Autoridades aceitaram pedido da Amazon

Brasil Econômico

Não foram poucos os comentários furibundos, na última semana, sobre o fato de as autoridades competentes dos EUA terem concedido à Amazon.com a patente da fotografia com fundo branco — que é um recurso centenário nos estúdios mundo afora, e até mesmo fora deles. É muita cara de pau, decerto, mas trata-se também de uma ‘brecha da lei’ ou algo que o valha. É como os japoneses quererem patentear o açaí... Nem a Amazon inventou o fundo em branco para as fotografias, nem os japoneses inventaram o açaí. Bizarro.

Essa história me lembrou “Chutando a escada”, do sul-coreano Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge. No livro, publicado em 2002, ele investiga como os países ricos começaram a enriquecer de fato. Baseado em ampla pesquisa histórica e dados econômicos, o professor levanta quais medidas foram tomadas para que os desenvolvidos conseguissem se distanciar do resto da Humanidade.

Chang diz que os ricos não seriam o que são hoje se tivessem adotado as políticas que agora recomendam às nações em desenvolvimento. Na época em que queriam decolar, no entanto, valia tudo: forte protecionismo, espionagem industrial, subsídios à exportação, violação de patentes e marcas etc e tal.

Um exemplo citado no livro: nos EUA, até 1836, as patentes podiam ser concedidas sem a exigência de qualquer prova de originalidade, o que facilitava o registro de tecnologias importadas. Alemanha também usou esse tipo de armação.

E aí, diz o Chang, quando os países ricos alcançaram ao topo da economia mundial, eles chutaram a escada que usaram para chegar lá, impedindo que outros pudessem seguir o mesmo caminho. Cercando-se de instrumentos legais e instituições que sirvam aos seus interesses, hoje os ricos reprovam e até proíbem algumas das práticas que os fizeram vencer. O que era perfeitamente aceitável lá no século XIX tornou-se um crime comercial-político- diplomático no século XXI. Que pode até desencadear o uso de força militar caso alguém se sinta agredido.

Seria exagero dizer que a China é uma reedição desse comportamento que os países ricos querem esquecer? Talvez não. A China cresceu horrores nos últimos anos, ganhou o planeta com produtos dos mais variados setores, e sua indústria não é exatamente o exemplo de respeito a patentes. Basta ver que chineses ricos não compram artigo de luxo no próprio país, simplesmente porque conhecem muito bem a sua procedência...

Os chineses não subiram a mesma escada dos países desenvolvidos. Trataram simplesmente de criar a sua própria, escalando-a com sua moral peculiar. A reboque, levaram junto alguns países da sua periferia.

E a Amazon com isso? Pelo jeito, ela está dando o primeiro passo numa nova etapa desse nosso sistema econômico de comportamento: vamos patentear o que ainda é de ‘domínio público’, e salve-se quem puder.

Alguém aí se habilita a patentear o oxigênio?

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