Um dos maiores problemas para a maioria dos ciclistas é o medo de não serem vistos pedalando nas ruas

NYT

Em um vídeo com inúmeras visualizações no YouTube, um ciclista chamado Casey Neistat deliberadamente toma uma série de tombos enquanto tenta pedalar pelas ciclovias obstruídas de Nova York. O vídeo é engraçado – e até inclui um carro de polícia parado na ciclovia –, mas também tocou em um problema comum entre os ciclistas de todo o país, que também enfrentam uma série interminável de perigos nas pistas.

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Em áreas urbanas, muitos ciclistas têm boas razões para ficarem nervosos, e isso faz parte de um círculo vicioso.

Veja gadgets e aplicativos criados para a segurança dos ciclistas:

"O erro mais comum dos novos ciclistas é não pedalar de forma previsível", afirmou Ken Podziba, executivo-chefe da Bike New York, um grupo sem fins lucrativos que promove o ciclismo na cidade. "Por exemplo, pessoas que têm medo de serem atingidas por trás por um carro frequentemente fazem coisas como subir na calçada ou pedalar na contramão, o que aumenta o perigo de acidente com motoristas que não os vejam. O medo é o pior inimigo do ciclista".

Criados em parte pela demanda dos novos ciclistas e em busca de mais conforto e segurança nas ruas, novos aplicativos e aparelhos prometem fazer para as bicicletas o que os airbags e os GPSs fizeram para os carros familiares. O que costumava ser um modo simples e saudável de transporte, está se transformando em um festival de tecnologia sobre rodas.

Talvez isso pudesse ser esperado. O ciclismo ganhou força nos últimos anos, ajudado por programas de compartilhamento de bicicletas e pelo esforço para a criação e melhoria das ciclovias. Nova York, Chicago e São Francisco introduziram os programas de compartilhamento de bicicletas no ano passado e uma dúzia de cidades em todo o país fizeram o mesmo.

Entre 1990 e 2012, o número de pessoas que vão de bicicleta ao trabalho quase dobrou nas 70 maiores cidades do país, de acordo com os dados coletados pela Liga Americana dos Ciclistas. Atualmente, os americanos fazem mais de quatro bilhões de trajetos de bicicleta ao ano.

Ciclistas do futuro

Um dos maiores problemas para a maioria desses ciclistas é o medo de não serem vistos. Jonathan Lansey, de 28 anos, passa tanto tempo desviando de carros em sua ida diária ao trabalho, em Boston, que ele começou uma campanha no Kickstarter para financiar a produção de uma bicicleta que sempre chame a atenção dos motoristas. Sua criação, a Loud Bicycle, tem a buzina de um carro de duas toneladas, com um total de 112 decibéis.

"As pessoas ficam com vergonha quando buzinam para elas, mas é muito mais vergonhoso quando quem buzina é uma bicicleta", afirmou Lansey.

Ele testou a buzina em sua ida ao trabalho e descobriu que os motoristas reagiam imediatamente, como fariam com outro carro. "Eles têm mais medo de danificar seus carros, do que de machucar outras pessoas", destacou.

Philip McAleese (39), de Newtownards, Ireland do Norte, também queria tornar os ciclistas mais visíveis, por isso, ele desenvolveu um farolete chamado See.Sense, que possui sensores que reagem à luz e ao movimento próximos à bicicleta. Se o ciclista faz uma curva ou breca, por exemplo, a luz pisca em padrões similares ao de uma ambulância ou carro de polícia. O See.Sense também tem um farol bem aberto, para que a bicicleta seja visível de todos os ângulos, ajudando a evitar colisões laterais.

Mas, afinal, quem precisa de ciclovias? A lanterna The Xfire Bike Lane vem equipada com dois lasers vermelhos de grande visibilidade que projetam duas linhas de 50 centímetros na estrada, criando uma ciclovia improvisada. A via iluminada é visível a motoristas a até 1,5 quilômetro de distância, segundo o fabricante.

