Primeiro dispositivo de manipulação em 3D com precisão e preço baixo, Leap Motion tem pouca serventia sem padrões para interação e aplicativos "arrasadores"

NYT

Por David Pogue

A essa altura, todos sabem como será o futuro; filmes e séries já o descreveram com detalhes. Sabemos sobre os carros voadores (obrigado, "Blade Runner"), hologramas (obrigado, "Star Trek") e mordomos robôs (obrigado, "Jetsons"). Sendo assim, quando iremos realmente possuir essas tecnologias? Bem, não espere de pé.

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Existe, porém, uma exceção. A partir de julho deste ano, você pode comprar sua própria parte de "Minority Report" e "Homem de Ferro": controlar seu computador com movimentos da mão no ar [Nota do editor: data de lançamento se refere apenas aos EUA].

A internet vem discutindo o Leap Motion Controller (US$ 80 nos EUA) desde suas primeiras demonstrações públicas, há mais de um ano. Imagine controlar objetos na tela simplesmente movendo as mãos no espaço vazio, igual ao Tom Cruise! Imagine o reconhecimento de gestos como o Kinect, da Microsoft, mas em uma escala muito menor e mais precisa. Imagine o futuro, plugado em uma entrada USB de seu Mac ou PC.

O sensor Leap Motion é lindo, minúsculo e autossuficiente: uma placa elegante de alumínio e vidro (3 x 7,6 x 1,3 centímetros), com borracha antiderrapante na base. Um único cabo USB (na caixa vêm dois, um longo e um curto) se estica até o computador; uma luz se acende quando ele está funcionando.

Se você possui um computador desktop, basta colocar o sensor entre sua tela e o teclado. Se for um laptop, ele fica na mesa em frente ao teclado. Logo, segundo a Leap, você poderá comprar um computador da HP ou Asus já com o sensor embutido.

Você baixa o software do produto e pronto: um tutorial meio defeituoso o instrui a inserir suas mãos no espaço – um cubo invisível, com cerca de meio metro – que é monitorado pelas câmeras e sensores infravermelhos do Leap.

Este dispositivo é como o Kinect pelo fato de reconhecer partes do corpo no espaço. Entretanto, o Leap não só é menor e mais barato, como também mais preciso. De acordo com a empresa, ele pode detectar as posições exatas dos seus 10 dedos simultaneamente, com uma precisão espacial de até um centésimo de milímetro – 200 vezes mais preciso do que o Kinect.

E lembre-se, o Leap traz o reconhecimento de gestos não à sua TV, mas ao computador. Uma máquina que pode rodar milhões de programas diferentes com inúmeras finalidades. Games, é claro, mas também trabalho de escritório. Trabalho criativo. Comunicação. Entretenimento. Claramente, essa pequena maravilha é algo revolucionário.

Nem tão perfeito assim

Infelizmente, esse não é o caso. O hardware do Leap pode ser simples, bonito e coerente – mas seu software é disperso, incoerente e frustrante. A primeira grande decepção é que nenhum software reconhece seus movimentos de mão a menos que tenha sido especialmente desenvolvido, ou adaptado, para uso pelo Leap.

Existem 75 desses aplicativos na loja do Leap, a Airspace; alguns são gratuitos, outros custam alguns dólares. Nem todos funcionam em Mac e Windows.

A maioria são jogos. No melhor deles, você controla a ação em um espaço tridimensional, como com o Kinect, mas sem precisar ficar de pé. Por exemplo, o Boom Ball (US$5) é um game clássico onde você tenta derrubar tijolos quicando uma bola contra eles – mas sua raquete está presa ao seu dedo no espaço vertical.

Games otimizados para uso de gestos poderão ser controlados com movimentos das mãos
Reprodução
Games otimizados para uso de gestos poderão ser controlados com movimentos das mãos

No inteligente Sugar Rush (US$ 2), da Disney, você assa um carro de corrida no formato de bolo e o controla segurando os dois lados de um volante invisível. Para jogar Dropchord (US$3), você ergue os dois dedos indicadores no espaço – definindo uma linha entre eles, usada para cortar pontos e evitar Xs. O jogo Cut the Rope também está lá (gratuito).

