Entusiastas da moeda virtual acreditam que, tal qual foi com a internet, o bitcoin irá encontrar um terreno seguro para atuar, contando com ajuda dos homens e não apenas das máquinas

NYT

Quase meio bilhão de dólares desapareceram e ninguém sabe como. Alguns dizem que se trata de um assalto puro e simples. Outros suspeitam de fraude. Muitos culpam a falta de controle, vigilância e, acima de tudo, a sensação internacional desmedida de que o ambiente se trata de uma terra de ninguém – um ambiente que todos acreditam precisar de uma reforma generalizada.

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Alguns defensores da moeda digital estão pedindo supervisão humana para se proteger contra mais perdas como no caso Mt. Gox
Stuart Goldenberg/The New York Times
Alguns defensores da moeda digital estão pedindo supervisão humana para se proteger contra mais perdas como no caso Mt. Gox

Eu não estou falando do Bitcoin. O assunto é o Citigroup, que revelou recentemente que sua unidade mexicana perdeu mais de 400 milhões de dólares em uma fraude contratual envolvendo uma empresa de serviços petrolíferos.

Para os apoiadores do Bitcoin, a revelação do Citigroup se converteu em uma poderosa arma retórica: veja bem – dizem os defensores da moeda digital – se uma das maiores e mais bem reguladas instituições financeiras do mundo é capaz de perder toneladas de dinheiro, por que tanta gente está se preocupando com o colapso de 470 milhões de dólares do Mt. Gox, que já foi a maior bolsa de Bitcoins?

Nos últimos anos, o sistema financeiro convencional passou de uma fraude à outra - de Bernie Madof à MF Global, passando pela invasão da Target – e, ainda assim, ninguém fala em abandonar dinheiro como forma de ganhar mais dinheiro. Afinal, por que não somos tão tolerantes ao abordarmos o Bitcoin?

Esse é um ótimo argumento, mas a comparação entre o prejuízo do Citigroup e a queda do Mt. Gox destaca justamente o quão indomável e estranha a moeda digital pode ser. Quando escândalos tomam conta de instituições financeiras tradicionais, como o Citigroup, ocorrem investigações e movimentos em favor de mais controles – de um controle mais humano.

Entretanto, o Bitcoin nasceu justamente da falta de confiança nos seres humanos e suas instituições. Ele se baseia na crença de que a segurança financeira surge a partir da integridade da tecnologia; um código de computador que controla o sistema de pagamento, ao invés da confiabilidade dos seres humanos que participam do processo.

Para salvar a moeda nascente, os apoiadores do Bitcoin podem ser forçados a alterar sua filosofia e adotar os mesmo humanos bagunceiros – auditores, seguradores e até mesmo reguladores – que os defensores mais apaixonados da moeda sempre abominaram.

Segurança dos bitcoins em mãos humanas?

Essa situação levanta duas questões difíceis: A supervisão humana pode se integrar ao etos de liberdade do Bitcoin rápido o bastante para que a moeda se torne segura? E o Bitcoin pode se tornar mais seguro sem atrapalhar a abertura que seus defensores afirmam tornar o Bitcoin uma plataforma financeira tão barata, eficiente e inovadora? No momento, as respostas continuam no ar.

Algumas pessoas que fazem parte do lado mais convencional do mundo do Bitcoin – empresas que investiram em capital de risco e que estão tentando atrair os investidores convencionais e as grandes empresas – afirmam que estão dispostos a encarar o desafio. Eles trabalham para criar auditorias técnicas e financeiras rigorosas dos sites de compra e venda de bitcoins, e para criar mecanismos de segurança para que os proprietários da moeda não sejam afetados por perdas catastróficas como as do Mt. Gox. Existem inclusive iniciativas em favor da supervisão governamental.

"Estamos em busca dos reguladores, porque queremos que o Bitcoin seja um segmento regulamentado", afirma Brian Armstrong, um dos fundadores e executivo-chefe do Coinbase, um site que permite que as pessoas comprem, armazenem e vendam bitcoins, e que recebeu investimentos de algumas das principais empresas de risco do Vale do Silício.

Ele afirmou que se reuniu com reguladores estaduais e federais para discutir o Bitcoin. "Mesmo que todo mundo que compre e venda bitcoins não acredite na regulamentação, acreditamos que essa seja uma forma de ajudar a moeda a crescer e aumentar o fluxo de transações pela rede".

Mt. Gox

A forma mais direta de aumentar a segurança do Bitcoin também é a mais óbvia: realizar auditorias independentes nos sites. O Mt. Gox, que funcionava com um site de compra e venda de bitcoins e também como uma "carteira" que armazenava os bitcoins das pessoas, nunca abriu as contas para comprovar que tinha todos os fundos que afirmava ter armazenado, nem exibiu os métodos técnicos que estava usando para salvaguardar esses fundos.

