Modelo custa US$ 300 nos EUA

NYT

Por David Pogue

Tecnologias vêm e vão em ondas. E, ultimamente, as ondas estão vindo e indo mais rapidamente.

As ondas que estão entrando: tablets, e-books, filmes online. As que estão saindo: computadores desktop, telefones fixos, qualquer coisa em discos, fitas ou papel.

Canon N tem design versátil
Divulgação
Canon N tem design versátil

É fascinante observar indústrias ultrapassadas tentando permanecer relevantes. Veja, por exemplo, a onda de saída conhecida como câmeras de bolso. Não admira que ninguém mais as esteja comprando. Seu celular tira fotos quase tão boas e é muito mais conveniente. Você sempre traz seu celular consigo, e pode transmitir as fotos via wireless assim que as tira.

Mesmo assim, a Canon, principal fabricante de câmeras do mundo, criou uma engenhosa resposta à ameaça das câmeras de celulares. Trata-se de uma câmera desenvolvida para atacar essa ameaça em três frentes.

Zoom de 8x

Primeiro, ela enfatiza os recursos que um smartphone não consegue bater, como uma lente com zoom. Segundo, ela imita o funcionamento e o design de um smartphone. Terceiro, ela pode transmitir novas fotos ao seu celular para envio imediato. O resultado, a Canon N (US$ 300 nos EUA), é metade câmera de bolso, metade acessório fotográfico para o celular.

Na categoria de recursos que faltam a uma câmera, a Canon N começa oferecendo uma poderosa lente de zoom – 8 vezes, frente a zero vezes num smartphone. O zoom digital, onde a câmera simplesmente amplia uma foto para criar a ilusão de proximidade, não conta.

A N também possui sensor e lentes muito maiores e sensíveis. O sensor da N não é muito grande para uma câmera – com 1 centímetro de diagonal –, mas é muito melhor do que os sensores vistos num celular comum. Finalmente, a tela da N gira 90 graus, para que você possa tirar fotos de ângulos interessantes.

Design diferenciado

A segunda categoria, imitar o design e a operação de um celular, é mais intrigante. A Canon N é uma das câmeras de visual mais estranho que você já viu. Praticamente um bloco quadrado e inexpressivo, em branco ou preto.

Ela possui apenas três botões físicos, todos minúsculos: Power, Play e Connect to Phone (conectar ao telefone). Como num celular, o resto dos controles fica na tela sensível ao toque.

Agora, você pode ter percebido que a lista não inclui "botão do obturador"; esta câmera não possui um. Em vez disso, você tira uma foto pressionando em cima ou embaixo o anel de plástico prateado ao redor da lente, que se move levemente e tira a foto.

Como alguém poderia perguntar, qual o objetivo desse design? Simples: essa câmera funciona igualmente bem de ponta cabeça ou a 90 graus. Como um celular, ela detecta em que posição você a está segurando e gira a imagem da tela de acordo. Graças ao sistema de obturador no anel, você pode tirar uma foto independentemente de como estiver segurando a câmera.

Os canhotos também podem apreciar essa configuração; ela os liberta da tirania dos botões de obturador no lado direito. A desvantagem do anel obturador é que ele é muito fino e bem ao lado do anel de zoom, igualmente estreito. Muitas vezes, você acaba tirando uma foto por acidente enquanto tenta usar o zoom.

O recurso de ponta cabeça também atenua as limitações da tela que gira, com uma dobradiça muito menos ambiciosa do que em outras câmeras. Ao segurar a câmera na posição vertical, o giro só ajuda a tirar fotos de coisas perto do solo. Como você pode usar a câmera em qualquer orientação, porém, a tela que gira também ajuda a tirar fotos segurando a câmera acima da cabeça ou mesmo em quinas.

Mesmo assim, a tela nunca fica voltada para o usuário, e isso não ajuda quando se está tirando autorretratos – uma pena.

