Novo smartphone da empresa canadense traz recursos inovadores e tenta competir com plataformas da Apple e do Google

NYT

Por David Pogue

Sinto muito. Eu estava errado.

Este pedido de desculpas é para o estudante de óculos em minha palestra de Cleveland, e à moça de vestido vermelho na Flórida, e a qualquer outra pessoa que me perguntou recentemente sobre o futuro do BlackBerry. A todos eles eu disse a mesma coisa: que a marca estava condenada.

Essa não era uma opinião ultrajante. Antes dominante, o BlackBerry havia recuado a um percentual de um dígito no mercado de smartphones. As ações da empresa afundaram quase 90 por cento desde seu pico, em 2008. Nos últimos dois anos, a fabricante do BlackBerry, a Research in Motion, lançou um tablet desastroso, demitiu milhares de funcionários e perdeu seus CEOs. Toda a operação parecia estar à beira do colapso total.

A empresa – que em janeiro mudou seu nome para apenas BlackBerry – continuou afirmando ter na manga um BlackBerry milagroso, com um novo sistema operacional chamado BlackBerry 10. Mas ele foi adiado, adiado e adiado. Ninguém acreditava em mais nada dito pela empresa. Além disso, mesmo se houvesse um novo celular maravilhoso, que chance tinha a BlackBerry de alcançar o iPhone e os aparelhos Android? Mesmo a Microsoft, com seu elegante e rápido Windows Phone, não conseguiu essa façanha.

Bem, o BlackBerry Z10 finalmente chegou, e quer saber? Ele é adorável, rápido e eficiente, cheio de ideias inovadoras e úteis.

E o mais incrível – ele está completo. iPhone, Android e Windows Phone foram lançados faltando vários recursos importantes. Não neste caso; a BlackBerry não podia se arriscar a construir um bote salva-vidas com vazamentos. Assim, está tudo ali: uma loja de aplicativos cheia, uma loja de música e filmes, software Mac e Windows para carregar arquivos, reconhecimento de fala, navegação curva a curva, controle parental, copiar e colar, função Encontre Meu Telefone (com bloqueio por controle remoto) e assim por diante.

O hardware também está completo. A tela de 4,2 polegadas é ainda mais nítida do que o display Retina do iPhone. As duas câmeras, frontal e traseira, filmam em alta definição. O fino e elegante BlackBerry traz 16 GB de armazenamento, mais uma entrada para cartão de memória. Seu painel traseiro texturizado sai facilmente para trocar baterias.

Recursos

Algumas das ideias do BlackBerry 10 são verdadeiramente geniais. Uma luz sutil pisca acima da tela para indicar que algo – uma mensagem de texto, um e-mail, mensagem de voz, post no Facebook – está esperando por você. Sem pressionar qualquer botão físico, você desliza o dedo pela tela; a tela de bloqueio se ergue como uma cortina quando você passa o polegar, revelando o que há por baixo. É rápido e descolado.

Não há ícones individuais de aplicativos para mensagens ou e-mail. Em vez disso, todos os canais de comunicação (incluindo Facebook, Twitter e chamadas) são listados no Hub – uma lista mestra de entrada que aparece no canto esquerdo quando você desliza o dedo para dentro. Cada tópico revela quantas novas mensagens o esperam e oferece um atalho de um toque para o aplicativo correspondente. É uma central de comando completa que faz todo o sentido.

O maior argumento de venda da BlackBerry sempre foi seu teclado físico. A empresa diz que, de fato, vende um modelo com teclas reais (e tela menor), chamado Q10.

Mas pode ser que você não precise dele. No modelo todo sensível ao toque, a BlackBerry criou um sistema incrivelmente inteligente de digitação. Tente me acompanhar:

Teclado é ponto forte do BlackBerry Z10
Getty Images
Teclado é ponto forte do BlackBerry Z10

Conforme você digita a palavra, palavras completas minúsculas surgem sobre certas teclas na tela – palpites sobre a palavra que você busca. Se você digitou "made of sil", por exemplo, a palavra "silicone" surge sobre a tecla I, "silver" (prata) sobre a tecla V e "silk" (seda) sobre a tecla K. Você pode inserir uma dessas palavras no texto passando o dedo para cima a partir da tecla – ou ignorar as dicas e continuar digitando.

E isso funciona bem? Fiz um teste. Em duas frases curtas, eu digitei 20 caracteres; o sistema digitou 61 por mim.

Quanto mais você usa o BlackBerry, mais ele aprende sua maneira de escrever. Quando tentei as mesmas duas frases mais tarde, digitei apenas uma letra. A partir dali, o telefone previu cada palavra sucessiva naquelas sentenças, fazendo com que eu não precisasse digitar mais nada. Louco, brilhante e muito, muito rápido.

