De passagem por São Paulo, Erica Klampfl, Gerente Global de Pesquisa sobre o Futuro da Mobilidade da Ford, conversou com o iG sobre o carro dos próximos anos, o papel do automóvel no trânsito e os desafios da automação

Os mais recentes rumores envolvendo a Apple  deixam claro qual é a próxima fronteira tecnologia a ser transpassada: o carro. A aproximação entre a companhia e a Tesla para supostamente criar um carro  – elétrico ou autônomo como o do Google? –, somada ao fato de que a própria Apple já possui uma plataforma para veículos automotivos, o CarPlay, devolve ao carro uma posição de destaque no cenário da inovação. Uma das maiores conhecedoras quando o assunto é carro, desde os tempos de Henry Ford, a Ford também investe no desenvolvimento do veículo enquanto um dispositivo conectado.

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De olho na necessidade de tornar o carro cada vez mais conectado, a Ford lançou, ainda em 2010, o SYNC, seu sistema de comunicação e entretenimento. Já em sua terceira geração, o SYNC 3, apresentado na CES 2015, possui uma nova tecnologia de reconhecimento de voz, tela sensível ao toque, e uma interface mais parecida com a dos smartphones, com gráficos fáceis de ler e que ajudam os motoristas a se manter conectados. Segundo a Ford, o SYNC já está presente em mais de 10 milhões de veículos em todo o mundo.

Além disso, a Ford possui hoje o SYNC App Link, compatível com os sistemas Android e iOS. Por meio dessa plataforma, que também funciona por comando de voz, os condutores podem receber ligações, mensagens e até mesmo pedir uma pizza no caminho de casa, interagindo com os mais diversos aplicativos, como Spotify, por exemplo. Em Las Vegas, a Ford também mostrou os veículos semiautônomos que a marca já produz e seus carros totalmente autônomos em desenvolvimento.

Erica Klampfl, Gerente Global de Pesquisa sobre o Futuro da Mobilidade da Ford
Divulgação
Erica Klampfl, Gerente Global de Pesquisa sobre o Futuro da Mobilidade da Ford

De passagem por São Paulo para promover a primeira maratona hacker da indústria automotiva no Brasil durante a Campus Party, Erica Klampfl, Gerente Global de Pesquisa sobre o Futuro da Mobilidade da Ford, conversou com o iG sobre o carro dos próximos anos, o papel do automóvel nas grandes cidades e os desafios da autonomia. E, enfatizou: a Ford quer ser parte da solução para problemas como trânsito, conectando as pessoas de uma forma segura.

Como a tecnologia está mudando os carros?

Erica Klampfli: O carro está cada vez mais se tornando um dispositivo conectado. Na Ford, estamos adotando uma abordagem independente para plataformas de conectividade que tem três componentes: construído no carro, inserido e que faz uso de elementos estruturais do veículo. Esses três elementos simbióticos desempenham um papel importante no futuro da conectividade dentro do automóvel. Estamos trabalhando agressivamente para oferecer aos nossos clientes as melhores ofertas de conectividade no mercado, como, por exemplo, o nosso mais recentemente lançamento, o SYNC 3, nossa última geração de um sistema conectado ao smartphone que funciona por controle de voz, em uma nova experiência de hardware e software. 

SYNC3 é a terceira geração do sistema de comunicação e entretenimento da Ford
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SYNC3 é a terceira geração do sistema de comunicação e entretenimento da Ford

Que tecnologia está de fato mudando o mercado automotivo?

Acredito que a conectividade e o comando de voz estão transformando o cenário. Quando nós introduzimos o SYNC muitas companhias seguiram nosso movimento porque eles precisavam ter em seus carros algo que as pessoas queriam no produto. Assim como os consumidores esperam encontrar certos aplicativos que possuem no smartphone no sistema do carro, hoje eles também esperam que existam certas tecnologias implementadas no veículo que pretendem comprar. O SYNC é um exemplo do que o Henry Ford costuma dizer: se você perguntar para as pessoas o que elas queriam antes do carro ser inventado elas teriam dito um cavalo mais rápido. Quando nós perguntamos em pesquisas com os clientes lá em 2007 o que eles acharam do SYNC, nós não recebemos um bom feedback. Se tívessemos dado atenção apenas ao estudo de mercado não teríamos lançado a plataforma. E hoje todas as companhias possuem um sistema similar. Esse é um exemplo de disrrupção tecnlógica. 

