Divisão Here Maps tem boa parte do mercado de sistemas de mapas para carros

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Carro usado pela Nokia para mapear cidades e incluí-las no Here Maps
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Carro usado pela Nokia para mapear cidades e incluí-las no Here Maps


Berlim – Pela primeira vez em mais de três décadas, a Nokia enfrenta o futuro sem participar do mercado global de celulares. Em 25 de abril, a empresa concluiu a venda de sua divisão de celulares para a Microsoft, por US$7,5 bilhões.

A transação coloca em destaque o que resta da Nokia, que inclui sua divisão de rede móvel e uma unidade de pesquisa e propriedade intelectual. Mas são as iniciativas de mapear o mundo todo digitalmente que podem se revelar o tesouro oculto da empresa finlandesa – ou pelo menos emergir como uma meta atraente e multibilionária de aquisição.

O objetivo da Nokia com seu sistema de mapeamento, conhecido como Here e desenvolvido em Berlim, é simples mas ambicioso: construir os mapas digitais mais detalhados e atualizados do mundo.

Em smartphones, o Here é superado pelo Google Maps, que possui 1 bilhão de usuários móveis e vem instalado nos celulares usando o sistema operacional Android, do Google. O Here, que é o aplicativo padrão de mapas em celulares Windows, possui apenas cerca de 100 milhões de usuários em smartphones.

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No mapeamento automotivo, porém, o Here domina, com mais de 80 por cento do mercado global para sistemas de navegação em automóveis – um campo onde Google e Apple ainda lutam para crescer.

A Nokia afirma que seus produtos de mapeamento, que são atualizados 2,7 milhões de vezes por dia, são mais precisos do que as ofertas rivais, e que sua capacidade de personalizar seus mapas para diferentes clientes coloca a Nokia em destaque.

O Google, por sua vez, garante que realiza dezenas de milhares de alterações em seus mapas diariamente, e usa algoritmos complexos e informações externas (como da agência americana do censo) para construir mapas para 198 países.

Mapeamento é negócio caro

Embora rivais como a Apple tenham tentado entrar no mercado global de mapeamento, elas não têm tido muito sucesso, deixando o sistema Here (já com 29 anos) como a única opção para empresas e consumidores que buscam uma alternativa ao Google.

"Mapeamento é um negócio caro", declarou Annette Zimmermann, analista da firma de pesquisa Gartner em Munique. "Se você ainda não possui o que esses caras construíram, não faz sentido começar agora".

Apesar da posição forte, porém, no ano passado a unidade de mapeamento da Nokia gerou apenas 7 por cento (ou US$1,2 bilhão) da receita global da empresa, excluindo sua unidade de celulares, segundo registros corporativos. A divisão também relatou um prejuízo operacional de US$ 212 milhões no mesmo período, quando a empresa continuava a investir na operação de mapeamento – que possui 6 mil funcionários, ou cerca de 11 por cento da força de trabalho da Nokia, 55 mil pessoas.

O fraco desempenho financeiro levou muitos analistas a questionar se a empresa possui o cacife necessário para manter o ritmo no setor de mapeamento, especialmente porque possui poucas ligações com os outros negócios da Nokia. Além de seus clientes automotivos, a Nokia licencia o Here a empresas incluindo a Microsoft, para seu mecanismo de busca Bing, a Amazon, para o tablet Kindle Fire; e o Yahoo, para o serviço de fotos Flickr. A FedEx usa dados de mapeamento do Here para administrar seus caminhões de entrega no mundo todo.

Analistas dizem que venda da divisão de mapas é uma possibilidade

Já existem rumores de que a Nokia pode decidir vender ou desmembrar a unidade, para que a empresa possa focar em sua divisão principal de rede móvel. A unidade de rede, que fabrica torres de celulares e outros equipamentos de telecomunicações para operadoras, irá gerar quase 90 por cento da receita anual após a conclusão da venda. Isso significa que o Here poderá ser mais valioso para outra empresa do que para a Nokia.

"Existem apenas algumas operações de mapeamento no mundo", afirmou Ehud Gelblum, um analista do Citigroup. "Trata-se de um ativo de valor".

A Microsoft lutou para comprar a unidade como parte da recente venda do setor de celulares. Mas não chegou a um acordo quanto ao preço, segundo diversas pessoas com conhecimento direto sobre a questão, que falaram sob condição de anonimato.

Analistas dizem que a divisão de mapas da Nokia, cujo valor pode ultrapassar US$6 bilhões, pode ser atraente a marcas como Samsung e outros grandes fabricantes de celulares – para reduzir sua dependência do Android para smartphones e tablets.

Atualmente, os fabricantes de celulares dependem do Google para seus serviços de mapas.

Michael Halbherr, chefe da unidade de mapeamento da Nokia, ignora conversas sobre uma aquisição, afirmando que o Here continua fazendo parte da estratégia global da empresa.

"Toda empresa tem um dono, e para nós, é a Nokia", garantiu Halbherr, de 49 anos, em seu escritório central, em Berlim. "É muito bom fazer parte de uma grande organização".

Atualizações diárias dos dados de mapas da Nokia são parte dos esforços da empresa para manter laços estreitos com as maiores montadoras do mundo, vínculos que geram mais de 50 por cento da receita anual da divisão de mapeamento.

Na indústria automotiva a Nokia ainda comanda o grosso do mercado, graças a relacionamentos com gigantes como Toyota e Volkswagen. Google e Apple estão tentando colocar seus mapas em carros, mas ainda sem muita sorte, segundo a Gartner.

"Existem muitos aplicativos para o que estamos fazendo", disse Reno Marioni, americano encarregado da unidade de mapeamento público da Nokia, que alimenta mudanças feitas por usuários aos produtos da empresa. "Mapear o mundo é algo bastante grande".

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