Há também o reconhecimento de fala. Mantenha apertada a tecla Play/Pause para abrir o assistente estilo Siri do Z10. Estilo Siri em conceito, melhor dizendo – você pode falar "enviar e-mail a Harvey Smith", "marcar compromisso" e algumas outras coisas –, mas ele é mais lento, menos preciso e de escopo muito mais estreito. Você também pode falar para digitar, mas a precisão é muito ruim.

O software da câmera é incrível. Um recurso em especial, o Time Shift, é alucinante. Você tira uma foto de pessoas – então, com o dedo sobre um rosto, você pode girar para frente ou para trás no tempo, buscando a expressão perfeita. Você repete os passos com o próximo rosto, e o próximo, até ter escolhido a fração de segundo perfeita, de forma independente, para cada pessoa na foto. Admita: isso é brilhante.

O BlackBerry 10 soluciona impecavelmente um enorme problema de tecnólogos em empresas: como manter os celulares corporativos dos funcionários seguros num mundo onde as pessoas também usam seus telefones para coisas pessoais. Se uma empresa possui o pacote de software corporativo da BlackBerry, podem ser criados mundos separados em cada aparelho: pessoal e trabalho, com calendários, agendas, papéis de parede e aplicativos distintos. Eles aparecem juntos – mas sem a senha do trabalho, apenas os recursos pessoais são visíveis.

Quando o funcionário deixa a empresa, um toque apaga toda a parte corporativa ou pessoal.

O popular serviço BlackBerry Messenger (BBM) agora permite que você faça ligações gratuitas e chamadas por vídeo pela internet. Você pode até mesmo usar o "screencast" – compartilhar o que está fazendo em sua tela com seu colega de conversa, como um mapa, aplicativo ou foto (é preciso ter o BlackBerry 10; modelos mais antigos da marca só podem usar o BBM para mensagens de texto).

Graças à NFC (comunicação de campo próximo), você pode enviar uma foto, mapa, página web, arquivo ou música a outro proprietário de um BlackBerry 10, via wireless, na hora. Outros telefones oferecem compartilhamento NFC, mas raramente com tanta simplicidade.

Há também alguns passos em falso. Não existe uma tecla física silenciadora (apenas uma função do software). No aplicativo de e-mail, você não pode passar de uma mensagem a outra sem voltar à caixa de entrada. A visualização do calendário não gira quando você vira o telefone, e não se pode arrastar compromissos para remarcá-los. Quando você usa o projeto de Siri para ditar uma mensagem ou e-mail, não é possível editá-los, mesmo manualmente. E a bateria mal aguenta um dia inteiro.

Aplicativos

Mas o clássico calcanhar de Aquiles de um novo tipo de smartphone são os aplicativos. Quem poderia se igualar aos 750 mil aplicativos disponíveis para iPhone ou Android? Lembrando: o BlackBerry Z10 não aceita aplicativos antigos da BlackBerry.

Incrivelmente, a BlackBerry diz que há 70 mil aplicativos disponíveis na loja Day One. Astutamente, a empresa escreveu um programa utilitário que consegue converter aplicativos Android, facilitando para programadores adaptarem seus produtos. A maioria dos aplicativos mais famosos já está lá (Skype, Yelp, Twitter, Spotify, Foursquare, Dropbox, Angry Birds e assim por diante), mas alguns importantes ainda não apareceram: Netflix, Draw Something, Pinterest, Hipstamatic, Instagram e a maioria dos aplicativos de bancos e companhias aéreas.

Esses aplicativos certamente se materializarão caso o BlackBerry 10 seja um sucesso. A dúvida é: isso vai acontecer?

O software é simples de dominar, elegantemente criado e notavelmente completo. Ele traz recursos que ninguém mais oferece, alguns adaptados para o mundo corporativo que sustentou a BlackBerry em seus dias de glória.

Lembre-se, também, de que 80 milhões de pessoas ainda usam BlackBerrys, e muitos nutrem um profundo amor pela marca.

Por outro lado: uau, esse cavalo realmente se atrasou para a corrida. As lojas de música, filmes e aplicativos da BlackBerry estão apenas começando. Ao escolher um BlackBerry no lugar do iPhone ou Android, você está abrindo mão de alguns ecossistemas bastante atraentes, como a maneira da Apple sincronizar calendário, mensagens e fotos em todos os seus dispositivos. Ou, no Android, as conveniências similares do Google Voice e Google Maps.

Atualmente, a excelência num smartphone não é mais o bastante. O celular da Microsoft é incrível, e quase ninguém o deseja.

Sendo assim, o encantador BlackBerry Z10 é suficiente para salvar a empresa?

Honestamente? Talvez sim, talvez não. Mas uma coisa é clara: a BlackBerry deixou de ser uma bagunça incompetente – e sua desgraça já não é garantida.

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