Relógio da Samsung impressiona por recursos inéditos, mas quase todos eles funcionam de forma "capenga"

O sucesso inesperado do relógio Pebble , produzido por uma pequena startup e bancado por financiamento coletivo, reacendeu o interesse das empresas de tecnologia pelo segmento de relógios inteligentes. A Sony , que já havia lançado seu SmartWatch em 2012, renovou a linha com o SmartWatch 2 , lançado há alguns meses. Há rumores de que outras empresas, como Google , Nokia , Motorola e Apple , também estariam estudando esse mercado.

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No caso da Samsung , não é boato. Apresentado em setembro na IFA 2013 , o Galaxy Gear (R$ 1.300) já está no mercado. Conhecida por incluir todos os recursos possíveis e imagináveis em seus smartphones, a Samsung adotou abordagem similar no relógio. O Gear tira fotos, grava vídeos, controla músicas guardadas no smartphone, faz e recebe ligações e mostra notificações de SMS, e-mail e redes sociais, entre outros recursos. Mas será que todas essas novidades funcionam da forma ideal? Confira no teste.

A favor

- Câmera é divertida de usar e tira fotos de boa qualidade;
- Fazer e receber ligações sem tirar o celular do bolso é simples e útil;
- Ótima tela;
- Apesar de grandalhão, o design tem lá seu apelo.

Contra

- Bateria dura apenas um dia;
- Poucos aplicativos;
- Integração com SMS, e-mail e redes sociais ainda é precária.

Configuração inicial

Para começo de conversa, é bom esclarecer que o Gear funciona apenas com alguns modelos de ponta da linha Galaxy , como o Galaxy Note III e S4. Nos testes do iG , foi usado um Note III.

Para sincronizar o relógio com o smartphone pela primeira vez, é preciso habilitar o NFC do celular e encostá-lo no adaptador da bateria do Gear (caso o aparelho não tenha NFC, o Bluetooth é usado para a primeira sincronização). Assim que isso é feito, surge a tela de download do Gear Manager.

Esse aplicativo serve para gerenciar os recursos do relógio e também para instalar aplicativos. Após ativar o Gear Manager, toda a sincronização é feita por meio do Bluetooth.

Design

Tamanho e estilo de relógio são questões de gosto. Dito isso, o Gear agrada mais ao grupo de pessoas que prefere um relógio maior e com visual moderno. O relógio tem moldura em metal e pulseira de borracha. Os quatro parafusos aparentes ajudam a dar um toque "industrial" ao produto.

Pulseira do Gear tem componentes eletrônicos e não pode ser trocada
Claudia Tozetto/iG
Pulseira do Gear tem componentes eletrônicos e não pode ser trocada

O Gear realmente é grande, mas não a ponto de ser ridículo. Ele pode, porém, passar do tamanho ideal principalmente em pulsos mais finos. E, devido aos componentes da câmera e do alto-falante, a pulseira de borracha perde um pouco de sua ergonomia. É difícil obter um ajuste realmente confortável.  

Além disso, como a câmera e o alto-falante ficam em componentes da pulseira, não é possível trocá-la. Para agradar a vários públicos, o Gear está disponível em seis cores. 

A Samsung merece elogios pelo design arrojado do Gear. Mas no dia-a-dia o relógio traz alguns incômodos inexistentes em relógios comuns. Ele não é à prova d´água, por exemplo. O Gear parece robusto o suficiente para resistir a pequenos respingos, mas não é uma boa ideia tomar banho com ele. 

Como contém os componentes do alto-falante, a fivela do relógio também é mais grossa do que a de um relógio comum. Por isso, ela pode incomodar bastante quando apoiamos o pulso na mesa para usar um teclado de computador ou notebook. 

Outra função em que o Gear ainda pode melhorar é a mais básica de um relógio: ver as horas. Para poupar bateria, a tela do relógio fica em repouso na maior parte do tempo. Quando o usuário faz o movimento característico para ver as horas, girando o pulso e levantando o braço, a tela é ativada. Há, entretanto, um pequeno atraso de cerca de um segundo até que as horas sejam exibidas. É um tempo curto, mas suficiente para incomodar um pouco.

Além disso, para que o horário seja exibido é necessário realmente fazer o movimento completo, girando o pulso e levantando o braço. Só uma pequena girada no pulso não resolve. E o movimento não funciona se o usuário estiver deitado. Durante os testes do iG   em algumas poucas vezes o relógio não respondeu de primeira e foi necessário um segundo movimento para acionar a tela.

