Com mapeamento em tempo real, empresa inova no combate a desastres naturais

Por David Shalom - enviado a Nova York* |

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Sistema criado pela Firewhat? – com ponto de interrogação mesmo – é usado em combates a incêndios e enchentes nos Estados Unidos e tem planos de monitorar também no Brasil

Bombeiro observa chamas que destruíram milhares de hectares da Chapada Diamantina, em 2015
Facebook/Reprodução - 19/20.11.2015
Bombeiro observa chamas que destruíram milhares de hectares da Chapada Diamantina, em 2015

Um grande mapa de papel é estirado sobre uma mesa para que equipes de combate a incêndio estudem as possibilidades de as chamas se espalharem e tentem adivinhar quantas pessoas poderão ser afetadas por elas. Os detalhes são estáticos, antigos, desatualizados. Mas, em um mundo altamente tecnológico, é assim que até hoje bombeiros analisam grandes desastres para saber como conduzir suas missões de resgate. O que, finalmente, está mudando.

Fundada em 2011 pelo norte-americano Sam Lanier, a empresa Firewhat? – assim mesmo, com ponto de interrogação – tem conseguido fornecer a equipes de resgate dos Estados Unidos uma nova forma de mapeamento de incêndios florestais, enchentes e quaisquer outras tragédias que afetem pessoas e estruturas governamentais e de grandes companhias. A prática do resgate ainda está longe de acompanhar a evolução tecnológica como ocorre em outras áreas.

Com parceria firmada com a Environmental Systems Research Institute (ESRI), líder mundial em sistemas de informações geográficas, e com a as duas empresas que hoje formam a antiga Hewlett Packard – HP Inc. e Hewlett Packard Enterprise –, que lhe fornece computadores pessoais e servidores de dados com capacidade de armazenamento de 48 terabytes, a Firewhat? consegue seu mapeamento graças ao Sistema de Informações Geográficas (GIS, na sigla em inglês), conjunto de sistemas de softwares e hardwares que produz, armazena, analisa e apresenta informações sobre uma área com mapas, gráficos, tabelas, cartas topográficas, entre outros.

É por meio da tecnologia que a empresa consegue cruzar dados de satélites em tempo real com informações oficiais a respeito da população de cada uma das áreas e dos detalhes do terreno visualizado. Atualmente, a Firewhat? mapeia todo o território dos EUA, e já possui planos para estender seus negócios à América do Sul, Austrália e leste asiático, áreas amplamente afetadas por queimadas e desastres naturais.

"As pessoas e os responsáveis pelo gerenciamento de risco e combate ao fogo precisam entender como a área atingida é demograficamente, saber quantas escolas estão em risco, quantas torres de rádio, quantas linhas de transmissão de energia, de gás, sempre com a melhor informação", disse ao iG Sam Lanier, em evento em Nova York.

"Cada um de nossos laboratórios móveis possui servidores que nos dão espaço suficiente para, por exemplo, entender e dissecar tudo a respeito da população humana de uma área específica. Hoje, isso não existe em nenhum outro lugar. E, apesar do nome Firewhat?, o gerenciamento de emergência é o mesmo para qualquer caso. Ou seja, se tivermos um grande terremoto e houver cem casas afetadas, teremos todas as informações demográficas para sabermos quantas pessoas vivem naquelas casas, que podem ter sido completamente destruídas, e, assim, o pessoal do resgate pode realmente ir ao local checar se há pessoas nelas ou não. A mesma coisa com enchentes, furacões e etc."

A empresa funciona em duas frentes principais: a primeira, voltada para fornecer informações, de forma gratuita, para corporações de combates a incêndios, instituições governamentais, como o Departamento de Agricultura dos EUA, e ações de resgate como consequência de desastres naturais. Estas incluem mapeamento total dos terrenos, tanto geográfica quanto demograficamente, e visualização da situação em tempo real.

Bombeiros veem área de incêndio em mapa de papel em Ontario, Canadá: técnicas ultrapassadas
Laura King/Fire Fighting in Canada/Reprodução
Bombeiros veem área de incêndio em mapa de papel em Ontario, Canadá: técnicas ultrapassadas

Um exemplo: uma transportadora que envia um trem com US$ 1 bilhão em mercadorias a alguma área com incêndio ou outro desastre é automanticamente notificada pela Firewhat?, o que a ajuda a evitar a destruição de seus pertences, alterando rotas ou adiando as entregas. Da mesma forma, uma companhia de distribuição de eletricidade tem a oportunidade de desligar certas linhas de transmissão que poderiam vir a ser afetadas, evitando prejuízos até então inevitáveis, e uma companhia de seguros, de avisar seus clientes para retirar das residências seus bens mais valiosos. 

A segunda frente é a usada pela Firewhat? para construir e manter suas unidades móveis e garantir seus lucros – de acordo com Lanier, a empresa foi avaliada em US$ 10 milhões em meados do ano passado. Assim, seus serviços são vendidos a companhias de seguros, empresas de transporte, extratoras de madeira, de gerenciamento de terras e de distribuição de matérias-primas como energia e gás, proprietários de grandes áreas, entre outras. 

Gráfico exibe detalhes sobre área atingida por incêndio, inclusive com fotos de casas destruídas
Firewhat?/Divulgação
Gráfico exibe detalhes sobre área atingida por incêndio, inclusive com fotos de casas destruídas

"Naturalmente, o principal ponto para fazermos este mapeamento é o bem social que ele traz. Mas, sem dúvida alguma, é uma área lucrativa, até pelo aumento dos desastres naturais e das queimadas, o que leva a uma necessidade cada vez maior de controlá-los, algo possível com as tecnologias disponíveis", explica Lanier. "Há um elevado número de informações que podemos comercializar para ajudar todos esses negócios a melhorar suas ações e ampliar seus lucros."

Atualmente, a Firewhat? possuí três unidades móveis, que devem ser expandidas para 12 nos próximos meses. O custo de cada uma gira em torno dos US$ 400 mil, somados os valores de trailer, de satélite, dos equipamentos HP e do software da ESRI, pagos graças aos valores repassados pelos clientes fixos da empresa.

Os fundadores da Firewhat?, Sam Lanier (à esquerda) e Rusty Merritt: planos ambiciosos para 2016
Firewhat?/Divulgação
Os fundadores da Firewhat?, Sam Lanier (à esquerda) e Rusty Merritt: planos ambiciosos para 2016

Apesar de ainda incipiente, com uma equipe de apenas 14 pessoas para cuidar de todos os seus trabalhos, a Firewhat? tem o objetivo de espalhar o sistema por todo o mundo o mais rapidamente possível. Entre as prioridades da empresa está o Brasil, que viu suas queimadas crescerem 27,5% no ano passado, com 235 mil focos de incêndio, o segundo maior registro da série histórica, iniciada em 1999. 

"É incrível como a adaptação à tecnologia no combate de desastres naturais é lenta. Parece existir um medo de que a informação vá para a nuvem, volte para baixo e vaze para alguém que não deveria conhecê-la", avalia Lanier. "Hoje, todos usam a tecnologia, todos a tem no bolso, nos celulares, nos tablets, mas na área de desastres ela segue distante. E é isso o que tentamos mudar."

*O jornalista viajou a Nova York a convite da HP.

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