Coleta, análise e uso de dados a respeito de cada usuário pelo Google ainda assusta. Fundador da empresa, Larry Page, teme o contrário: que as pessoas se preocupem com coisas pequenas

NYT

Google corre o risco de se tornar assustador ao invés de útil para os usuários na medida em que permeia cada vez mais suas vidas
Stuart Goldenberg/The New York Times
Google corre o risco de se tornar assustador ao invés de útil para os usuários na medida em que permeia cada vez mais suas vidas

Uma das maneiras de ver o Google é como um assistente executivo extremamente prestativo, onisciente e hiperinteligente. Ele é capaz de lembrá-lo do horário do seu voo, abrir o cartão de embarque eletrônico quando você chega ao aeroporto e ainda oferecer o melhor caminho até o hotel quando você chega ao seu destino.

Se aquilo que a empresa exibiu em um evento para desenvolvedores no mês de junho é uma visão verdadeira do futuro da humanidade, muito em breve o Google vai ser parte ainda mais profunda de nossas vidas, presente em praticamente todos os aparelhos que pudermos encontrar.

O software estará à sua disposição para sanar qualquer curiosidade boba, ou acompanha-lo em todas as tarefas, na hora que você desejar.

Trata-se de uma agenda pessoal com um alcance enorme – e isso pode ser justamente o maior problema. Para uma empresa cujo futuro depende da disposição das pessoas em entregar voluntariamente suas informações em troca de serviços úteis pela internet, as ambições ilimitadas do Google podem se tornar sua grande dificuldade. Com seu alcance absolutamente global, a empresa estaria tentando ser tão grande que pode acabar ficando assustadora, ao invés de prestativa – sabe aquela história do assistente que ficou poderoso e sabe demais?

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Google colado no usuário

"Acredito que a tecnologia esteja mudando muito a vida das pessoas e já sentimos isso", afirmou Larry Page, um dos fundadores do Google e executivo-chefe da empresa, em uma entrevista no evento realizado em San Francisco.

Page descreveu o Android e o Chrome, o sistema operacional e o navegador da empresa, como uma espécie de cola que irá conectar todos os aparelhos que usaremos no futuro. "Estamos falando de um mundo cheio de telas", afirmou Page. "Acredito que estamos rumando para uma experiência incrível envolvendo diferentes tipos de aparelhos, do relógio à TV, passando pelo laptop, o tablet e o telefone".

Porém, Page reconhece que a novidade e o escopo desses aparelhos podem gerar preocupações entre os usuários. "Todos sabem que suas vidas serão afetadas, mas ainda não sabemos direito de que maneira, uma vez que não usamos todos esses aparelhos – e porque ainda existem muitas incertezas", completou.

Saco de pancadas

Nos últimos tempos, o Google se tornou um saco de pancadas no que parece ser o surgimento de uma resistência contra a indústria da tecnologia. Em San Francisco, onde o setor de tecnologia contribui para o aumento do preço dos imóveis e para o aprofundamento da desigualdade social, os ônibus repletos de aparelhos eletrônicos do Google utilizados para transportar os funcionários da empresa se tornaram alvo de protestos na região .

A empresa também se tornou a face da intrusão desmedida da tecnologia em nossas vidas sociais. O Google Glass, os óculos de alta tecnologia da empresa, é motivo de piadas frequentes nos programas de TV americanos. Em resposta a tribunais europeus que deram vereditos em favor do que chamam de "o direito ao esquecimento", o Google recebeu uma enxurrada de pedidos de pessoas querendo que a empresa as tire dos resultados de busca .

Manifestante protesta contra Jack Halprin, funcionário do Google que despejou famílias de seu imóvel
Getty Images
Manifestante protesta contra Jack Halprin, funcionário do Google que despejou famílias de seu imóvel

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O principal evento do Google, esperado ansiosamente por muitos programadores que são seus fãs, foi interrompido por diversos manifestantes. Um deles culpava os executivos da empresa pelo despejo de pessoas da região , ao passo que outro afirmava que as aquisições recentes do Google no campo da robótica tornavam a empresa perigosa. "Vocês todos trabalham para uma empresa totalitária que constrói robôs que matam pessoas!", gritou antes de ser retirado pelos seguranças.

Page, que foi acompanhado durante a entrevista por Sundar Pichai, executivo a cargo dos projetos do Android e do Chrome, não parecia muito incomodado com os protestos. "Estamos em San Francisco, esse tipo de coisa já é esperada", Page afirmou em relação aos protestos. "San Francisco possui um rico histórico de protestos".

