Novo aparelho não é compatível com acessórios atualmente no mercado

NYT

Por David Pogue

Se você estivesse fazendo uma aula na faculdade chamada iPhone 1, seu professor poderia identificar três fatores que tornaram o smartphone da Apple um sucesso sem tamanho.

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Primeiro, o design. Uma única empresa, conhecida por sua obsessão por detalhes, produz tanto hardware quanto software. O resultado é um todo coeso e coerente.

Segundo, componentes superiores. Como a maior empresa de tecnologia do mundo, a Apple tem maior poder com seus fornecedores de peças. Ela pode incorporar novas tecnologias frequentemente – o vidro Gorilla resistente a riscos, por exemplo, ou a tela supernítida Retina – antes de seus rivais.

Terceiro, compatibilidade. A onipresença do iPhone levou a um universo de acessórios para ele. Entre num quarto de hotel, e provavelmente haverá um conector para iPhone embutido no rádio-relógio.

Se tivesse de escrever uma monografia para essa aula, você poderia abrir com este argumento: ao criar o novo iPhone 5 (US$ 200 com contrato nos Estados Unidos), a Apple fortaleceu suas duas primeiras vantagens – mas entregou a terceira de bandeja para seus rivais (n ota da redação: o iPhone 5 não tem data para lançamento no Brasil, mas o País pode estar no grupo de 100 nações que receberão o iPhone 5 até o fim do ano).

Design

Comecemos com o design. O novo aparelho, todo preto ou branco, é lindo. Especialmente o preto, cujo brilhante corpo de vidro e alumínio traz as linhas de design de um bombardeiro fantasma.

Havia muitos rumores de que o iPhone 5 teria uma tela maior. Seria ela enorme, como em muitos telefones Android? Aquelas telas gigantescas ficam desconfortáveis no bolso, mas são fantásticas para mapas, livros, sites, fotos e filmes.

Conforme se revelou, a tela atualizada do iPhone nem se aproxima do tamanho Imax de seus concorrentes. São os mesmos 5,8 centímetros de largura, mas com a altura maior em 1,3 centímetros – 176 minúsculos pixels.

É uma boa mudança, mas não revolucionária. Você ganha uma fileira extra de ícones na tela inicial, mais mensagens nas listas de e-mails, teclas maiores no teclado virtual em modo paisagem e uma visão mais ampla de todos os aplicativos incluídos. Os aplicativos que não sejam da Apple podem ser alterados para preencher a nova tela. Até lá, eles ficam no centro de uma tela maior, flanqueados por barras negras quase imperceptíveis.

Com 0,76 centímetro, o telefone é surpreendentemente mais fino do que antes – o mais fino do mundo, segundo a Apple. Ele também é mais leve, com pouco menos de 113 gramas; ele desaparece em seu bolso. Este iPhone é tão leve, alto e fino que está no caminho certo para se tornar um marcador de livro.

Componentes

Segunda vantagem: componentes. Não há recurso revolucionário desta vez, não há nova Retina ou Siri (a leitura de pensamentos terá de esperar pelo iPhone 13). Mesmo assim, quase todos os recursos foram aprimorados, com foco no que importa: tela, som, câmera, velocidade.

O iPhone 5 é um aparelho 4G LTE, significando que, em algumas cidades sortudas dos Estados Unidos, você consegue velocidades de conexão absurdamente rápidas (a Verizon possui mais cidades com LTE, com a AT&T num distante segundo lugar e a Sprint na retaguarda).

O próprio telefone também tem mais velocidade. Seu novo processador é duas vezes mais rápido, diz a Apple. Poucas pessoas reclamavam da velocidade do modelo anterior, mas este certamente ganha.

Câmera do novo iPhone se sai bem mesmo com pouca luz
Getty Images
Câmera do novo iPhone se sai bem mesmo com pouca luz

Agora a tela possui melhor reprodução de cores. A câmera frontal captura vídeo em alta definição (720p). A bateria oferece o mesmo tempo de conversa (oito horas), mas soma duas horas adicionais para navegação na web (oito horas) – mesmo em redes LTE. Em termos práticos, são menos dias em que a bateria morre durante o jantar – algo bastante comum com os aparelhos 4G.

A câmera é uma das melhores já colocadas num celular. Suas fotos com pouca luz arrasam os mesmos esforços num iPhone 4S. Seu tempo de uma foto a outra melhorou em 40 por cento. E você pode tirar fotos mesmo enquanto grava um vídeo (alta definição de 1080p, naturalmente).
Tudo bem até aqui. Mas agora vem o terceiro ponto, a compatibilidade universal.

Hoje em dia, o conector de recarga do iPhone/iPad/iPod (que já existe há uma década) está em toda parte: carros, relógios, alto-falantes, docks, até mesmo dispositivos médicos. Mas o novo iPhone não é compatível com nenhum deles.

