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Segundo investigação interna, empresa reuniu indícios de tentativas de influência nas eleições americanas e decidiu deletar contas suspeitas. Veja

Facebook deleta dezenas de contas suspeitas de tentarem interferir no resultado das eleições americanas marcadas para novembro de 2018
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Facebook deleta dezenas de contas suspeitas de tentarem interferir no resultado das eleições americanas marcadas para novembro de 2018

O Facebook comunicou nesta terça-feira (31) que decidiu deletar 32 contas suspeitas que administravam perfis e páginas falsas na rede social e no Instagram. A decisão foi tomada após investigação interna encontrar evidências de tentativa de interferência externa política e coordenada nas eleições parlamentares norte-americanas marcadas para novembro de 2018.

Segundo informações apuradas por agências internacionais, a empresa deletou sete contas falsas de Instagram, oito páginas de Facebook e 17 perfis. Todos eles foram criados entre março de 2017 e maio de 2018 e descobertos há cerca de duas semanas. Assim como no caso que  excluiu páginas ligadas ao MBL  (Movimento Brasil Livre) essa semana, a empresa usou como argumento o desrespeito a sua política de autenticidade para excluir as contas desses supostos usuários nos Estados Unidos.

O Facebook também informou que essas páginas promoveram mais de 150 propagandas nas redes sociais, pagando cerca de US$ 11 mil em moeda americana ou canadense. As páginas também criaram por volta de 30 eventos nesse período sendo que o maior deles atraiu interesse de 4,7 mil contas sendo que mais de 290 mil usuários seguiram ao menos uma das páginas suspeitas.

A investigação interna que culminou nessa decisão já havia sido revelada a congressistas americanos na ocasião em que Mark Zuckeberg, CEO do Facebook, esteve presente no parlamento dos Estados Unidos para  prestar esclarecimentos sobre o escândalo do vazamento de dados de mais de 87 milhões de usuários do redes social para a empresa de consultoria Cambridge Analytica.

Apesar desses dados terem sido utilizados para também tentar influenciar em eleições americanas, no caso as presidenciais de 2016, e no referendo que acabou culminando na decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia, o chamado Brexit , esse caso não tem uma relação direta com o que culminou na atual exclusão das páginas da rede social.

No episódio de hoje, o que o Facebook estava investigando diz respeito a suspeitas de interferências nas chamadas eleições de meio-termo que prometem definir 36 governadores e os parlamentares destes respectivos estados que ocorrerão em novembro.

A decisão de excluir tais páginas, no entanto, não encerra as investigações desse caso. Isso porque "ainda estamos nos estágios iniciais de nossa investigação e não temos todos os fatos - incluindo quem pode estar por trás disso", afirmou o Facebook numa série de posts no blog oficial, antes de concluir "mas estamos compartilhando o que sabemos hoje, dada a conexão entre esses maus atores e protestos que estão planejados para a semana que vem em Washington".

A dificuldade de encontrar os responsáveis por tais páginas falsas, por sua vez, se deve a uma atitude cuidadosa desses "maus atores". Segundo o diretor de cibersegurança do Facebook, Nathaniel Gleicher, os suspeitos se disfarçaram muito bem, usando VPNs (tecnologia que esconde o local de origem do usuário), outros serviços e outras pessoas para comprarem as propagandas para eles.

O comunicado do Facebook, por sua vez, também afirma que "quem configuou as contas foi muito longe para obscurecer as verdadeiras identidades", o que nos leva a crer que o trabalho foi feito por hackers profissionais e não apenas por entusiastas de uma campanha eleitoral.

Dessa forma, não é possível dizer se essas páginas estariam comprovadamente ligadas à Rússia como já se suspeita que tenha acontecido nas eleições presidenciais americanas. Naquele caso, assim como nesse, a suspeita é de que elementos estrangeiros tenham usado a plataforma para disseminar fake news e influenciar os usuários da rede social e consequentemente os resultados nas urnas.

Além disso, a companhia informou que havia encontrado tentativas de manipular sua plataforma após as eleições americanas, inclusive na época das manifestações racistas em Charlottesville, Virgínia, no ano passado, em consonância com os esforços russos para não apenas afetar a eleição através das fake news, mas também as tensões em torno de questões sociais em território americano.

De um jeito ou de outro, a verdade é que com essa decisão, o Facebook admite que páginas e contas falsas tentavam influenciar usuários dentro da plataforma através do compartilhamento de informações verdadeiras que beneficiavam seus interesses ou simplesmente através da disseminação de informações igualmente falsas usando essa rede de supostos usuários inclusive para isso.

E não é a primeira vez.

Facebook já apagou outras contas suspeitas essa semana

Na semana passada, Facebook também chegou a apagar contas suspeitas ligadas ao Movimento Brasil Livre (MBL) que espalhavam fake news na rede social
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Na semana passada, Facebook também chegou a apagar contas suspeitas ligadas ao Movimento Brasil Livre (MBL) que espalhavam fake news na rede social

Depois que o Facebook anunciou que passaria a apagar fake news da rede social , essa já foi a segunda vez que a empresa comunica que deletou páginas e usuários falsos.

