Empresa americana trabalha em conjunto com designers e pequenas startups

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Nova York – A primeira coisa que Duann Scott faz quando chega à fábrica da Shapeways, no Queens, é verificar as pilhas de caixas amarelas em uma sala toda branca que lembra o interior de uma nave espacial, e contêm as últimas impressões que saem das máquinas.

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A Shapeways, um serviço de impressão 3-D e mercado on-line, já foi descrita como a Amazon da impressão 3-D por conta do seu modelo de negócio sob encomenda, e não apenas pelo seu volume de produção descomunal: as máquinas produzem cerca de 120 mil objetos por mês, um fluxo corrente de projetos que vão do mundano ao surpreendente.

Veja objetos curiosos impressos pela Shapeways

Recentemente, uma busca rápida pelas caixas revelou um par de óculos flexíveis de armação preta, uma maquete de um biplano, um anel de bronze cheio de detalhes, vagões de trens de plástico suficientes para formar uma ferrovia em miniatura e uma estatueta de duas minúsculas mulheres roxas sobre trapézios também roxos e minúsculos. Scott geralmente não faz a menor ideia de como serão usadas essas coisas. Mas isso não diminui o sorriso que abre ao olhar um por um.

Scott, um australiano alto e barbudo de 39 anos, detém o título de propagandista de designs da Shapeways. Ele é jurado de concursos de design 3-D, dá palestras em escolas e empresas e participa de eventos como o South by Southwest Interactive, em Austin, no Texas, onde, em março, ele e seus colegas de trabalho levaram um scanner 3-D para festas (os convidados que se interessavam eram digitalizados e podiam encomendar uma miniatura de si mesmos).

Scott também passa boa parte do seu dia vasculhando não apenas as caixas, mas todos os projetos enviados para o site da Shapeways em busca de maravilhas do design em 3-D. Quando se impressiona com o trabalho de um designer, liga e oferece os recursos da empresa, apresenta o designer no blog Shapeways, ou envia um convite para uma festa – ou, como fez com Bradley Rothenberg, arquiteto e designer baseado em Manhattan, recomenda a pessoa em questão para marcas que têm interesse na tecnologia de impressão 3-D.

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Depois de ver uma palestra de Rothenberg há mais ou menos um ano, Scott sugeriu o seu trabalho para representantes da Victoria’s Secret. O designer projetou asas de anjo feitas de flocos de neve e outras peças com base em esboços da equipe de design da empresa, que foram então usadas pelas modelos no desfile da marca no ano passado, chamando a atenção para a Shapeways, que imprimiu as peças plásticas de nylon, e para Rothenberg.

"Estou sempre de olho nos talentos que existem por aí", disse Scott. "Tenho alguns designers incríveis em mente caso alguém precise entrar em contato com eles."

Existem outros serviços de impressão 3-D, incluindo o Sculpteo e a Materialise, mas a maioria fica na Europa. A Kraftwurx, empresa de Houston, oferece impressões sob encomenda e um espaço para que os designers possam comercializar seu trabalho, mas ainda não tem a presença pública robusta da Shapeways, que patrocina concursos, divulga o trabalho de designers talentosos e faz parcerias com museus.

Duann Scott e uma das impressoras 3D da Shapeways
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Duann Scott e uma das impressoras 3D da Shapeways

Em seu papel de divulgador da impressão 3-D, Scott tem sido fundamental para desenvolver essa relação com a comunidade de designers.

Alguns deles, como Rothenberg, utilizam as impressoras sofisticadas de alta precisão da empresa para fazer protótipos ou produzir seu trabalho.

Outros, porém, consideram a empresa uma plataforma que é ao mesmo tempo fabricante, varejista on-line e espaço onde é possível levar a carreira a um próximo nível.

Design sob medida

Susan Taing, que fundou um estúdio de design 3-D chamado bhold, é uma das pessoas que desenvolveu uma parceria próxima com a Shapeways. Taing, de 33 anos, começou a fazer experiências com a impressão e a modelagem 3-D por hobby, projetando coisas simples, como um organizador de fio de fone de ouvido. No ano passado, usou a Shapeways para imprimir o dispositivo, que chamou de "bsnug wrap", e começou a vender a ferramenta pelo site da Shapeways.

"Todos os dias surgem mais ideias do que poderia fazer com a impressão 3-D", disse Taing, cujas ofertas incluem agora a xícara de café bholdable (69 dólares) e o amplificador de som para smartphones bheard (39,50 dólares). "Estava mesmo pensando em criar uma empresa, e quando surgiu o conceito, me pareceu que daria certo."

Área de impressão da Shapeways
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Área de impressão da Shapeways


Foi o modelo de "baixos riscos e poucos obstáculos" da Shapeways, contou Taing, que possibilitou o início de seu próprio negócio. Com a impressão sob encomenda, não houve os desanimadores custos iniciais de fabricação; a Shapeways também cuidou de processos demorados de suporte, como faturamento, transporte e serviço de atendimento ao cliente.

Taing simplesmente enviou um projeto que poderia ser impresso, definiu um preço acima do custo que a Shapeways cobrou para imprimir o produto e pagou a taxa de 3,5 por cento sobre o seu lucro. Tudo com a garantia de que a oferta seria exatamente compatível com a demanda.

"Desse modo, não precisamos gerenciar o estoque com a preocupação de que algo possa faltar ou sobrar", disse ela. "É um formato muito menos dispendioso."

O designer industrial Evan Gant, de Massachusetts, disse que se não fosse pela Shapeways, muitas das ideias que tem em seu tempo livre nunca sairiam do seu notebook.

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"Desenvolver um produto leva um bom tempo", disse ele. "Envolve não apenas a concepção inicial e o design, mas inúmeros recursos; temos que encontrar o fabricante certo, temos que entender de varejo."

Seria improvável que Gant ou quaisquer investidores externos dedicassem recursos significativos à fabricação do Button 2.0, um botão de camisa com um clipe que projetou para prender os fios de fone de ouvido (fios de fone de ouvido desorganizados, ao que parece, são uma das provações da vida moderna). Mas depois de fazer o upload de um projeto de desenho na Shapeways, recebeu imediatamente o orçamento para a produção e solicitou alguns para teste. Após aperfeiçoar o projeto, ele o vendeu. Total investido em pesquisa e desenvolvimento: cerca de 15 dólares.

"Acho que a Shapeways cobrou US$2,50 para produzir o botão, e eu acrescentei 1,50", disse Gant, referindo-se ao seu lucro.

Sede da Shapeways em Nova York
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Sede da Shapeways em Nova York

Com a Shapeways cuidando da fabricação e do suporte, "só precisamos nos preocupar em desenvolver o projeto", disse ele, "e em documentá-lo para que possa ser divulgado”.

Embora a Shapeways promova os designers e tente chamar atenção para aqueles que considera serem os melhores produtos, o marketing fica em grande parte sob a responsabilidade dos designers, assim como a questão das patentes. Os designers com os quais Scott mais gosta de trabalhar, contou ele, são aqueles que dão conta tanto da forma quanto da tecnologia de impressão 3-D, mas que também são capazes de produzir bons vídeos ou fotografias.

"Quando vemos que alguém faz isso bem, procuramos promover e o ajudar a melhorar", contou ele, "porque quanto mais bem-sucedida essa pessoa for, mais bem-sucedidos nós seremos".

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