Aparelho tem hardware potente e belo design, mas Windows 8 para tablets ainda precisa ter mais aplicativos e passar por uma atualização para correção de falhas

NYT

Por David Pogue

O que você acharia de se mudar para uma mansão deslumbrante, numa encosta com vista para o mar – na Somália? Ou da possibilidade de ter uma Ferrari nova – que precisa ser reabastecida a cada cinco quilômetros? Você aceitaria um emprego que paga US$ 1 milhão por ano – aparando campos de futebol com um cortador de unhas?

Esse é o tipo de escolha que a Microsoft está pedindo que você faça com o controverso – e de design espetacular – tablet Surface.

Veja fotos do Surface

Agora, para o primeiro tablet que fabricou (na verdade, seu primeiro computador), a Microsoft poderia ter apenas criado mais uma cópia do iPad. Mas sua aposta foi muito maior. Ela quis construir um tablet tão bom para criar trabalhos quanto para organizá-los.

Na frente de hardware, a Microsoft foi brilhante. Leia as especificações e tente não babar sobre seu teclado.

O Surface divide algumas medidas com o iPad grande (0,7 quilo; 1 centímetro de espessura). Mas com 27,4 por 17 centímetros, ele é um retângulo mais largo e fino, mais adequado para reprodução de filmes. Ele traz alto-falantes estéreo em vez de mono. As duas câmeras (frontal e traseira) têm alta definição de 720p.

Ele possui portas e entradas com que os donos de iPads só podem sonhar: uma entrada de cartão de memória para expandir o armazenamento, uma saída de vídeo e uma entrada USB 2.0. Você pode conectar quase qualquer dispositivo USB: teclado, mouse, flash drive, caixas de som, disco rígido e assim por diante.

Todos os modelos do Surface possuem o dobro de armazenamento de um iPad de mesmo valor. Por exemplo, o Surface de US$ 500 oferece 32GB; o Surface de 64GB custa US$ 600 (nota da redação: não existe previsão de lançamento do Surface no Brasil) .

Há algumas decepções na folha de especificações. A vida da bateria promete de oito a 10 horas, menos do que o iPad. Não há versão com rede celular, apenas Wi-Fi. A tela é bem nítida (1.366 por 768 pixels), mas nem chega perto da clareza da tela Retina do iPad (2.048 por 1.536 pixels).

E você só pode recarregar o Surface com seu adaptador de parede – e não através de uma entrada USB no computador. A justificativa da Microsoft é que você não terá um computador onde o carregar, já que seus dias de carregar um tablet e um laptop acabaram. Além disso, uma tomada comum recarrega muito mais rápido do que uma porta USB.

A frente é inteira uma tela sensível ao toque. As bordas do corpo de magnésio preto são angulares e súbitas, como um acessório do Batman.

E então há o suporte de apoio. A metade inferior da traseira é um painel articulado, mantido magneticamente fechado até que você o abra com as unhas. Ele se abre a um ângulo de 22 graus, pronto para prender o deixar firmemente em pé.

Qualquer outro suporte acrescentaria peso, volume ou feiura. Mas este é fino como uma lâmina, e desaparece completamente quando você não o está usando.

Mas você o usa – especialmente quando abre o teclado opcional.

Capa que vira teclado é diferencial do Surface
Reuters
Capa que vira teclado é diferencial do Surface

Sim, teclado. Lembra da capa magnética articulada do iPad? A Touch Cover da Microsoft vem da mesma ideia – a mesma articulação magnética –, exceto pelo interior, onde há formatos de teclas e até mesmo um trackpad, formados por um material levemente felpudo.

Abra a capa, dobre o suporte e pronto: você tem um PC de meio quilo que pode ser montado em qualquer lugar.

Isso não é nada como aquelas capas de teclado Bluetooth para iPad. Primeiro, a Touch Cover é muito, muito mais fina, com 0,3 centímetro. Segundo, ela não é Bluetooth; não é preciso configurar e não afeta a bateria. O ímã se encaixa, e o teclado está pronto para o uso. Terceiro, quando você quer apenas um tablet, o teclado se dobra contra a parte traseira. O Surface desabilita automaticamente suas teclas e exibe o teclado na tela quando é preciso digitar.

Você pode comprar essa capa com o Surface, em diversas cores, por US$ 100 – ou posteriormente, por US$ 120.

É uma ideia incrivelmente descolada, mas as teclas não se movem. Você está tocando numa superfície plana. Se digita rápido demais, o teclado pula letras. "Se você digita 80 palavras por minuto num teclado real e de 20 a 30 na tela de vidro, provavelmente ficará em 50 na Touch Cover", afirmou um representante da Microsoft.