Conector

A Apple chama o substituto de conector Lightning. Ele é muito mais resistente do que o antigo conector, e muito menor – 0,79 centímetro de largura, contra 2,1 do anterior. E não há lado certo para cima – você pode conectar o cabo dos dois lados. Ele faz um clique satisfatório ao se encaixar, e mesmo assim sua remoção é suave. É o modelo de um importante conector moderno.

Chamado de Lightning, conector do iPhone 5 é menor do que o usado nos atuais aparelhos da Apple
Reuters
Chamado de Lightning, conector do iPhone 5 é menor do que o usado nos atuais aparelhos da Apple

Bem, está ótimo. Mas ele não se encaixa em nenhum acessório, carregador ou dock existente. A Apple vende um plugue adaptador por US$ 30 (ou US$ 40 com um cabo de 20 centímetros).

Se possui alguns acessórios, você pode facilmente gastar US$ 150 em adaptadores para um telefone de US$ 200. Isso não é apenas um tapa na cara dos clientes fiéis – é um direto bem no meio dos olhos.

Mesmo com o adaptador, nem todos os acessórios funcionam com o Lightning, e nem todos os recursos do velho conector estão disponíveis; por exemplo, você não pode enviar a saída de vídeo do iPhone a um cabo de TV.

A Apple diz que a mudança era inevitável – o velho conector, passados 10 anos, precisava desesperadamente de uma atualização. Talvez sim, mas a Apple simplesmente abriu mão de uma de suas maiores vantagens competitivas.

Software

O novo telefone vem com novo software, chamado iOS 6, cheio de pequenas e grandes melhorias – disponibilizado para download grátis também para iPhone 3GS, iPhone 4 ou iPhone 4S.

As maiores atrações do iOS 6 são um aplicativo completamente novo de mapas e GPS (a Apple abandonou o Google Maps e criou seu próprio aplicativo); novos talentos para a Siri, a assistente ativada por voz (agora ela responde a perguntas sobre filmes recentes, esportes e restaurantes); e respostas prontas (e disponíveis a um toque na tela) para chamadas telefônicas (como "Estou dirigindo, ligo para você mais tarde").

Há também um novo modo panorama para a câmera, que se mostra útil com muito mais frequência do que você poderia esperar. Conforme você vira o telefone ao seu redor, ele funde diversas imagens numa única foto ultra-grande-angular de 28 megapixels. Diferentemente de outros aplicativos e aparelhos com modo panorama, este é totalmente automatizado e oferece uma pré-visualização da paisagem que se materializa enquanto você faz as fotos.

Você deveria comprar o novo iPhone, agora que os melhores aparelhos com Windows Phone e Android oferecem velocidade, beleza e recursos impressionantes?

O iPhone 5 não faz nada para alterar os prós e contras dessa discussão. Os aparelhos com Windows Phone oferecem um design incrível, mas ficam seriamente para trás em aplicativos e acessórios.

Os telefones Android sobram em opções: você pode ter uma tela enorme, por exemplo, uma entrada para cartão de memória ou chips NFC (comunicação de campo próximo, para trocar arquivos com outros telefones NFC ou comprar produtos em certas lojas com apenas um toque). No geral, porém, o Android tem mais bugs, é mais caótico e fragmentado – nem sempre se pode atualizar o software do aparelho quando surge uma nova versão.

Os iPhones não oferecem tanta escolha ou personalização. Mas eles são mais elegantes e consistentes no design, com um catálogo de aplicativos mais completo (embora fortemente regulamentado). Eles oferecem o controle por voz da Siri e a melhor loja de música/filmes/TV – e o tamanho e peso do aparelho foram reduzidos a quase nada.

Conclusão

Se você possui um iPhone 4S, comprar o iPhone 5 significaria quebrar seu contrato de dois anos com a operadora e pagar uma dolorosa multa; talvez não valha a pena pela coleção de pequenos ajustes da versão 5. Mas se você teve a disciplina de esperar durante algumas gerações de iPhone – uau, você se deu muito bem.

Mesmo assim, a mudança do conector é uma grande pena. A Apple não se preocupa em perder vendas e a lealdade do consumidor?

Na verdade, a Apple tem um longo histórico de matar tecnologias, de forma dispendiosa e inconveniente, que o público havia aprendido a amar – mesmo aquelas que a própria empresa havia originalmente desenvolvido e promovido. Mas a vida continua, e de alguma maneira a Apple fica ainda maior.

Assim, se você quisesse concluir sua monografia aferindo o impacto do novo conector sobre a popularidade do iPhone, o mais indicado seria escrever: "muito pequeno (suspiro)". Pensando bem, todos nós já fizemos essa aula antes.

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