Carros ditos conectados existem há no mínimo cinco anos, qual a diferença agora?

Em 2007, o iPhone foi introduzido e houve um crescimento explosivo de aplicações móveis e no uso do smartphone. Os condutores estavam procurando uma maneira de permanecer conectados durante a condução. Com a crescente preocupação com a distração que o celular causa, e diante da repressão do governo sobre o uso do telefone no carro, as empresas automotivas viram a necessidade de fornecer aos motoristas uma solução segura e inteligente de controlar seus telefones e aplicativos.

Em 2010 nós melhoramos o SYNC, introduzindo em 2007. Além disso, criamos o AppLink, uma maneira mais inteligente e mais segura dos motoristas de acessar seus aplicativos do smartphones no carro, mantendo as mãos no volante e os olhos na estrada. O AppLink é a primeira solução da indústria automotiva cujo acesso de serviços e aplicativos do smartphone é feito por voz, através do carro.

E agora, o SYNC 3 fornece um comando de voz mais simples e um painel sensível ao toque mais intuitivo, com atalhos para aplicações de áudio, telefone, clima, navegação e outras funções de apps instalados no smartphones. As novas funcionalidades incluem o reforço do reconhecimento de fala, uma interface gráfica mais simples, um AppLink melhorado, a capacidade de falar com a Siri, assistente de voz do iPhone, sem ter que estar com o aparelho na mão (só para iOS), e a atualização do softaware pela nuvem.

Além disso, continuamos a introduzir mais e mais tecnologias semi-autônomas em veículos, implatando alguns em toda a nossa linha de produtos, incluindo Lane Keeping, que ajuda a manter o carro na faixa, Adaptive Cruise Control [um controle de cruzeiro inteligente para o carro, que percebe os movimentos do carro da frente, mantendo a distância], aviso de colisão frontal e assistente ativo para estacionamento. 

A comunicação veículo a veículo é um dos maiores desafios para a indústria. Quando você acha que essa tecnologia estará realmente funcionando?

O Blueprint for Mobility da Ford [um documento sobre o que a Ford pensa sobre o futuro da mobilidade] descreve a nossa visão para o futuro do transporte e o impacto que isso terá no nosso modelo de negócio. O projeto vai orientar o papel da Ford e os passos necessários para chegar lá. Hoje, no curto prazo, a Ford está trabalhando para melhorar a tecnologia já utilizada em veículos na estrada. Isso inclui funções que alertam os condutores para congestionamentos e acidentes de trânsito, e tecnologias para o estacionamento e para a condução do carro em tráfego lento.

No médio prazo, as comunicações veículo-a-veículo começarão a se tornar popular. Isso incluirá algumas capacidades de piloto automático, como "platooning", quando os veículos que viajam na mesma direção, em comboio, sincronizam seus movimentos para criar padrões de condução mais densos. Acredito que os veículos autônomos possam ajudar a prevenir acidentes, mesmo aqueles pequenos que só causam congestionamento nas ruas. E muito mais do que isso, até porque eles poderão se comunicar também com a rede de infraestrutura das cidades. 

Sabemos que os carros serão cada vez mais autônomos, mas qual é o limite? Ou, qual é equilíbrio entre a responsabilidade do fabricante do carro e a responsabilidade do condutor?

Há uma série de questões que ainda precisam ser resolvidas, e estamos investigando qual é o ponto de equilíbrio. Estamos entusiasmados com toda a inovação que está ocorrendo, mas a segurança é mais importante. A indústria, os líderes regulatórios e econômicos compartilham um objetivo comum que é o de reduzir os acidentes, melhorar a mobilidade e diminuir o impacto ambiental do congestionamento de tráfego. O princípio mais importante, à medida em que avançamos, é alcançar a inovação contínua e a melhoria da segurança pública. Nos Estados Unidos, encorajamos o país a levar para o nível federal os padrões de segurança do veículo. Já Globalmente, acreditamos que os Estados Unidos tenham condições de trabalhar com outras regiões do mundo para entrar em acordo com normas futuras. 

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