Aparelho da Microsoft roda programas convencionais do Windows

NYT

Por David Pogue

Por décadas, a Microsoft vem vivendo de dois produtos: Windows e Office. As apostas ocasionais da empresa na área de hardware (Zune, smartphone Kin, Spot Watch) nunca deram certo.

Mas o novo tablet Surface Pro, que começou a ser vendido nos EUA na semana passada, parece ter mais a seu favor do que qualquer outro hardware da Microsoft desde o Xbox.

Todo mundo sabe o que é um tablet, certo? É um retângulo preto com uma tela sensível ao toque, como um iPad ou um aparelho com Android. Ele não roda programas tradicionais do Windows ou do Mac, roda apenas aplicativos mais simples para tablets. Não é um computador de verdade.

Mas, com o Surface Pro (R$ 1.800 para o modelo de 64 GB, R$ 2.000 pelo de 128 GB) a Microsoft quebra essas regras.

Tablet e PC

O Surface Pro parece um tablet. Pode funcionar como um tablet. Dá para segurá-lo em uma mão e usar a outra para desenhar nele. O aparelho vem até com uma caneta digital que funciona muito bem.

Mas, por dentro, o Pro é um PC completo, com o mesmo processador Intel presente em notebooks de ponta. Como resultado, o Pro pode rodar qualquer um dos cerca de 4 milhões de programas existentes para Windows, como iTunes, Photoshop, Quicken e, claro, Word, Excel e PowerPoint.

O aparelho é muito bonito. Ele é todo preto e com ligeiras curvas nas pontas, lembrando até o design de um helicóptero Stealth. As conexões imediatamente mostram que ele é um aparelho pós-iPad. Entre elas está uma entrada para cartões de memória. A tela tem excelente brilho e resolução Full HD (1.080p). Mas, quando conectado a um monitor, o Pro pode enviar uma imagem ainda mais precisa, de 2.550 x 1.440 pixels.

Há também uma porta USB 3.0 no tablet e outra espertamente incluída no cabo de força. Ela pode ser usada, por exemplo, para carregar a bateria de um smartphone enquanto o Surface Pro é usado. Obviamente, a porta também pode ser usada para conectar qualquer periférico USB, como HDs externos, pen drives, teclados, mouses etc.

Já deu pra notar? O Surface é um PC, não um iPad.

Acessórios

Talvez para demonstrar mais claramente isso, a Microsoft incluiu dois recursos que completam a transformação de um tablet para um PC em segundos.

O primeiro é o apoio do tablet. Ele é uma fina chapa de metal que desaparece completamente quando fechada, mas, quando aberta, segura o tablet em um ângulo confortável para trabalhar ou ver um filme.

Type Cover é teclado com botões físicos e serve também como capa
Getty Images
Type Cover é teclado com botões físicos e serve também como capa

O segundo recurso, comprado separadamente, é a capa que vira teclado. Há dois modelos, o Touch Cover (R$ 200 quando comprado junto com o Pro) é ultrafino, mas não traz botões físicos.

Já o Type Cover (R$ 260) é mais espesso, mas tem botões “de verdade” e ainda um trackpad. É um teclado realmente bom.

Ambos os teclados são encaixados ao aparelho por meio de um conector magnético. Para usar o Pro como tablet, basta dobrar o teclado. Quando isso é feito o teclado é automaticamente desativado.

Para realmente usar o Pro como um PC, há ainda o mouse Wedge Touch. É um pequeno mouse em forma de cunha, com botões precisos e uma superfície sensível ao toque.

Vale a pena?

Quando escrevi um texto inicial em meu blog sobre o Surface Pro, fiquei surpreso com algumas reações de leitores. O argumento era o mesmo: “Por esse preço, dá para comprar um bom notebook leve e HD maior. Por que comprar um Surface Pro quando dá para ter mais por menos?”