Entretanto, o salto mais considerável na segurança high-tech é um capacete inflável conhecido como Hovding, que funciona basicamente como o airbag de um automóvel. O aparelho, que se usa em torno do pescoço como um lenço da moda, detecta o impacto e infla como uma espécie de capacete instantâneo em torno do pescoço e da cabeça do usuário.

Testes realizados pela companhia de seguros Folksam, na Suécia, sugerem que ele pode ser até três vezes mais eficaz que os capacetes convencionais. Entretanto, os ciclistas nos EUA terão de esperar um pouco para adquirir um; no momento, o Hovding é vendido apenas na Europa.

Proteção para bicicletas

Além da segurança pessoal, os ciclistas se preocupam em proteger as bicicletas. Um aparelho conhecido como BikeSpike, preso ao quadro, permite que o usuário acompanhe a localização da bicicleta pelo smartphone, para que seja possível encontrar a bicicleta roubada ou saber onde um familiar ou amigo está. Por uma taxa mensal, o aplicativo também envia alertas ao smartphone sobre quando alguma bicicleta se acidentou, desviou de seu rumo esperado (como o de uma criança que está longe demais de casa), ou foi alterada de alguma maneira. O BikeSpike estará à venda no segundo trimestre.

O BitLock é um cadeado com um toque especial: ele pode ser travado e destravado pelo celular, e não apenas o do ciclista. Uma vez que outros usuários tenham permissão, eles podem utilizar o aplicativo – que também fornece a localização da bicicleta – para que ela seja retirada no local onde foi deixada pela última vez. O resultado: um programa instantâneo de compartilhamento de bicicletas, sem a necessidade de locais caros para deixar as bicicletas pela cidade. Os cadeados estarão disponíveis à venda no segundo semestre.

Para os ciclistas que desejam levar a tomada de dados a um novo nível, existe a Copenhagen Wheel, que substitui a roda traseira que vem com a bicicleta por outra que acompanha como o ciclista pedala, as distâncias percorridas e as calorias queimadas. A roda também inclui um motor que entra em ação nas subidas mais íngremes e que tem a intenção de acabar com uma das maiores objeções dos ciclistas potenciais que acham o caminho até o trabalho muito longo o difícil, e transformam a opção em uma alternativa mais atraente que sentar no banco do carro. A roda já pode ser pré-encomendada pela internet.

Para muitos ciclistas, o aparelho mais importante é o telefone. O Atom, uma bateria USB que se recarrega a cada pedalada, pode ser conectado diretamente a qualquer aparelho via USB, seja o telefone ou a lanterna, ou ser removido da bicicleta para carregar o aparelho após o trajeto. "Estamos fornecendo energia móvel para tecnologias móveis", afirmou David Delcourt, executivo-chefe da fabricante, a Siva Cycles. O equipamento está em fase de pré-encomenda online, com envio a partir de julho.

Tecnologia como distração

Contudo, nem todos os ciclistas estão entusiasmados com o desenvolvimento da bicicleta-robô. Eles afirmam que as novas tecnologias podem se tornar uma distração para os ciclistas que precisam se concentrar na estrada.

Talvez, o que realmente seja necessário seja desenvolver as habilidades dos ciclistas na vida real, juntamente com equipamentos como uma buzina barulhenta e uma luz mais clara para tornar as ruas menos intimidadoras.

"Você pode preparar sua bicicleta com todas as tecnologias de ponta, o que é ótimo", afirma Podziba, da Bike New York, que oferece passeios guiados por Nova York. "Porém, é preciso lembrar que a rua é compartilhada com outros motoristas e outros ciclistas, que estão acostumados a certos comportamentos".

Uma vez que os ciclistas perdem o medo, acrescentou, "o caos do dia a dia pode se tornar divertido, interessante, e conectá-los a essa cidade maravilhosa de uma forma incomparável".

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