Por mês, 175 milhões de pessoas ouvem música em sua plataforma, quatro vezes a audiência global do Spotify

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Alexander Ljung, CEO do Soundcloud
Mustafah Abdulaziz/The New York Times
Alexander Ljung, CEO do Soundcloud

O SoundCloud é a criança rebelde no mundo da música digital. Sem pagar artistas ou gravadoras, ele permite que as pessoas façam upload e streaming de qualquer tipo de áudio, e por isso os músicos o adotaram como uma forma de compartilhar seus melhores trabalhos com os fãs. Lorde, a estrela adolescente do pop da Nova Zelândia, surgiu para a fama após publicar sua música "Royals" no site.

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Mesmo num mercado saturado por concorrentes como iTunes e Pandora, o SoundCloud conseguiu, em seis anos, atingir uma escala gigantesca com um catálogo de conteúdos incomuns e muitas vezes exclusivos. Segundo a empresa, cerca de 175 milhões de pessoas ouvem música em sua plataforma a cada mês – mais do que quatro vezes a audiência global do Spotify.

"Temos ouvintes em todos os países do mundo – e do espaço", declarou Alex Ljung, presidente do SoundCloud, referindo-se a gravações da Estação Espacial Internacional publicadas por um astronauta canadense.

Agora o SoundCloud decidiu que chegou a hora de crescer. Em agosto, como parte de um novo acordo de licenciamento com empresas de entretenimento, o site começou a incorporar publicidade e, pela primeira vez, permitir que artistas e gravadoras coletem direitos autorais. Eles também pretendem introduzir uma assinatura paga pela qual os ouvintes poderão "pular" os anúncios, como acontece no Spotify e outros serviços licenciados.

Em muitos aspectos, a medida é uma reação a pressões da indústria para licenciar conteúdo e gerar receita. Ela também reflete o complexo relacionamento do SoundCloud com as gravadoras, que usam o serviço para promover novos lançamentos e até mesmo caçar talentos, mas não gostam muito de sua inabilidade de ganhar dinheiro com os milhões de ouvintes do SoundCloud.

Negociando ações para não ser processado

Como parte de suas conversas de licenciamento, grandes gravadoras e algumas independentes estão negociando com o SoundCloud por participações acionárias na empresa; em troca, elas concordarão em não processar o SoundCloud por violações passadas de direitos autorais, segundo diversas pessoas envolvidas nas conversas. 

Tais acordos poderiam transformar o SoundCloud num atraente candidato à aquisição; no começo deste ano o Twitter pensou em comprá-lo, mas acabou desistindo.

Um risco para o SoundCloud agora que ele se torna mais mainstream é perder parte de seu fator descolado, além da boa vontade que construiu entre os artistas.

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Em junho, Kaskade, DJ americano, desencadeou uma acalorada discussão quando afirmou que dezenas de suas faixas no SoundCloud haviam sido bloqueadas devido a avisos de violação de direitos autorais pelas gravadoras.

Numa entrevista recente, ele ainda parecia maravilhado com o SoundCloud, classificando-o como "tão lindo, tão elegante" na forma como a plataforma trabalha com a mídia social. Mas também criticou o serviço pelo modo com que lida com os avisos de direitos autorais, que, segundo ele e outros, aumentaram acentuadamente nos últimos meses.

"Eles têm um serviço incrível e todas essas pessoas que sempre confiaram nele, e de repente puxaram o tapete debaixo delas", afirmou Kaskade, cujo nome real é Ryan Raddon.

SoundCloud é de origem berlinense

Fundado em Berlim por Ljung, de 32 anos, e Eric Wahlforss, de 34, dois engenheiros suecos com o pé na música eletrônica, o SoundCloud rapidamente encontrou um lar na tecnológica cultura de dança dessa cidade.

"De forma verdadeiramente berlinense, apertamos o botão de lançamento do meio da pista de dança de uma casa noturna à meia-noite", recordou Ljung.

