WeChat se fortacele à medida que governo chinês aumenta pressão sobre o Weibo, serviço similar ao Twitter

NYT

Pequim – Nos últimos anos, a mídia social chinesa foi dominada pelo site similar ao Twitter, Sina Weibo, um serviço de microblog que criou uma atmosfera online de debates públicos sinceros, incubando transformações sociais, chegando até mesmo a fazer políticos responderem por seus atos, em um país onde os veículos tradicionais são severamente censurados.

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WeChat tem recursos similares aos do WhatsApp
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Porém, nos últimos anos o Weibo passou a perder espaço para o WeChat, uma plataforma similar ao Facebook, que permite a troca de mensagens instantâneas entre círculos de seguidores escolhidos pelo usuário.

A mudança da comunicação pública para a semiprivada, acelerada pelos ataques do governo ao Weibo, reordenou definitivamente o cenário das mídias sociais neste país de 600 milhões de usuários da internet, calando o maior fórum aberto da China moderna.

"Essa é uma nova fase para as mídias sociais na China", afirmou Hu Yong, professor de jornalismo na Universidade de Pequim. "Esse é o declínio do primeiro fórum de informações de larga escala na China, e a ascensão de um veículo com o foco mais concentrado".

O WeChat tem suas vantagens e seus defensores. Ele sofre menos censuras que o Weibo, e alguns usuários afirmam que a plataforma permite que eles falem com mais liberdade, uma vez que sabem que as conversas são privadas. Muitos usuários curtem as novas funções, incluindo a possibilidade de enviar mensagens de voz.

Porém, em maio deste ano o governo anunciou que o WeChat poderia se tornar alvo de um monitoramento mais intenso. Afirmando que os serviços de mensagens instantâneas estariam sendo utilizados para fomentar "violência, terrorismo e pornografia", a agência responsável por policiar a internet afirmou que iria "lutar com intensidade contra a infiltração de forças hostis na China e em outros países", de acordo com um relatório do governo.

Quando chegou ao auge, o Weibo prometia muito mais. O site ganhou destaque em 2011, depois que o descarrilamento de um trem bala matou 40 pessoas. Usuários do Weibo detalharam a tragédia e as falhas do governo que levaram ao acidente, parte de uma onda de críticas que levou à saída do ministro ferroviário. Esse foi o ponto de virada do amadurecimento chinês na internet e um lembrete de como o meio poderia desafiar até mesmo um governo terrivelmente autoritário e um de seus líderes mais poderosos.

O Weibo ainda é importante. Ainda é mais fácil encontrar notícias e comentários ousados por lá, do que no mundo extremamente controlado dos jornais e revistas do governo. Ele ainda é uma plataforma popular para acompanhar celebridades e saber das últimas fofocas. Em março, o Weibo afirmou possuir 66 milhões de usuários diários, 37 por cento mais que no ano anterior.

Porém, os números do governo mostram que o total de usuários de microblogs, incluindo os que utilizam o Weibo e serviços de outros provedores, sofreu um queda de nove por cento no último ano, com muitos usuários migrando para o WeChat. Essa mudança, aliada a uma queda generalizada no valor de ações de tecnologia, contribuiu para uma oferta inicial desanimadora das ações da plataforma na bolsa de Nova York em abril, que arrecadou 286 milhões de dólares, ao invés dos 500 milhões esperados.

"O Weibo está longe do que costumava ser", afirmou He Weifang, um importante advogado que costumava contribuir com frequência no site, onde possui mais de um milhão de seguidores. "Ainda é impossível encontrar fatos no Weibo, ou notícias confiáveis, mas os comentários não são mais tão interessantes ou profundos".

Uma das razões é o ataque do governo a contas conhecidas como Grande V – que pertencem a comentadores famosos, com contas verificadas e que, em diversos casos, possuíam milhões de seguidores. Depois que centenas deles foram detidos, a maioria parou de postar no Weibo.