A primeira vez que isso aconteceu foi, inclusive, aqui no Brasil e gerou reclamações do MBL, grupo bastante afetado pela medida e que teve papel determinante no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff ganhando forças nas redes sociais e chegando a eleger um de seus fundadores a cargos públicos depois disso: o vereador Fernando Holiday, eleito pelo Democratas na cidade de São Paulo.

Após a divulgação da informação, o Facebook comunicou também que "após uma rigorosa investigação dos perfis envolvidos" chegou a conclusão que esses usuários estavam envolvidos em "uma rede coordenada que se ocultava com o uso de contas falsas no Facebook, e escondia das pessoas a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação".

Ainda segundo o Facebook, essa atuação violava sua política de autenticidade, o que possibilita que a rede social apague as contas desses supostos usuários, o que não evitou que o MBL emitisse um comunicado onde se queixa de estar sendo censurado.

Representantes do grupo publicaram em suas redes sociais que "na manhã de hoje, 25/07/2018, diversos coordenadores do Movimento Brasil Livre (MBL) tiveram suas contas arbitrariamente retiradas do ar pelo Facebook. A alegação dada pela rede social é a de que se tratava de coibir contas falas destinadas à divulgação de 'fake news'."

O comunicado do MBL ainda afirmou que o "Facebook tem sido alvo de atenção internacional, por conta do viés político e ideológico da empresa, manifestado ao perseguir, coibir, manipular dados e inventar alegações esdrúxulas contra grupos, instituições e líderes de direita ao redor do mundo".

O grupo se defende dizendo que "muitas dessas contas possuíam dados biográficos" e afirmou que vai "utilizar todos os recursos midiáticos, legais e políticos que a democracia nos oferece para recuperar as páginas derrubadas."

Os líderes também comentaram sobre os questionamentos feitos à Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, quando este foi prestar esclarecimentos ao Congresso Americano sobre o caso de vazamento de dados à Cambridge Analytica e acabou respondendo também sobre a disseminação de fake news dentro da rede social.

Após isso, o movimento chegou a realizar protestos físicos em frente à sede do Facebook em São Paulo fazendo, inclusive, transmissões ao vivo através do recurso de live streaming que a própria rede social oferece. Não deu em nada. As páginas fakes continuaram banidas.

Mudança de postura do Facebook em relação às fake news

Mark Zuckerberg chegou a responder perguntas de congressistas americanos a respeito de contas suspeitas que espalhavam fake news na rede social
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Mark Zuckerberg chegou a responder perguntas de congressistas americanos a respeito de contas suspeitas que espalhavam fake news na rede social

De qualquer forma, tanto a exclusão no Brasil quanto nos Estados Unidos marcam uma nova postura da rede social em relação às fake news. Isso porque essas medidas vieram na extensão de uma série de esforços da empresa de Mark Zuckerberg realizados após o Facebook se envolver em polêmicas e ser acusado, inclusive, de contribuir para a campanha difamatória que ocorreu durante as eleições presidenciais americanas que acabaram elegendo Donald Trump.

Antes, a empresa sempre negava a responsabilide pelo conteúdo publicado dentro de sua plataforma. Depois, a empresa informou que passaria a apagar apenas as fake news que pudessem causam danos físico às pessoas, como denúncias de crimes falsos ou desastres naturais que pudessem gerar pânico e acidentes. Dessa forma, postagens de caráter político-opinativo ou mesmo difamatório, teoricamente, não seriam afetados pela nova medida, o que parece ter mudado agora.

Até então, o Facebook se limitava a penalizar os posts que promoviam informações não verificadas, reduzindo o alcance da publicação ou impedindo que o usuário pudesse impulsionar esse conteúdo por meios de pagamento. Isso porque o Facebook sustentava que não deveria interferir na liberdade de expressão de seus usuários nem funcionar como um editor daquilo que as pessoas publicavam.

Dessa forma, a rede social só interferia num post quando este continha algum material que infringia suas políticas de comunidade, como a regra que proíbe o discurso de ódio e discriminação ou fotos nuas ou de violência explícita, por exemplo. Essa pode ter sido, inclusive, a brecha para a exclusão das páginas que infringiam as políticas de privacidade da empresa.

De qualquer forma, diante dos estragos que a publicação de conteúdos falsos na rede social estavam causando, chegando ao ponto de influenciar no resultado de uma eleição presidencial nos Estados Unidos, o Facebook agora está se permitindo fechar o cerco às fake news.

Uma outra medida anunciada recentemente incluía a parceria com agência de checagem de notícias que vão classificar as informações mais propagadas dentro da rede social em critérios de credibilidade. Especula-se até que o Facebook esteja testando uma ferramenta que mostre um percentual para os usuários do quanto a notícia que ele está visualizando é verdadeira.

Além disso, a rede social anunciou recentemente que está criando regras para a propagação e  veiculação de anúncios eleitorais e/ou políticos e que deixará mais evidente quando um post foi produzido ou está sendo impulsionado por um candidato . Medida que já vai valer para as eleições presidenciais no Brasil, marcadas para outubro desse ano. Tudo isso para tentar minimizar os impactos que as contas suspeitas que reproduzem fake news no Facebook podem exercer.

* Com informações do jornal O Dia, com Agência France Presse e Estadão Conteúdo