Há alguns programas interessantes de música, o que faz sentido, já que os movimentos de mão são geralmente associados a instrumentos musicais. O Air Harp (US$1) é exatamente como diz o nome. O Chordion Conductor é um arpejador de som adorável (ele gera música a partir de acordes que você escolhe). Estão disponíveis alguns aplicativos educacionais simples, como o Molecules (gira moléculas na tela; grátis), o Cyber Science 3D (abre um crânio; grátis) e o Frog Dissection (disseca um sapo; US$4).

Movimentos diferentes

Com tudo isso, há alguns problemas incrivelmente óbvios. Primeiro, os movimentos não são consistentes entre os jogos. Em alguns aplicativos, "clicar o mouse" envolve mover a mão na direção de algo na tela; em outros, é preciso apontar para o objeto e permanecer imóvel enquanto um cursor é "preenchido". Assim como no Kinect, esse período de espera é provavelmente para evitar seleções acidentais. Porém, manter seu dedo absolutamente parado no espaço é bastante difícil.

Em alguns aplicativos, você retorna à tela anterior com um rápido passar de dedos para a esquerda. Em outros, é preciso abanar a mão na horizontal. Não existe critério ou motivo. Aprender os gestos em um aplicativo não ajuda em nada com o seguinte.

O próprio rastreamento dos dedos também funciona de forma inconsistente. Em alguns aplicativos, o computador parece saber precisamente onde seus dedos estão; em outros, você se sente ignorado ou mal interpretado. O resultado é uma frustração plena, como tentar tocar violão usando luvas de boxe.

O segundo grande problema: metade desses aplicativos funcionaria muito melhor com mouse e teclado, ou pelo menos com uma tela sensível ao toque. No jogo Puddle (US$ 5), você conduz líquidos por diversas fases inclinando as superfícies, mas as teclas das setas se sairiam igualmente bem.

O terceiro grande problema tem a ver com o aplicativo Touchless. Esse é o único aplicativo que vai além de games e versões demo para chamar a atenção, o único que se aproxima da promessa de "Minority Report". É um aplicativo que lhe permite operar o cursor e janelas diretamente em seu sistema operacional (OS X ou Windows).

Acontece que, quando seu dedo está erguido no ar, como o software irá perceber quando você "clicou" em algo? Não existe vidro para tocar, como em uma tela de toque, e nenhum botão para clicar, como em um mouse.

A solução do Leap: há uma parede arbitrária invisível no espaço sobre o sensor. Você não pode vê-la ou senti-la, mas quando seu dedo cruza aquela linha, você acabou de clicar. Programas de pintura como o Corel Painter Freestyle (grátis) requerem a mesma técnica. Como seria de se imaginar, esse método é um desastre: complexo, frustrante, impreciso. O gesto mais usado neste ponto provavelmente será lançar a porcaria do aparelho pela janela.

Conclusão

Em resumo, o Leap Motion Controller é uma solução em busca de um problema. Ele precisa desesperadamente de um aplicativo arrasador, algum programa que não poderia existir sem os talentos especiais do Leap: rastrear os movimentos tridimensionais de 10 dedos individuais com incrível precisão.

Grande parte dos aplicativos nem mesmo se aproveita desse rastreamento dos 10 dedos. A maioria detecta apenas um dedo ou mão. Dos 20 aplicativos que testei, nenhum deles lhe permite manipular objetos 3D na tela com seus dedos – um maço de cartas, uma maçaneta e massinha de modelar. Esses gestos seriam exclusivos e interessantes para um sistema 3D como esse.

É bastante animador que o controle Leap tenha atingido um excelente design de hardware, alta precisão, excelente velocidade e preço baixo. Infelizmente, o software que irá justificar sua existência ainda reside no futuro.

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