Lei europeia cria mecanismo para que qualquer cidadão do continente peça remoção de links impróprios sobre si

NYT

Dias depois que o mais alto tribunal da Europa decidiu que qualquer um poderia pedir que mecanismos de busca removessem links sobre si mesmo, Andy Donaldson começou a receber telefonemas.

Google está sob pressão de autoridades da Europa
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Google está sob pressão de autoridades da Europa

A empresa britânica de Donaldson, a Hit Search, havia criado um serviço para empresas e indivíduos monitorarem como e onde estavam sendo mencionados na internet. Agora, todos querem saber como podem tirar vantagem da inesperada decisão judicial. E a Hit Search – assim como um número cada vez maior de empresas europeias – subitamente viu a possibilidade de lucrar com o "direito de ser esquecido" da Europa.

"Essa é uma oportunidade de negócio totalmente nova para nós", afirmou Donaldson. "As pessoas querem proteger a forma como aparecem nos resultados de busca".

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Ele disse que os preços começam em 50 libras, ou US$85, por mês para monitorar com que frequência alguém é mencionado online e solicitar a retirada desses links.

Em maio, o Tribunal Europeu de Justiça decidiu que qualquer pessoa – vivendo na Europa e potencialmente aqueles vivendo fora da região – pode pedir que mecanismos de busca removam links a informações online, caso acreditem que os links violam seu direito à privacidade.

Mais de 70 mil pedidos já foram feitos por um formulário online criado pelo Google, que comanda o principal mecanismo de busca da Europa. Mas a empresa revelou poucos detalhes sobre como decide quais links devem ser removidos, e apenas no final de junho começou a divulgar se os pedidos haviam sido concluídos.

A confusão em torno de como a decisão deveria ser aplicada criou uma oportunidade de negócios – praticamente a partir do nada.

A Reputation VIP, startup francesa que ajuda empresas e pessoas a administrar suas reputações virtuais, ofereceu um serviço (custando até 3 mil euros por mês) para ajudar marcas ou celebridades a reduzir o impacto de publicidade negativa ao tentar influenciar que tipo de links podem ser encontrados por buscas online.

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Após a decisão do tribunal, Bertrand Girin, presidente da empresa, criou um produto separado, voltado a indivíduos que queiram ajuda para enviar solicitações aos mecanismos de busca. O serviço inclui textos padronizados que podem ser usados em casos específicos, como remover links de um endereço residencial ou referências online a um divórcio.

O produto também permite que as pessoas enviem solicitações através do site da empresa, ou através do formulário online do Google.

Até agora, o serviço – chamado Forget.me – é gratuito. Mas Girin pretende algum dia cobrar dos clientes através de um modelo chamado "freemium", pelo qual as pessoas recebem o serviço básico de graça e pagam por complementos especiais, como cartas personalizadas ou solicitações que possam ser enviadas para diversos mecanismos de busca.

"Vimos uma oportunidade", explicou Girin, acrescentando que sua empresa, até agora, já enviou 2.000 solicitações relacionadas a mais de 7.600 links. Cerca de metade dos pedidos foram feitos em nome de indivíduos na Inglaterra, França e Alemanha. "Quando o Google publicou seu formulário online", contou ele, "vimos que ele poderia ser confuso para algumas pessoas".

Nova moda

Essa apropriação por parte de agências de marketing e outras startups não foi totalmente bem-vinda.

Segundo Iain Wilson, sócio de proteção de dados no escritório de advocacia Brett Wilson, em Londres, muitas dessas empresas não compreendem as complexidades dessa decisão da corte europeia. Elas incluem decisões sobre se o caso em questão estava ligado à privacidade online de alguém, e qual a melhor forma de enviar solicitações aos mecanismos de busca para que eles removam links prejudiciais.

"Muitas empresas de gestão de reputações estão entrando na onda", afirmou Wilson, que havia enviado cartas ao Google tanto antes quanto depois da decisão do tribunal, pedindo que informações fossem retiradas dos resultados de busca. "Para qualquer um que vier a nós com um problema de privacidade, essa decisão judicial é algo novo em nossa caixa de ferramentas".

Embora empresas estejam se acotovelando para oferecer aos potenciais clientes novas maneiras de enviar solicitações ao Google, a maioria dos mais de 70 mil pedidos veio pelo formulário online da empresa. O Google não cobra por esses envios.

Rishi Lakhani, consultor de marketing online na Inglaterra, disse ter realizado 30 envios para o Google em nome de cinco clientes. Entre os sites citados em solicitações estava um pertencente a um jornal americano, garantiu ele.

Critérios do Google são desconhecidos

Mesmo para empresas que possuem certo nível de conhecimento, o processo de solicitação nem sempre é suave.

Segundo Simon Wadsworth, diretor da Igniyte, agência britânica de reputação online, o Google rejeitou quase todas as solicitações iniciais feitas em nome de seus clientes. Muitos dos envios não deram certo, explicou ele, porque o Google insiste que os links a informações de interesse público devem continuar online. Ele afirmou que, com os fracassos, sua empresa está aprendendo sobre que tipos de pedidos o Google irá aceitar.

Wadsworth argumentou que, mesmo quando os clientes não estão cobertos pela decisão – como empresas e pessoas com perfis públicos –, o processo deu à Igniyte uma chance de vender outros serviços voltados a limpar a reputação dos clientes na internet. Isso incluiu a criação de conteúdos online para promover uma visão positiva dos clientes e combater informações online existentes.

"Ninguém sabe realmente quais são os critérios", disse ele sobre as respostas do Google às solicitações online dos usuários. "Até agora, estamos recebendo muitos nãos. Trata-se de uma completa terra de ninguém".

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