Com data centers fora dos EUA, empresas europeias de nuvem esperam tirar proveito do crescente apetite por privacidade

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Timo Laaksonen é chefe de computação em nuvem da F-Secure, empresa de segurança online com sede na Finlândia, país com algumas das leis mais rígidas de privacidade
Touko Hujanen/The New York Times
Timo Laaksonen é chefe de computação em nuvem da F-Secure, empresa de segurança online com sede na Finlândia, país com algumas das leis mais rígidas de privacidade

Timo Laaksonen quer cuidar de seus dados online. Como chefe de computação em nuvem da F-Secure, uma empresa europeia de segurança online, Laaksonen possui um argumento de venda muito simples para o aplicativo de armazenamento na nuvem da F-Secure.

O produto da empresa, que foi lançado no ano passado, permite que o usuário acesse suas fotos, documentos e arquivos de vídeo de qualquer lugar no mundo, como muitos outros serviços de empresas americanas como Dropbox e Google, entre outras.

Mas diferente de seus rivais nos EUA, a F-Secure garante nunca compartilhar os dados de um individuo com outras empresas ou governos. E, segundo sua empresa, todas as informações são armazenadas em servidores seguros na Finlândia, país com uma das leis de privacidade mais duras do mundo.

"Quando se trata de serviços de nuvem, tudo se resume a confiança", declarou Laaksonen, finlandês de 53 anos, acrescentando que empresas de telecomunicações como AT&T e BT, da Inglaterra, vêm oferecendo o serviço de nuvem da F-Secure a seus clientes. "Como uma empresa finlandesa de segurança, podemos nos diferenciar – especialmente frente a empresas americanas", afirmou Laaksonen.

A F-Secure é apenas uma de muitas empresas europeias de nuvem esperando tirar proveito do crescente apetite pela privacidade online. Essas operadoras europeias voltaram a suas raízes após as revelações de Edward J. Snowden, o ex-funcionário da National Security Agency (NSA), sobre atividades de vigilância por agências de inteligência dos EUA e britânicas.

Para atrair clientes, as empresas apontam que seus centros de dados ficam na União Europeia, cujas leis de privacidade são mais rígidas do que as dos Estados Unidos. Grandes empresas como a Deutsche Telekom, antigo monopólio telefônico estatal da Alemanha, além de startups menores, estão tentando conquistar participação de mercado de rivais americanas como a Amazon, que dominam o mercado global da nuvem.

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"Feito na Alemanha"

Governos nacionais e a UE também estão oferecendo incentivos financeiros e contratos de longo prazo a provedores domésticos de nuvem, numa tentativa de incentivar uma indústria que ainda é minúscula se comparada a gigantes dos EUA como o Google.

Na Alemanha, por exemplo, isso inclui a criação de um selo "Feito na Alemanha" para destacar provedores domésticos de serviços na nuvem que cumpram com as leis de proteção a dados no país. O objetivo é ganhar mais clientes alemães conscientes da questão de privacidade.

"Precisamos igualar a qualidade das empresas americanas, mas com o benefício adicional de mais segurança", disse Oliver Dehning, cofundador da empresa alemã de e-mail na nuvem AntiSpamEurope, cujos três centros de dados ficam no país. "Ser uma empresa alemã é uma grande vantagem quando falamos com os clientes".

Os provedores europeus de serviços de nuvem podem promover seu pedigree de privacidade, mas ainda têm um árduo caminho até desafiar os gigantes americanos de tecnologia. 

Enquanto a Europa se mostrou lenta para adotar os serviços na nuvem, empresas americanas como Amazon, Microsoft e Google investiram bilhões de dólares nessa infraestrutura, como centros de dados e softwares online, ao longos dos últimos cinco anos. Esse investimento, segundo analistas, será difícil de igualar para as empresas europeias, especialmente quando os gastos pela indústria de tecnologia da Europa seguem pequenos frente a suas rivais americanas.

"Tudo é uma questão de dinheiro", afirmou René Büst, analista da consultoria Crisp Research em Kassel, na Alemanha. "Nenhum provedor europeu pode competir com algo como a Amazon".

Dropbox  já tem versão em português. No mundo, são mais de 300 milhões de usuários
Getty Images
Dropbox já tem versão em português. No mundo, são mais de 300 milhões de usuários

As empresas dos EUA também estão reagindo aos temores de privacidade da população. Muitas permitem que clientes europeus armazenem dados online em servidores do continente, e empresas como a Microsoft hoje seguem as leis de proteção de dados da Europa para conquistar contratos locais – que, de outra forma, acabariam com concorrentes domésticos.

E por focar unicamente na Europa, muitas empresas europeias ainda não conseguiram atingir o tamanho de empresas como Dropbox, que possui quase 300 milhões de usuários no mundo todo. Por outro lado, a F-Secure diz ter conquistado pouco mais de 1 milhão de clientes para seu produto concorrente desde o lançamento, em outubro.

Europeias precisam ser globais

"Para as empresas europeias serem bem-sucedidas, elas precisam buscar crescimento fora da Europa", argumentou Gregor Petri, diretor de pesquisa para computação em nuvem da Gartner em Eindhoven, na Holanda. "Elas precisam se tornar globais". Apesar das dificuldades, algumas das grandes empresas de telecomunicações da Europa estão tentando entrar na computação em nuvem.

Nos últimos dois anos, a Orange, empresa francesa de telecomunicações, percebeu uma crescente demanda por esses serviços junto a empresas europeias que pretendem compartilhar dados de suas operações internacionais. Em resposta, a Orange agora oferece computação em nuvem através de uma rede de 30 centros de dados no mundo todo, incluindo dois nos Estados Unidos. Ela também possui controles para que as empresas possam restringir onde seus dados são armazenados, para cumprir com leis de privacidade específicas.

E desde que as revelações sobre a NSA foram relatadas, no ano passado, a empresa recebeu uma onda cada vez maior de dúvidas sobre segurança de dados, segundo Axel Haentjens, vice-presidente de computação em nuvem na divisão da Orange que oferece serviços de tecnologia da informação a empresas.

Diante da contínua preocupação sobre quem tem acesso aos dados online, a Orange pretende realizar incursões contra concorrentes americanos junto a empresas globais que estejam buscando por provedores de nuvem que sejam vistos como mais seguros. 

"O caso Snowden levou o pêndulo para longe das empresas dos EUA", disse Haentjens. "Existe muito apetite da Europa para fechar contratos com provedores de nuvem europeus".

Embora o aumento da privacidade online tenha sido positivo para as empresas europeias, alguns afirmam que leis mais duras de proteção de dados não serão o bastante para superar a dominância das empresas americanas.

Quando Quentin Adam cofundou sua empresa de nuvem, a CleverCloud, em 2010, ele estava assumindo a Heroku, uma divisão da empresa de tecnologia Salesforce.com, de São Francisco. Adam e sua equipe de 10 pessoas – localizados em Nantes, na França – oferecem servidores de dados e softwares online a desenvolvedores, e conquistaram diversos clientes grandes, incluindo o banco francês BNP Paribas.

Embora tenha raízes na França, cerca de 60% dos clientes da CleverCloud ficam fora do país, e os Estados Unidos são um dos maiores mercados da empresa. Eles também pretendem abrir um centro de dados na América do Norte num futuro próximo.

Para Adam, a meta tem sido não depender de suas conexões locais, mas concorrer com empresas internacionais ao criar o serviço mais confiável para seus clientes. "O importante precisa ser o produto. Ninguém nos usará simplesmente porque somos europeus", afirmou Adam. "Temos um legado francês, mas estamos nos tornando globais".

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