Por que? Porque o Surface Pro faz algumas coisas que a maior parte dos laptops não faz. Ele pesa 0,9 quilo, funciona em modo retrato e é confortável para usar em uma só mão.

Outro comentário é “Mas já não existiam tablets com recursos de PC antes?”.

Sim, há alguns. Mas sem o apoio de mesa e o teclado, esses tablets não viram PCs em poucos segundos.

Uma coisa é verdade: por esse preço dá para comprar um laptop melhor do que o Surface Pro. Também dá para comprar um pacote turístico, uma bolsa de grife ou mil litros de leite. Mas são coisas diferentes.

Pontos fracos

Chegamos então à uma conclusão: o Surface Pro é rápido, versátil e impressionantemente compacto, isso não dá para questionar. Na prática, porém, há alguns problemas e confusões.

Confusão 1: O Surface Pro roda Windows 8, que combina dois sistemas em um só. Há um sistema para tablet, com uma tela inicial (Home) repleta de pequenos e coloridos quadrados (tiles) que representam aplicativos e informações em tempo real (já que a Microsoft não dá um nome a esse design, vamos chamá-lo de TileWorld).

O TileWorld foi combinado com uma versão tradicional do Windows. Assim, você tem dois navegadores, dois painéis de controle, dois programas de e-mail, dois visuais completamente diferentes.

Essa dualidade estranha não faz o menor sentido em computadores de mesa (desktops), mas é menos inadequada no Surface Pro. Esse aparelho tem dois usos (tablet e notebook), e cada um dos sistemas cabe melhor em um tipo de uso. Ainda assim, há muito o que aprender para começar a usar o aparelho.

Confusão 2: Há dois tablets Surface. Um foi lançado há alguns meses e é chamado simplesmente de Surface (sem o Pro). Ele custa R$ 1.000, pesa 600 gramas e tem 1 centímetro de espessura. Ele só roda aplicativos do TileWorld ( normalmente programas muito simples que rodam em tela cheia), mas não roda software convencional do Windows. Isso diminui o apelo do Surface. Se você vai comprar um tablet que não roda programas convencionais, por que não escolher um iPad e seus mais de 300 mil aplicativos próprios?

O Surface Pro é mais espesso e pesado (1,3 centímetros e 900 gramas). Mas, felizmente, roda tanto aplicativos do TileWorld quanto programas convencionais do Wnindows. Assim, ele é um aparelho bem mais versátil.

Infelizmente, essas confusões não são o único problema do Surface Pro. Os alto-falantes são apenas medianos. A tela e teclados são ligeiramente menores do que a de laptops com preço equivalmente. O cabo de força é meio chato de encaixar.

Também vale ressaltar que, no modelo de 64 GB, apenas 23 GB estão livres. 65% da memória é ocupada pelo Windows e aplicativos auxiliares (no modelo de 128 GB, apenas 83 GB são livres). Muito ruim.

Mas o pior de tudo é a bateria. A Microsoft diz que o Pro tem cerca da metade da duração de bateria do Surface, o que daria cerca de 4 horas e meia. Depois de meus testes, concluí que só com muita sorte pra chegar a 4 horas e meia. Eu mal cheguei a 3 horas e meia.

Acho que é por isso que não há muitos tablets de 900 gramas com chips Intel por aí.

Conclusão

No fim das contas, o Surface Pro não é pra todo mundo e não cumpre tudo o que promete.

Ainda assim, há muito para elogiar no produto da Microsoft. O Surface Pro é uma ideia interessante, quase uma nova categoria, e será a máquina ideal para muitas pessoas. Ele alcança um equilíbrio interessante nos quesitos tamanho, peso, velocidade e software. Dá para usá-lo em um restaurante sem parecer ridículo. Dá para segurá-lo em uma mão e ler um livro numa fila.

E, acima de tudo, vai bem em aviões. Parece que nasceu para aquelas mesinhas minúsculas da classe econômica.

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