito de bitcoin, Nakamoto respondeu: "Capacidade? Sim, mas qualquer programador pode fazer isso".

O mais próximo que Nakamoto chegou a trabalhar foi em um sistema financeiro, em um projeto para o Citibank com uma empresa chamada Quotron, que fornecia preços de ações em tempo real para empresas de corretagem. Nakamoto disse que trabalhou no software durante quatro anos, tendo começado em 1987.

"Isso não tem nada a ver com instituições financeiras", ele disse.

Nakamoto afirma que alguém surgiu com seu nome ou viu nele um alvo, para ser bode expiatório para a criação da moeda.

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Ele também disse que não discute sua carreira porque, em muitos casos, seu trabalho era confidencial. Quando ele estava empregado na Hughes Aircraft por volta de 1973, ele trabalhou em sistemas de mísseis para a Marinha dos EUA e para a Força Aérea.

Nakamoto também contou que trabalhou para a Administração Federal de Aviação por volta de 1999, mas que foi demitido após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Ser contratado por uma empresa militar foi a razão de ele solicitar e receber a cidadania americana. Nessa época, ele decidiu mudar o seu nome, acrescentando "Dorian Prentice" em Satoshi Nakamoto para soar mais ocidental. Ele disse que escolheu "Dorian" porque significa "um homem simples" e que faz referência ao antigo povo grego. "Prentice" alude a sua facilidade de aprender.

Conforme se debruçava sobre a história da repórter da Newsweek, Nakamoto repetidamente dizia "oh, caramba” enquanto lia detalhes particulares sobre si mesmo, citações de membros da família, e até mesmo detalhes de sua história médica.

“Quanto tempo essa comoção da mídia vai durar?", ele disse.

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