Outros o abandonaram por conta do tom agressivo dos comentários, que frequentemente descambam para ataques pessoais. Muitos se cansaram da lista estonteante de termos proibidos e dos jogos de gato e rato com os censores, na tentativa de fugir de suas garras. Por exemplo, "quatro de junho", a data dos conflitos na Praça da Paz Celestial em 1989, é um termo banido, de forma que mentes criativas adotaram o termo "35 de maio" (que cairia justamente no quatro de junho), até que ele também foi banido. Esses jogos de palavras divertiam os usuários mais assíduos, mas confundia os leitores comuns.

O WeChat acabou com a frustração. Sua empresa controladora, a Tencent, afirma possuir 355 milhões de usuários ativos todos os meses. A empresa não revela o número de usuários diários, o que dificulta uma comparação direta com o Weibo. Porém, poucas pessoas discordam que o WeChat tenha se tornado mais popular.

O "quatro de junho" também é banido no WeChat, mas outros termos que são proibidos em diversos serviços de microblog são permitidos. Muitos observadores atribuem essa permissividade ao fato de as mensagens do WeChat terem um alcance limitado.

Mais importante que isso, afirmam os ativistas, é que o WeChat permite ir mais longe em relação a questões compartilhadas por pessoas que pensam de forma similar. O ambientalista veterano Li Bo utiliza o WeChat há mais de dois anos para organizar a oposição a projetos de infraestrutura danosos, como o plano controverso de fazer uma barreira no Rio Nu.

Li participa de um grupo no WeChat chamado Defensoria de Políticas Ambientais, que conta com mais de 300 participantes, incluindo, segundo ele, autoridades do governo que têm a mente aberta. Embora essas autoridades raramente se manifestem, elas veem o que está acontecendo e costumam convidar membros do grupo para seus escritórios, onde discutem a respeito das políticas.

Outros grupos são menores e mais estreitos, tais como um concentrado em um condado no leste da China que foi afetado pela poluição. Outros são formados em torno de tarefas específicas, tais como pequenos comitês para diversas campanhas e projetos.

Esses grupos podem ser poderosos, desde que não sejam políticos demais. No final de abril, funcionários de uma fábrica utilizaram o WeChat para organizar greves contra uma empresa de Taiwan que não havia realizado as contribuições obrigatórias para os fundos de pensão. Porém, na mesma época um grupo de religiosos que tentou usar o WeChat para evitar que sua igreja fosse demolida descobriu que ele estava sendo utilizado para espionar os oponentes da ação do governo.

Todavia, um problema mais amplo para os ativistas é que o WeChat pode se transformar em uma câmara de eco.

Quando uma fundação de caridade tentava arrecadar 500 dólares este ano para comprar bombas de oxigênio para um mineiro que estava morrendo de antracose, o pedido original não foi atendido. Depois de ter uma boa sacada, Xue Yinhu, um dos funcionários da fundação, fez o pedido para seus seguidores no WeChat e conseguiu o dinheiro em menos de uma hora.

"Essas pessoas conhecem você melhor, de forma que se sentem mais dispostas a ajudar", afirmou. "Mas algumas vezes a gente fala só com as mesmas pessoas".

O WeChat tem limitações que o impedem de replicar a esfera pública do Weibo. O WeChat permite a criação de contas públicas que podem ser seguidas por qualquer pessoa, mas limita o número de posts a um por dia. Além disso, o acesso às contas públicas não é possível em celulares, o que torna difícil, por exemplo, o envio de fotos incriminadoras de uma autoridade na blogosfera.

Os comentários também são deletados depois de alguns dias, tornando as discussões prolongadas mais difíceis, além de apagar registros de históricos. O governo também monitora essas contas e recentemente deletou algumas coberturas de notícias sociais e políticas.

A Tencent se negou a comentar como decidiu quais funções ofereceria aos usuários.

Ainda assim, o WeChat continua a ser uma ferramenta poderosa para os ativistas, mesmo que a promessa do Weibo de gerar uma sociedade online mais aberta tenha sido frustrada.

Hu Jia, que trabalhou com causas ambientais e de saúde pública por 15 anos, afirmou que o advento das mídias sociais, apesar de suas limitações, produziu uma sociedade mais bem informada.

"O Weibo e o WeChat são presentes de Deus", afirmou. "Apesar de toda a vigilância do governo, os benefícios que conseguimos são ainda maiores para as pessoas que tentam organizar a sociedade".

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