Pichai destacou que a empresa havia introduzido iniciativas para melhorar seu relacionamento com os moradores da região. Este ano, ela doou US$ 600 mil dólares à prefeitura para a criação de um serviço gratuito de Wi-Fi nos parques de San Francisco. "Creio que, sob determinados aspectos, é importante que tenhamos um debate aberto em relação a isso, e acredito que ele seja necessário", afirmou Pichai. "Houve um crescimento muito grande e o setor está preocupado com o processo de adaptação".

De maneira mais ampla, Page argumento que as reações instintivas do público a novas tecnologias foram muitas vezes negativas. Uma vez que compreendam a utilidade dessas coisas, elas deixam de ser tão assustadoras quanto pareciam – e em pouco tempo percebem que não poderiam viver sem aquilo. "No início do Street View, a ferramenta causou muita controvérsia, mas ninguém se preocupa mais com isso", afirmou Page a respeito do projeto de enviar carros da empresa para fotografar vias públicas do planeta. "As pessoas compreendem isso agora e a ferramenta é muito útil", afirmou. "Além disso, ela não afeta muito sua privacidade. Muitas dessas coisas funcionam assim".

Sundar Pichai, vice-presidente de Android, Chrome e Apps, mostra as novidades do Android L no Google I/O
AP Photo/Jeff Chiu
Sundar Pichai, vice-presidente de Android, Chrome e Apps, mostra as novidades do Android L no Google I/O

Dados e sensores criam contexto

Boa parte dos novos serviços do Google melhoram o funcionamento de nossos computadores por meio da combinação de dados pessoais e de informações coletadas a partir de sensores que criam o que a empresa chama de experiências "contextualizadas".

"Atualmente, a computação automatiza as coisas, mas quando tudo for conectado, será possível ajudar as pessoas de forma profunda", afirmou Pichai. Ele sugeriu uma maneira de o Android dos smartphones interagir com o Android dos carros. "Se vou pegar meus filhos na escola, seria importante que o carro soubesse que já estou com eles para mudar as músicas para algo mais apropriado", afirmou Pichai.

"Ou então pense no sistema de desbloqueio que temos", afirmou Page, referindo-se ao sistema por meio do qual o computador detecta que seu relógio está por perto e permite que você comece a usá-lo sem digitar uma senha. "Isso faz sentido", afirmou Page. "Atualmente, muita gente se incomoda com isso".

Isso tudo pode parecer pouco porque o Google ainda está nos primeiros estágios da exploração dos benefícios que teremos a partir da integração de diversos aparelhos em um só, um sistema de computador hiperconsciente. Além disso, a empresa também não é a única que se dedica a esse objetivo. A "internet das coisas" tornou-se a mais nova frase de efeito irritante do setor, e espera-se que a Apple entre em breve para a disputa com seu relógio inteligente.

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Porém, o Google pode ter as melhores condições de dar sentido a essa internet caótica e repleta de objetos. Uma vez que a empresa fabrica o software para uma série de aparelhos e distribui o código fonte gratuitamente para outros desenvolvedores, ele é ideal para ser integrado com diversos gadgets feitos por diferentes tipos de empresas.

Além disso, para que a computação "contextualizada" se torne verdadeiramente útil, nossos aparelhos devem ser capazes de compreender profundamente nosso contexto – e isso envolve necessariamente a coleta, análise e uso de toneladas de informações a respeito de cada um de nós em todo o planeta. O Google é excepcional nisso.

Larry Page, CEO e fundador do Google
Getty Images
Larry Page, CEO e fundador do Google

O que talvez seja mais importante, somente o Google conta com Page – e ele não está nem um pouco preocupado com as reações negativas que essas tecnologias podem gerar. "Estou tão empolgado com as possibilidades de melhorar a vida para todos, que meu temor é justamente o contrário", afirmou. "Que fiquemos tão preocupados com pequenas coisas que não sejamos capazes de perceber seus benefícios".

Ele destacou o sistema de saúde, no qual as regulamentações tornam a coleta e análise de dados extremamente difícil, mesmo que os dados sejam analisados de maneira anônima. "Neste momento não podemos fazer data-mining com os dados do sistema de saúde. Se pudéssemos, certamente seríamos capazes de salvar 100 mil vidas no ano que vem", afirmou, citando um estudo que iniciou há seis meses.

Salvar vidas seria um grande benefício. Mas ainda existem dúvidas se isso ocorreria em resposta a uma perda de privacidade que muitas pessoas podem considerar grande demais.

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