A empresa arrecadou mais de US$100 milhões em financiamento de risco de grandes investidores, incluindo Kleiner Perkins Caufield & Byers, Index Ventures e Union Square Ventures. Fred Wilson, um dos sócios da Union Square que também investiu no Twitter e no Tumblr, viu potencial para o SoundCloud como uma alternativa à estrutura de varejo dos outros serviços de música.

"Vi que eles não tratavam a música no estilo do iTunes", afirmou Wilson. "Era música mais no estilo do YouTube, onde qualquer um podia participar, uma abordagem de baixo para cima".

O SoundCloud evoluiu como um meio dinâmico para todos os tipos de música e áudio, com conteúdo indo e vindo conforme a vontade dos usuários. Ele é especialmente dominante nos gêneros da dance music eletrônica e do hip-hop. Em agosto, por exemplo, o rapper J. Cole usou o SoundCloud para lançar um tributo a Michael Brown, o rapaz de 18 anos morto por um policial em Ferguson, no Missouri. Em poucas horas a canção já era um sucesso viral.

A empresa diz que, a cada mês, 350 milhões de pessoas buscam arquivos de áudio do SoundCloud na internet e em dispositivos móveis, e 175 milhões delas clicam em "reproduzir" ao menos uma vez.

Pequena empresa de música digital, o Soundcloud cresceu graças ao seu catálogo incomum e muitas vezes exclusivo
Jake Naughton/The New York Times
Pequena empresa de música digital, o Soundcloud cresceu graças ao seu catálogo incomum e muitas vezes exclusivo

Soundcloud tem dificuldade em ganhar dinheiro

Apesar dessa enorme audiência, no entanto, sua receita vem sendo minúscula até agora, com a empresa obtendo lucro apenas das taxas que cobra de alguns de seus provedores mais ativos. Segundo registros públicos na Inglaterra, onde o SoundCloud possui um escritório, o serviço teve cerca de US$13 milhões em receita e US$20 milhões em prejuízo líquido em 2012, o ano mais recente com dados disponíveis.

Para seu novo programa Premier, o SoundCloud assinará acordos de licenciamento com empresas de música que lhe permitirão colocar anúncios no serviço. A maior parte da receita com esses anúncios irá para o provedor de conteúdo, garantiu Jeff Toig, diretor de negócios do SoundCloud – embora ele tenha se recusado a ser mais específico.

Os primeiros anunciantes incluem Red Bull, Jaguar e Comedy Central, cujas propagandas passarão apenas em conjunto com conteúdos licenciados. Entre os parceiros de conteúdo iniciais estão duas grandes editoras musicais, Sony/ATV e BMG, as distribuidoras INgrooves e Seed, o site de comédia Funny or Die e diversos artistas independentes, incluindo o rapper GoldLink, de Washington.

"GoldLink e sua base de fãs foram construídos a partir do zero no SoundCloud", explicou Matt Colwell, um dos empresários do rapper. "Agora, com o serviço avançando para a monetização, esse é próximo passo natural para nós".

Apesar de meses de negociações, as três maiores gravadoras – Universal, Warner e outra unidade da Sony, a Sony Music Entertainment – não concluíram acordos de licenciamento.

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Segundo pessoas informadas sobre essas conversas, sob alguns aspectos, a vitalidade da plataforma SoundCloud é parte do problema: existem tantas mixagens, misturas e outras obras híbridas de DJs, compartilhadas e remixadas com tanta frequência, que os termos adequados de licenciamento ainda não foram totalmente definidos. Afinal, como dividir o dinheiro de um dubstep misturando Britney Spears, Eurythmics, Beethoven e dezenas de outros artistas?

O SoundCloud e as gravadoras se recusaram a comentar suas negociações.

Com o SoundCloud atingindo a maturidade, existe a questão de se seus usuários, acostumados com a música livre de anúncios, aceitarão o novo direcionamento. De acordo com Ljung, o próprio histórico da empresa – voltado aos artistas – ajudará nesse quesito.

"As pessoas sabem que o SoundCloud é praticamente uma plataforma de criadores", afirmou ele. "Eles entendem que, se ouvirem um anúncio, um criador também estará sendo pago por isso".

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