Felizmente, a Microsoft também oferece a Type Cover (US$ 130), com teclas reais. Com 0,6 centímetro de espessura, ela não é tão imperceptível quanto a Touch Cover, mas a empresa a descreve como o teclado de teclas móveis mais fino da terra – e funciona bem.

E esse é o incrível hardware. Agora a decepção: o software.

Esse computador usa o Windows RT, uma variação do Windows 8 – que a Microsoft espera colocar em todos os PCs daqui para frente. O RT é bem diferente do velho Windows. Você ficará radiante ou horrorizado, dependendo de sua abertura a mudanças.

Neste Windows, a tela inicial é uma colagem de blocos coloridos e interativos. Você toca em um para abrir um aplicativo, desliza o dedo para baixo em outro para "clicar com o botão direito", desliza o dedo por ele para revelar mais páginas. Cada bloco é também um pequeno painel, mostrando seu próximo compromisso, o último post no Facebook, o tempo de hoje e assim por diante. Ele é rápido, fluido e divertido de usar.

Passar o dedo nas bordas da tela traz painéis ocultos bastante úteis. Toque na tela no topo ou na parte inferior para revelar os menus de seus aplicativos; da esquerda para trocar aplicativos; da direita para controles importantes como Compartilhar e Configurações.

Infelizmente, o Windows RT não é o Windows completo. O Surface vem com versões 2013 prévias do Word, Excel e PowerPoint – funcionais, mas às vezes lentas.

Fora isso, porém, o Windows RT não roda nenhum dos 4 milhões de programas regulares do Windows. Ou dos 275 mil aplicativos para iPad. Ou dos 17 aplicativos para tablet do Android (isso é uma piada – na verdade, existem 19 aplicativos para tablets Android).

Em vez disso, ele requer novos aplicativos. Eles são disponibilizados exclusivamente na Windows App Store, online, e não há muitas opções de escolha; por exemplo, não há aplicativos para Facebook, Spotify, Angry Birds, Instagram, Draw Something ou New York Times. Até agora, o total nos Estados Unidos é de aproximadamente 3.500 aplicativos; muitos são fracos ou ruins.

Sob alguns aspectos, a possibilidade mais intrigante é o tablet Surface Pro, que segundo a Microsoft estará disponível em 90 dias. Ele traz um chip Intel de verdade, e pode rodar programas Windows reais. Isso mesmo: Photoshop, iTunes, Quicken e jogos clássicos para PC em seu tablet.

O Pro será mais pesado (0,9 quilos), mais grosso (1,3 centímetros) e muito mais caro (cerca de US$ 1.000). Com essas características, claro, você poderia comprar um laptop ultrafino – mas a capa de teclado e a tela sensível ao toque do Surface deixam-no muito mais flexível.

Os dois tablets Surface, além do próprio Windows 8, sofrem de uma dupla personalidade insanamente confusa. Por baixo do colorido mundo dos aplicativos RT, os ícones, a barra de tarefas e as janelas sobrepostas do Windows tradicional ainda estão lá. No Surface, a velha área de trabalho surge (desnecessariamente) sempre que você usa os programas do Office.

Windows RT tem falhas que incomodam o usuário
Divulgação
Windows RT tem falhas que incomodam o usuário

E isso não é tudo que está errado com o Windows RT. Não há reconhecimento de fala, muito menos uma Siri; não há pastas de aplicativos, ou mapas automatizados de orientação.

O Painel de Controle oferece recursos como digitar sugestões e autocorreção, mas não consegui fazê-los funcionar. Às vezes o teclado da tela não aparece quando deveria.

Pequenas inconsistências e confusões estão em toda parte. Como o Word me informando constantemente que "não há memória ou espaço em disco suficiente" (bem, Microsoft, e isso é culpa de quem?).

Mesmo assim, você teria de ter sangue muito frio para manter seus batimentos firmes na primeira vez em que vê o Surface: sua beleza, seu potencial, sua transformação instantânea de tablet em PC. Como é incrível que esse design ousado tenha vindo da Microsoft, empresa que durante anos produziu apenas débeis imitações das ideias de outras empresas.

E como é irônico que o ponto fraco do Surface seja a suposta especialidade da Microsoft: o software.

Com o tempo, talvez os aplicativos cheguem ao Windows RT. Talvez os problemas sejam resolvidos. Talvez as pessoas solucionem o quebra-cabeça sobreposto do Windows RT e do Windows 8. Até lá, o Surface é um dispositivo brilhantemente concebido cujo hardware é de tirar o fôlego – mas cujo software é de acabar com a paciência.

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