A opacidade do site tornará a investigação das perdas ainda mais difícil. Teorias sobre como o Mt. Gox realmente perdeu todo o dinheiro e onde ele foi parar têm consumido os sites de discussão sobre o Bitcoin. O Mt. Gox afirmou que foi hackeado diversas vezes ao longo dos anos por meio de uma pequena falha do Bitcoin conhecida como "maleabilidade de transações". A falha permite que os hackers alterem o pagamento de um bitcoin no meio do procedimento, de forma a levar o site a emitir um pagamento duplo.

Entretanto, na falta de auditorias, muitas pessoas no mundo do Bitcoin têm dificuldades em crer na teoria de que o site foi hackeado. Por outro lado, a maioria das teorias sobre como o Mt. Gox pode ter perdido meio bilhão de dólares – um roubo por parte do governo ou um erro criptográfico – também foi desmentida. É possível que nunca saibamos ao certo o que aconteceu com aquele meio bilhão de dólares. Ele simplesmente desapareceu.

Auditorias, seguros ou depósitos?

Armstrong afirmou que para prevenir que algo similar venha a acontecer com a Coinbase, a empresa planeja contratar auditores independentes para realizar uma investigação pública de suas posses tanto em bitcoins, quanto em dólares. O site também publicou recentemente uma "auditoria de segurança" de seus processos técnicos, que comprovou que a empresa cumpre de fato a promessa de armazenar a maior parte do dinheiro em "locais frios", ou seja, em máquinas que não estão conectadas à internet.

Além disso, existem iniciativas mais exageradas para aumentar a segurança do Bitcoin. O Elliptic, um site britânico de armazenamento de bitcoins, oferece um seguro opcional para os bitcoins. Por uma taxa de cerca de dois por cento dos bitcoins ao ano, o site promete devolver o dinheiro caso você perca os fundos por roubo ou negligência.

Outra empresa, a Inscrypto, trabalha com o que chama de "uma versão descentralizada da FDIC", um sistema similar ao da Empresa Federal de Seguro de Depósitos (FDIC, na sigla em inglês), que protege as poupanças americanas. O sistema, que ainda não está completo, é muito mais complexo que os seguros de depósitos tradicionais, utilizando vendas derivativas para proteger contra as alterações drásticas de preço e os outros perigos do Bitcoin. No momento, ainda não se sabe quanto isso tudo vai custar, ou mesmo se vai funcionar. A empresa, assim como muitas outras do mundo do Bitcoin, não quis comentar o assunto.

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Para alguns apoiadores do Bitcoin, o aumento no número de ideias voltadas para proteger os consumidores é por si só uma prova da superioridade da moeda digital, se comparada às moedas antigas. Uma das características mais bem vistas do Bitcoin é a sua abertura, a ideia de qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode criar um centro de negociações na rede de pagamentos. A abertura retira as barreiras de entrada; permite que sites com ideias financeiras mais novas, seguras e inovadoras vendam suas mercadorias, enquanto as preocupações pequenas como a do Mt. Gox morrem sob sua própria incompetência. Cria-se uma corrida darwinista em direção a um Bitcoin mais seguro.

No curto prazo, essa dinâmica gera consequências terríveis ao usuário mas, em algum momento, afirmam os defensores do Bitcoin, os piores problemas são eliminados.

Internet como exemplo bem-sucedido

O mundo do Bitcoin faz uma analogia frequente com os primórdios da internet e da rede mundial de computadores. Há apenas uma década e meia, a internet era uma rede sem limites, comandada pela pornografia e pela troca ilegal de arquivos, um lugar onde a fraude era frequente e o perigo se escondia em cada esquina. Atualmente, a internet ainda é tudo isso, mas também possui espaços mais respeitáveis, locais onde é possível colocar as fotos dos seus filhos, onde se podem comprar presentes de natal, ter conversas seguras com seu médico, ou onde empresas podem faturar bilhões de dólares sem o medo de fraudes.

"A história do Bitcoin vai ser basicamente a mesma", afirma Armstrong. Ela começa com um "avanço fundamental que baixou o custo dos pagamentos, mas haverá muitos detalhes que terão de ser acertados e, como nos primórdios da internet, vai demorar algum tempo para que a infraestrutura se estabeleça". Assim que isso acontecer, Armstrong afirma crer que as moedas virtuais serão irrefreáveis.

A menos, é claro, que a ideia de que meio bilhão de dólares possa desaparecer sem deixar qualquer rastro deixe as pessoas temerosas o bastante para ficarem longe do Bitcoin para sempre.

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