Tela

O Galaxy Gear tem uma tela de 1,6 polegada com tecnologia AMOLED e resolução de 320 x 320 pixels. De modo geral, a qualidade da tela é ótima. O nível de brilho é bom e as transições ocorrem sem engasgos, também devido à combinação do processador Exynos de 800MHz com 512 de RAM, uma configuração robusta para um aparelho tão pequeno e com pouca necessidade de processamento.

Mesmo sendo pequena, a tela do Gear responde com precisão ao toque. Nos testes do iG   não houve erros mesmo ao tocar em ícones muito pequenos, com uma área minúscula para interação. 

Interface e navegação

O relógio tem apenas um botão físico, do lado direito, que leva o usuário à tela inicial (Home). Nessa tela, deslizar o dedo para baixo ativa a câmera e o gesto inverso traz o teclado numérico para ligações.

O deslize para qualquer lado é usado para navegar entre os principais recursos do aparelho (Notificações, S Voice, Lembrete de voz, Galeria, Controle de mídia, Pedômetro, Configurações, Aplicativos, Chamadas e Contatos). Dentro dos aplicativos, o deslize para cima tem a função de voltar ao menu anterior. Há ainda gestos mais específicos, como dois toque com dois dedos na tela Home para ver nível de bateria, volume do áudio e brilho.

Uma forma de agilizar o acesso aos aplicativos mais úteis é usar a interface relógio que traz a hora e três atalhos para aplicativos. Esses atalhos podem ser usados para permitir acesso aos aplicativos mais usados com apenas um toque a partir da Home. 

A cor de fundo padrão do Gear é preto, mas isso pode ser alterado nas configurações do relógio. O Gear traz ainda nove visuais diferentes para o relógio, incluindo opções "analógicas" com ponteiros e versões digitais com números. Mais opções de relógio podem ser encontradas em aplicativos disponíveis na loja Samsung Apps.

Recursos

Uma das maiores vantagens práticas do Gear é poder acessar notificações de SMS, e-mail e redes sociais no relógio. Mas esse recurso tem algumas limitações. É possível ver no relógio o texto de mensagens SMS e de e-mails enviados para o aplicativo padrão de e-mail do smartphone. Mas, no caso do Gmail e de redes sociais, o relógio exibe apenas um aviso de que chegou uma mensagem. Para ver o conteúdo é necessário tirar o celular do bolso.

Pedômetro está entre os recursos do Gear
Claudia Tozetto/iG
Pedômetro está entre os recursos do Gear

É possível responder a mensagens SMS a partir do relógio usando o S Voice para ditar a resposta. Mas seria mais prático haver também a possibilidade de enviar mensagens de texto pré-configuradas e simples, como "OK" ou "Ligo mais tarde".

No quesito voz, o aparelho não decepciona. O Gear usa o celular para fazer e receber ligações, mas não é necessário aproximar o relógio da boca para falar.

A qualidade do áudio é boa mesmo com o pulso afastado. Assim, é possível fazer ligações com o relógio mesmo sentado ao computador ou dirigindo. O alto-falante tem bom nível de som e é suficiente em escritórios e outros ambientes com nível moderado de barulho. 

Há duas formas de ligar para alguém a partir do relógio, usando o teclado numérico ou por meio de comandos de voz. O S Voice, ferramenta de comandos de voz da Samsung, permite usar frases simples para fazer ligações e enviar mensagens, entre outras funções.

Vale destacar ainda o recurso que permite usar o relógio para localizar o celular. Por meio do relógio é possível ativar um alarme sonoro no celular. Basta seguir o som para encontrar o aparelho. O recurso também funciona de forma inversa, ou seja, usando o celular para disparar o alarme do relógio. Isso tudo desde que os aparelhos estejam dentro do alcance da tecnologia Bluetooth (cerca de 40 metros)

Outros recursos, como pedômetro, lembrete de voz e controle de mídia (navegar entre músicas e controlar volume) funcionam de forma rápida e sem grandes transtornos.

Câmera

A maior novidade do Gear em relação a outros relógios inteligentes é a câmera embutida. Ela tira fotos nas proporções 4:3 (1.280 x 960 pixels) e quadrada (padrão do Instagram). A câmera também grava clipes de vídeo com até 15 segundos de duração e resolução HD (720p).

A qualidade das imagens é boa em ambientes com luz natural forte. Mas o grande atrativo aqui não é a qualidade das fotos, e sim a possibilidade de tirá-las sem pegar no celular. Tirar fotos com a câmera do Gear é prático e divertido, e a câmera do relógio vem a calhar para aquele registro rápido que não precisa de muita qualidade.