Canon N tem ampla tela LCD na parte traseira
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Canon N tem ampla tela LCD na parte traseira

Existem outras semelhanças com celulares. Não há carregador externo de bateria; você recarrega a câmera conectando um cabo USB em seu computador ou adaptador de tomada. A bateria em si parece uma pilha AA em formato quadrado; é pequena. A Canon promete 200 fotos por carga, o que é bem pouco.

Esta câmera usa o mesmo tipo de cartão de memória usado em muitos celulares, o cartão microSD, em vez dos cartões SD usados na maioria das câmeras. Isso é lamentável, pois significa que você não poderá copiar as fotos para o computador retirando o cartão e inserindo-o em seu laptop. Será preciso usar o cabo USB ou uma conexão wireless.

Por um lado, um pequeno comutador troca entre modo Automático e modo Criativo, que poderia se chamar modo Instagram. Ao pressionar o botão do obturador – desculpe, anel do obturador –, a câmera tira seis fotos em vez de uma. Ela aplica um filtro diferente a cada uma, do tipo criado pelo popular aplicativo Instagram. Ou seja, ela altera cada uma com vários graus de exposição, saturação de cores, tonalidades e até mesmo cortes diferenciados. Os resultados nunca se repetem, e às vezes são interessantes.

No modo Automático, a câmera é mais básica, praticamente sem controles fotográficos. Com um toque no botão Menu, porém, você acessa um modo Programa que lhe permite realizar ajustes manuais de exposição (brilho), equilíbrio de branco, ISO (sensibilidade à luz) e assim por diante.

Conexão sem fio

O Wi-Fi é o terceiro aspecto surpreendente, embora esteja se tornando menos incomum com cada novo modelo de câmera. Na Canon N, você pode fazer três coisas com o Wi-Fi.

Primeiro, você pode enviar suas fotos da câmera ao celular. A configuração exige que você instale um aplicativo de iPhone, iPad ou Android e conecte seu celular à câmera – essa é a finalidade do botão lateral Connect –, que passa a funcionar como um ponto de conexão Wi-Fi. Quase instantaneamente, os ícones de suas fotos e vídeos surgem no telefone. Copiá-los da câmera requer dois toques cada, e você precisa transferir um por vez; não é possível selecionar um lote e dizer "transfira estes". Mesmo assim, é muito bom ter essas fotos da câmera em seu celular, prontas para um envio.

Esse é o recurso que faz a Canon N lembrar um acessório de celular; ela quase se transforma numa lente externa removível.

Se a câmera estiver num local com Wi-Fi, ela também pode transferir fotos ao Twitter, Facebook e assim por diante, sem precisar de um celular. A configuração é bastante complexa, mas uma vez feita, você simplesmente toca no ícone do serviço onde deseja postar.

Finalmente, você pode enviar suas imagens da câmera ao computador via Wi-Fi, em vez de usar um cabo ou retirar o cartão de memória. Isso também requer uma boa quantidade de configuração.

Qualidade de imagem

Apesar de seu sensor bastante pequeno, a N tira fotos muito boas. Em muitos casos, elas são muito melhores do que se consegue numa câmera de celular – afinal, esse é todo o objetivo. As cores são incríveis e o foco automático funciona bem e com rapidez.

Os vídeos são especialmente impressionantes: estáveis, nítidos e rápidos para refazer o foco quando você filma objetos em distâncias diferentes. Muito inteligente: o botão Record (gravar) está sempre na tela. Quando você quer gravar um vídeo, basta tocar ali. Não é preciso trocar modos ou acessar menus.

Ao mesmo tempo, esta câmera de US$ 300 não é como uma de US$ 500. As áreas de brilho nas fotos da N às vezes estouram, e fotos com pouca luz podem ficar granuladas.

A Canon N é uma ideia inovadora e inteligente – especialmente vinda de uma corporação enorme e conservadora como a Canon. E ela funciona em conceito e execução, como câmera independente e como companheira do celular.

Ela pode não representar o futuro das câmeras de bolso, mas se algo puder desacelerar o naufrágio da indústria de câmeras portáteis, terá de ser um pensamento ousado como este.

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