Monitores de hoje incorporam componentes motivacionais, incluindo redes sociais e lembretes eletrônicos amigáveis que convida o usuário a se exercita

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Samsung Gear Fit é pulseira que exibe notificações no smartphone
Reuters
Samsung Gear Fit é pulseira que exibe notificações no smartphone

As tecnologias de vestir – aqueles braceletes, relógios e aparelhos de colocar na cintura para registrar todos os seus movimentos – representam uma promessa incrível para a melhoria da saúde e do desempenho físico. Entretanto, como sempre acontece, a tecnologia se adiantou à Ciência e os cientistas ainda estão tentando descobrir se esses monitores funcionam conforme o prometido, qual é a melhor maneira de manter as pessoas motivadas a usá-los, e o que exatamente esses dispositivos estão tentando alcançar.

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Para medir a precisão dos monitores de atividade utilizados nos pulsos e cinturas, os pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona realizaram dois estudos, com resultados incongruentes. A pesquisa, apresentada no verão do ano passado no encontro anual do Colégio Americano de Medicina Esportiva, testou os aparelhos em comparação com as máscaras pesadas que são colocadas nos rostos dos voluntários para medir o consumo de oxigênio. Esses aparelhos são a medida ideal para determinar o gasto de energia (embora não forneçam conforto, comodidade e nem estilo).

Depois de pedir aos participantes que realizassem atividades como exercícios, jogos e trabalhos domésticos, os pesquisadores descobriram que os monitores eram capazes de recordar os movimentos de alguns, mas não de todos os participantes do estudo. Os aparelhos registraram corretamente os movimento para a frente; contaram o número de passos dados pelos voluntários enquanto caminhavam ou faziam jogging, e determinaram com precisão o consumo correspondente de calorias.

Veja na galeria abaixo alguns dispositivos vestíveis lançados na CES 2014:

Baixa intensidade

Porém, os monitores não foram capazes de medir os movimentos mais sutis, como o tempo que os voluntários passavam em pé, jogavam Scrabble, pedalavam lentamente uma bicicleta ergométrica, ou usaram uma vassoura para limpar o laboratório de Fisiologia.

De forma geral, os resultados sugerem que os monitores de atividade vendidos no varejo "não detectam atividades de baixa intensidade com muita precisão", afirma Glenn Gaesser, professor e diretor do Centro de Pesquisa de Estilos de Vida Saudáveis, da Universidade do Estado do Arizona, que supervisionou um dos estudos.

Os aparelhos dependem de equações matemáticas que "foram desenvolvidas a partir de atividades fáceis de mensurar, tais como caminhadas rápidas e jogging", explica.

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Naturalmente, os cientistas raramente têm acesso às últimas tecnologias. Eles emprestam os monitores aos voluntários, calibram as leituras, escrevem as descobertas, preparam tudo para a publicação – e quando chegam ao fim, os modelos já foram melhorados e atualizados.

"Os algoritmos mudam tão rápido que a academia não consegue acompanhar", afirma Nate Meckes, professor assistente de Ciências Aplicadas aos Exercícios na Azusa Pacific University, na Califórnia, que liderou o outro estudo apresentado no ano passado. Ele espera que o fabricantes de monitores de atividades liberem seus algoritmos e softwares para que os cientistas os revisem e confiram. Mas, até onde ele sabe, ninguém faz isso.

Precisão X Exatidão

A FDA (órgão norte-americano) não regulamenta esse tipo de aparelho; nenhuma agência externa ou organismo avalia sua precisão. Entretanto, essas falhas não parecem incomodar os usuários casuais.

"Existe uma diferença entre precisão e exatidão", diz Ray Browning, professor assistente de Ciências dos Exercícios na Universidade do Estado do Colorado, que estuda os monitores de atividades há muitos anos. Atualmente, os modelos podem não ter a maior exatidão, afirmou; o registro do gasto de calorias não poderia ser comparado ao de um teste laboratorial sofisticado.

Ainda assim, os monitores são bastante precisos. Amanhã o aparelho vai exagerar para mais ou para menos os gastos de caloria de um indivíduo com a mesma precisão de hoje. Sendo assim, os usuários podem contar com esses monitores para acompanhar os padrões e observar suas mudanças ao longo do tempo, afirmou Browning.

Atletas

Todavia, os monitores de atividade não podem prometer uma mudança de comportamento. "O fator motivacional é um problema impossível de esconder", afirma.

Os monitores de hoje frequentemente incorporam componentes motivacionais, incluindo redes sociais e lembretes eletrônicos amigáveis vindos de um sistema eletrônico integrado que convida o usuário a se exercitar. Contudo, até agora nenhum estudo de longa duração e revisado por pares demonstrou que as pessoas que utilizam monitores de atividade se tornam e continuam a ser mais ativas. E as pessoas podem ser consumidores complexos e perversos de atividades físicas.

"Imagine que você esteja tendo uma semana terrível no trabalho", disse Browning. "Você está cansado e de cabeça cheia". É provável que a última coisa que você deseja é que um aparelho esteja compartilhando sua preguiça com uma rede de conhecidos sociais".

Por enquanto, a eficácia de longo prazo dos monitores atuais para o aumento da movimentação e a melhoria da saúde "é uma pergunta sem resposta", afirmou Gaesser.

Entretanto, os monitores podem ser especialmente benéficos para um grupo que normalmente não os veria como uma necessidade: pessoas que já são ativas e, em especial, atletas.

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A revisão de um conjunto de estudos recentes publicada em fevereiro pela The Journal of Strength and Conditioning Research concluiu que o uso do GPS e de monitores cardíacos e tecnologias similares por jogadores de futebol, críquete, rúgbi, e hóquei poderia resultar em "melhorias significativas na preparação, no treinamento e na recuperação de equipes de esportes de campo".

A maioria desses monitores não atrapalha as atividades, podendo ser integrados aos relógios ou às roupas dos atletas, incluindo calçados, camisas, meias e sutiãs esportivos, "embora os chamemos de coletes para que os caras que precisam usá-los não se sentam mal", afirmou Lynda Ransdell, reitora do Colégio de Educação, Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade do Estado de Montana, que supervisionou a revisão.

Segundo ela, ao utilizarem dados desses aparelhos, treinadores e atletas podem calcular com precisão onde cada jogador se encontra dentro do campo durante jogadas bem ou mal sucedidas.

Por mais atraente que o monitoramento e o treinamento individualizados possam parecer, eles não são e provavelmente não se tornarão um pré-requisito para atletas recreativos que levam sua atividade a sério, analisa Gaesser.

Monitoração pessoal

Aparentemente, pessoas despidas de tecnologias – que não utilizam quaisquer aparelhos eletrônicos – são igualmente capazes de monitorar a atividade sem a necessidade dessas tecnologias. Gaesser demonstrou que simplesmente perguntar o nível de atividade das pessoas revela estimativas tão precisas quanto seu monitoramento.

Essa abordagem de baixa tecnologia "não é sexy", afirma Gaesser, "mas funciona tão bem quanto, senão melhor" que contar demais com um monitor para guiar a prática de exercícios.

Isso porque os seres humanos, diferentemente dos aparelhos eletrônicos, são capazes de detectar uma série de fatores específicos, incluindo frequência cardíaca, consumo de oxigênio, esforço muscular, e cansaço mental " que as tecnologias ainda não podem mensurar".

Ainda não.

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