Um recurso importante, no entanto, ficou de fora: a capacidade de compartilhar uma foto diretamente do relógio. O Gear não envia fotos para rede sociais populares ou por e-mail. É possível apenas compartilhar fotos na rede social Path por meio de um aplicativo. Mas essa rede é pouquíssimo usada no Brasil.

Para enviar uma foto por e-mail ou publicá-la no Facebook, Instagram e outras redes é necessário recorrer ao smartphone (as fotos tiradas com o Gear podem ser automaticamente enviadas para o celular). Mas, se você vai pegar o smartphone para compartilhar a imagem, não é melhor tirar a foto com a câmera do celular? Um recurso para compartilhar fotos diretamente do relógio certamente seria bem-vindo.

Aplicativos

Aqui, o Galaxy Gear paga o preço por seu pioneirismo. A atual seleção de aplicativos para o relógio ainda é pobre, tanto em qualidade como em quantidade. Nesse momento inicial, os desenvolvedores ainda estão descobrindo o que é possível ou não fazer no Gear, e que tipos de aplicativo fazem sentido em um relógio digital.

Aplicativo permite ver conteúdo do Twitter no Gear
Claudia Tozetto/iG
Aplicativo permite ver conteúdo do Twitter no Gear

Atualmente, a quantidade de aplicativos para o Gear é de cerca de 70, e boa parte deles é de visuais diferentes para o relógio. Outros aplicativos parecem existir apenas para testar os recursos do relógio, e não para resolver um problema do usuário. 

Um bom exemplo disso é o aplicativo do Pocket, serviço que armazena páginas web para leitura posterior. Em vez de exibir o texto das matérias no Gear, o aplicativo baixa um arquivo de áudio que narra o conteúdo da matéria usando o alto-falante do smartphone (e não do relógio).

Como a tela do Gear é muito pequena, os desenvolvedores podem ter optado por fornecer o áudio da matéria em vez do texto. Mas fica então a pergunta: faz sentido ter que instalar um aplicativo em um relógio para obter uma narração de um texto que está na tela do seu celular? 

Há algumas exceções mais úteis, como os aplicativos Tweet Quickview (para ver conteúdo do Twitter), e alguns apps de reconhecimento de texto e tradução. Mas mesmo esse têm funções limitadas por vezes não funcionam como o esperado.

Bateria

Sim, além de ter que carregar as baterias do tablet, smartphone e notebook, agora você terá que arrumar uma tomada ou porta USB para carregar o relógio. Nos testes do iG , a bateria foi suficiente para um dia de uso. Ou seja, o Gear tem que ser recarregado diariamente.

O relógio não tem porta microUSB e por isso não é conectado diretamente ao carregador. Para carregar a bateria é necessário encaixar um adaptador ao relógio. É nesse adaptador que entra o conector microUSB do carregador. Esse é outro ponto pode ser melhorado em futuras versões, incluindo uma porta microUSB no próprio relógio e dispensando o adaptador. 

Como o Gear usa Bluetooth constamente para se manter sincronizado com o smartphone, também deve ser considerado o impacto do relógio na bateria do celular.

Conclusão

Do ponto de vista da engenharia, o Galaxy Gear é sem dúvida um triunfo. Há pouco anos, pouca gente acreditaria que um dia você teria um relógio com microfone, alto-falante e câmera, digno de um espião dos antigos filmes do 007. 

Entretanto, o Gear paga o preço por seu pioneirismo. Há muitos recursos interessantes, como a câmera, a possibilidade de atender chamadas e ler SMS no relógio, entre outros. Mas todos eles precisam melhorar para se tornarem realmente úteis e a atual seleção de aplicativos é precária. O alto preço (R$ 1.300) e a compatibilidade limitada a poucos (e mais caros) modelos da linha Samsung Galaxy também colaboram para que, por enquanto, o Gear seja apenas um brinquedo de luxo muito legal. 

Ficha técnica

Galaxy Gear

Configuração:   Tela de 1,6 polegada com tecnologia AMOLED e resolução de 320 x 320, processador Exynos 800 MHz, 512 MB de RAM, 4 GB de armazenamento, sistema Android (versão personalizada), câmera de 1,9 megapixel com gravação de vídeo em HD (720p), Bluetooth 4.0.
Preço:   R$ 1.300
Peso:   73 gramas

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