Serviço do Google estreou nos Estados Unidos na última segunda-feira (19)

Por David Pogue

Muitas empresas adorariam enfiar a mão em nossas carteiras. Mas o Google quer mais. Ele quer ser a nossa carteira.

Essa intenção foi materializada com o software para celulares Google Wallet , lançado esta semana nos Estados Unidos (nota do editor: não há previsão de lançamento do Wallet no Brasil) . A ideia do programa é substituir o cartão de crédito em nossas carteiras de verdade.

Google Wallet permite pagamentos por meio de celular
NYT
Google Wallet permite pagamentos por meio de celular
Soa muito legal, não é? É o fim da “pescaria de cartões” na carteira, o fim dos papeizinhos de comprovante, assinaturas. No Google Wallet, tudo é gerenciado de forma segura, instantânea e conveniente. Basta tocar a tela do celular perto do caixa da loja.

Europeus e asiáticos já fazem pagamentos dessa forma há algum tempo. Por que não temos isso aqui nos Estados Unidos?

Agora é possível. Mas as restrições são tantas que poderiam encher uma enciclopédia.
No momento, o Google Wallet roda apenas em um modelo de celular: o Nexus S da operadora Sprint. Isso acontece porque o Google Wallet requer um chip NFC (Near-field Communcations) e o Nexus S é um dos poucos modelos com esse componente.

Futuramente, segundo o Google, outros aparelhos terão chips NFC. A empresa afirma que está conversando com todos os grandes fabricantes de aparelhos com Android para que isso aconteça.

Próxima pergunta: onde é possível fazer pagamentos com o Wallet? O Google teve a ideia de fazer uma parceria com a Mastercard, que já instalou componentes NFC em mais de 150 mil empresas só nos Estados Unidos. O número de lojas físicas é bem maior.

Como funciona

Imagine que o Wallet é uma cópia do seu cartão de crédito. Em vez de passar o cartão de crédito em um terminal, basta ativar o celular. No momento, o único cartão de crédito compatível com o Wallet é o Citibank Mastercard. O Google diz que pretende aumentar o número de cartões compatíveis no futuro.

Mesmo quem não tem um cartão Citibank Mastercard pode usar o Wallet. Na tela em que se escolhe o cartão, há uma opção chamada Google Prepaid Card. Ela vem com US$ 10 de crédito, mas é possível acrescentar mais dinheiro vinculando o Google Prepaid Card a cartão de crédito.

Tudo certo. Então você está no mercado e o caixa informa o valor. No momento em que você passaria o cartão de crédito, você simplesmente acessa o celular (não é necessário ativar o Google Wallet antes de usar o serviço). Você aproxima o aparelho do terminal, digita a senha. A tela do celular avisa que o pagamento foi autorizado.

Segurança

Recursos de segurança, segundo o Google, estão embutidos no sistema. O chip NFC do aparelho é completamente desativado quando a tela do celular se apaga. Isso é para evitar que hackers tentem acessar as informações do cartão por meio da conexão NFC.

Foot Locker é uma das empresas que trabalham com o Google Wallet
Getty Images
Foot Locker é uma das empresas que trabalham com o Google Wallet
O Google afirma que o chip NFC poderia ficar ativo até com o aparelho desligado. Mas a empresa afirma que preferiu priorizar a segurança em vez da conveniência. Como consequência, se a bateria acabar, o aparelho não funciona como carteira.

A senha foi implementada para evitar que outras pessoas façam compra com seu celular se ele for roubado ou perdido. Se a pessoa digitar a senha errada cinco vezes seguidas, o Google Wallet trava e o usuário tem que entrar em contato com o Google.

É claro que a exigência da senha atrapalha um pouco a conveniência de usar o celular para pagar compras. Digitar códigos numéricos em telas pequenas e nem sempre precisas é chato, e nem é tão mais rápido do que usar o cartão de crédito comum. Por que não podemos ter a opção de desabilitar a exigência de senha?

Não dá nem para escolher uma senha fácil para economizar tempo. O Wallet não aceita códigos como 1234 ou 1111.

Além disso, o argumento que o aparelho pode ser roubado não procede. Acredite, se você perder seu smartphone, vai notar logo. A primeira coisa que fará é ligar para o banco para congelar sua conta.

Single Tap

Então, se o Wallet não é tão mais conveniente do que um cartão comum, pra quê serve?

A resposta do Google está no recurso Single Tap.

Ele é a próxima geração de pagamentos digitais. Em estabelecimentos que trabalham com o recurso Single Tap, o Wallet é muito mais do que apenas um cartão de crédito. Ele também guarda cupons de promoções, pontos de fidelidade e ofertas de sites de compras coletivas. O serviço Google Offers, clone do Groupon, já vem vinculado ao Wallet, mas as ofertas estão restritas a poucas cidades dos Estados Unidos.

Quando você compra usando o Single Tap, você paga pela mercadoria e, ao mesmo tempo, ganha pontos de fidelidade, acesso a promoções etc. Um toque no celular, em vez de ter que lidar com vários cartões.

No momento, porém, poucas lojas nos Estados Unidos oferecem o Single Tap. Futuramente, segundo o Google, o Single Tap estará em todo lugar. A empresa diz que 30 companhias já aderiram ao sistema, mas a atualização dos equipamentos e software pode demorar.

Uma aposta para o futuro

Se chegarmos a esse ponto, o Wallet será muito mais do que um cartão de crédito bombado. Será a peça fundamental de um ecossistema de bancos, lojas, anunciantes e outras empresas. E vai substituir tudo na sua carteira: bilhetes de transporte, passagens aéreas, comprovantes etc. Tudo de forma eletrônica, segura e fácil.

Futuramente, diz o Google, você pode estar em algum corredor de loja e, com sua permisssão, o aparelho saberá que você está lá. Ele saberá se você está no corredor das TVs e uma oferta aparecerá no seu smartphone, oferecendo um desconto pelos próximos 30 minutos. Você comprará a TV na hora e sairá satisfeito com o desconto.

Por enquanto, o Google admite que o Wallet é um aplicativo ainda em estágio inicial. Só funciona em um aparelho, de uma operadora, com um só cartão de crédito e em um número limitado de lojas. “Pedimos que entendam que é só o início e o caminho é longo”, diz um gerente de produto da empresa. “Temos que dar os primeiros passos para que isso se torne uma realidade”.

O Google afirma que o Wallet não é um produto em fase de testes (beta), mas ele deveria ser. De modo geral, usar o Wallet é fácil e rápido, mas, em várias oportunidades, digitei meu código e fiquei lá parado e com cara de bobo, segurando a fila atrás de mim. A tela dizia “Iniciando Google Wallet” e ficava lá parada. O Google afirma que eu estava segurando o aparelho muito perto do terminal (o aparelho não deveria dizer isso?).

Mas seria legal se um desses “futuramente” que o Google usa para divulgar o produto se tornasse realidade. E seria ótimo carregar uma carteira mais vazia e esquecer de comprovantes de papel e cupons de desconto.

Até lá, para os poucos afortunados que são clientes da operadora Sprint, têm aparelhos Nexus S, possuem um cartão Citibank Mastercard e compram nos estabelecimentos conveniados, o Google Wallet é uma solução bem projetada que indica um caminho para os pagamentos no futuro.

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