Apesar de só ter se popularizado recentemente, equipamento para tirar fotos chegou a ser patenteado por japonês em 1983

BBC

O acessório de fotografia conhecido popularmente como "pau de selfie" faz tanto sucesso e tornou-se tão onipresente que já é visto como um incômodo por muita gente. Tanto que foi banido de estádios, shows, museus e até mesmo do próximo evento da Apple.

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No entanto, o objeto já foi considerado tão sem propósito que figurou no livro "101 Invenções Japonesas Quase Inúteis", junto com chinelos-esfregões para gatos e uma roupa impermeável para...tomar banho.

Antes de estourar em popularidade, o "pau de selfie" foi inventado não só uma, mas duas vezes, por homens em partes opostas do planeta e com duas décadas de diferença. Em ambos os casos, tudo começou por problemas enfrentados durante um período de férias na Europa.

Dilema
O primeiro "pau de selfie" foi criado nos anos 1980 pelo japonês Hiroshi Ueda. Na época, ele trabalhava como engenheiro na fabricante de câmeras Minolta e tinha a fotografia como hobby. "Sempre que ia para o exterior, levava minha máquina e tirava um monte de fotos", conta ele.

Quando estava na Europa, Ueda se deparou com um dilema: queria muito tirar fotos de si e de sua mulher, mas não confiava em dar o equipamento para qualquer pessoa que passasse na rua.

"Estava no museu Louvre, em Paris, e pedi a uma criança para nos fotografar. Quando me afastei, ela saiu correndo com câmera", relembra. Era um problema comum que precisava ser solucionado, e Ueda tinha o perfil certo para a tarefa.

Ele criou um "extensor" ─ uma vara que podia ser alongada e na qual era possível acoplar uma câmera nova e menor do que as existentes até então. Ele acrescentou um espelho na frente do equipamento para que o fotógrafo pudesse ver o que estava clicando.

"O objetivo era não depender de ninguém para tirar uma foto. Poderia clicar a mim mesmo quando e onde quisesse."

Resistência
O conceito enfrentou certa resistência. O departamento de testes da Minolta chegou à conclusão que mulheres tinham vergonha de fotografar a si mesmas. "A ideia do autorretrato era algo muito novo naquela época", diz Ueda.

Mesmo assim, a empresa decidiu seguir em frente, conta, "porque a ideia era fantástica". O extensor foi patenteado em 1983, mas, para a decepção de Ueda, não foi um sucesso de vendas: "A qualidade da foto não era muito boa", confessa.

Mas ele não perdeu a fé em sua invenção: "Uso o tempo todo. Mesmo há 30 anos, quando o produto parou de ser vendido, eu sempre levei uma câmera de bolso e um extensor comigo. Era como uma continuação do meu braço".

A patente de Ueda expirou em 2003, ao menos uma década antes da recente explosão de popularidade do ‘pau de selfie’. "Minha ideia foi lançada prematuramente demais. Mas era apenas uma das cerca de 300 que patenteei."

"Trabalho duro"
Michael Pritchard, diretor-geral da The Royal Photographic Society, no Reino Unido, estuda "selfies" feitas desde os anos 1840 e diz que incluir o fotógrafo em um clique não é algo novo.

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Um dos mais conhecidos recursos criados para facilitar este objetivo foi o "timer" das câmeras. Isso requeria usar um tripé ou colocar a câmera em uma superfície adequada e depois correr para entrar em quadro.

Pritchard acredita que vivemos a era do "pau de selfie" por causa de melhorias aplicadas às lentes, permitindo fotografar melhor a curtas distâncias. Outro fator é a portabilidade das câmeras de celulares. As tradicionais eram simplesmente pesadas demais para serem colocadas na ponta de uma vara.

Mas o inventor canadense Wayne Fromm acredita haver apenas uma razão para o "pau de selfie" ser tão popular hoje em dia: seu trabalho duro.

Fromm criou o Quick Pod, um extensor para câmeras, no início dos anos 2000. Ele desconhecia o invento de Ueda, mas também teve sua inspiração quando passava férias na Europa, com sua filha, Sage.

"Ficávamos o tempo todo procurando estranhos que pareciam ser confiáveis o suficiente para tirar uma foto nossa", recorda ele. "Você fica lá esperando, torcendo para que alguém fale inglês... Foi quando tive a ideia: e se a câmera pudesse ficar suspensa no ar, como se alguém estivesse nos fotografando?"

Ao voltar para casa, Fromm começou a pesquisar a tecnologia por trás de guarda-chuvas. "Comprava vários e os desmontava. Minha filha me encontrava analisando 20 guarda-chuvas diferentes e devia pensar que eu estava louco", relembra Fromm.

Voltado para viajantes aventureiros, o produto é protegido contra água e areia e possui vários tipos de recursos, como a possibilidade de desprender o celular rapidamente para não atender uma ligação enquanto o aparelho ainda está preso ao "pau de selfie".

"Como formigas num piquenique"
Fromm passou a última década promovendo seu invento em feiras, em programas de vendas de produtos e em outras atrações na TV. "Foi um sucesso 'instantâneo', que levou dez anos para virar realidade", afirma.

Ele descreveu o extensor de Ueda em sua patente como um "conceito prévio", mas acredita que o atual frisson em torno do "pau de selfie" foi gerado por seu próprio modelo.

O produto de Fromm, ao contrário do extensor de Ueda, foi um sucesso de vendas, mas várias outras pessoas vêm lucrando com ele ao produzir cópias baratas. São tantas que, de fato, seria impossível listá-las.

"É como quando há formigas num piquenique: seria impossível acabar com todas. Seria desperdício de energia tentar tirar todas as cópias do mercado", diz ele.

Além disso, ressalva Fromm, dinheiro não é o que move inventores como ele e Ueda. "O importante é que você está criando algo divertido e útil para as pessoas. Então, fico feliz que o mundo tenha adotado o 'pau de selfie'."

Mas algo não se perdeu com o produto? E quanto à interação entre completos estranhos e a troca de favores que vem a seguir? Fromm diz não sentir falta de nada disso. "Uma vez que você quebra o gelo com estranhos, eles se acham no direito de continuar a bater papo com você."

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