Playbook chega aos Estados Unidos em 19 de abril, mas ainda é um aparelho incompleto

Playbook, tablet da RIM
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Playbook, tablet da RIM
Por David Pogue

Veja bem, vou ser sincero. Sei que os tablets estão na moda, que 2011 é o ano dos clones do iPad e que todas as empresas do ramo estão de olho nesse mercado. Mas, desculpem, não vou analisar todos os 85 tablets que chegarão ao mercado este ano. Estamos apenas em abril e já estou com Ressaca de Tablets. Não vou analisar o tablet da Electrolux, o tablet da Polaroid, o tablet da Kelllog´s.

Mas o tablet da RIM, fabricante do BlackBerry, parece merecer alguma atenção. O mundo da tecnologia parece estar realmente empolgado com ele. Ele se chama Plabook e estará disponível nos Estados Unidos a partir do dia 19/04, com preços de US$ 500 (modelo de 16 GB), US$ 600 (32 GB) e US$ 700 (64 GB) (nota do editor: não há previsão de lançamento do Playbook no Brasil).

O iPad, é claro, tem 10 polegadas. Mas tablets com 7 polegadas também têm suas qualidades. Em tese, daria até para guardar o Playbook no bolso de um paletó. Mas, por incrível que pareça, o aparelho é meia polegada mais largo do que um bolso padrão. Quem definiu este tamanho deveria ser barrado da festa de lançamento.
Ainda assim, o Playbook é visualmente bonito e agradável de usar. O aparelho tem a parte traseira emborrachada, tela multitoque eficiente e peso adequado (408 gramas).

Software

O software é baseado no sistema operacional QNX, comprado pela RIM em parte devido à sua estabilidade em uso industrial (“Roda em usinas nucleares”, diz um gerente de produto da RIM sem perceber a ironia, levando em conta fatos recentes).

Além da QNX, a Palm e Apple estiveram envolvidas no projeto, mas sem saber. O software do Playbook é cheio de ideias “emprestadas” dos concorrentes. Por exemplo, para apagar ou organizar aplicativos, o usuário segura o dedo sobre a tela até que os ícones comecem a tremer (alô, iPad!). E para fechar um programa o usuário move o dedo a partir da parte inferior da tela em direção ao centro (alô, Palm Pre!).

Não há nenhum botão na parte frontal do aparelho. No topo estão os botões liga/desliga, tocar/pausar e teclas de volume. Para navegar entre os aplicativos o usuário desliza o dedo sobre as largas bordas negras do aparelho, que ocupam boa parte da tela.

Um gesto para cima mostra os ícones de aplicativos. Movimentos para esquerda e direita permitem alternar entre os programas abertos. Um gesto para baixo revela a barra de ferramentas do aplicativo aberto no momento.

Infelizmente, não dá pra saber se um determinado aplicativo tem barra de ferramentas. Por isso algumas vezes me senti meio bobo ao fazer o gesto para baixo à toa. De forma similar, se a tela inicial está cheia de ícones, é possível ver outros movendo o dedo para cima. Mas não dá pra saber se há mais aplicativos, já que não há uma barra de rolagem para indicar a quantidade de programas existentes no aparelho.

Porta HDMI facilita apresentações

Mas o Playbook tem três recursos que seus concorrentes nem sonham em possuir no momento. O primeiro: com um cabo HDMI (comprado separadamente), é possível conectar o aparelho a uma TV ou projetor, algo muito bom para apresentações em PowerPoint (aparentemente eles ainda fazem isso em empresas).

O iPad faz isso, mas a imagem na tela da TV é a mesma da tela do aparelho. Já o Playbook pode mostrar duas imagens diferentes. Na TV a platéia vê os slides, no Playbook o usuário vê a tradicional “cola” dos slides e as miniaturas de cada elemento da apresentação.

O segundo recurso bacana é relativo ao consumo de fotos, vídeo e música. Infelizmente não há um software para fazer isso automaticamente. É necessário arrastar os arquivos manualmente até as pastas do Playbook para cada tipo de mídia. Mas, depois de fazer isso uma vez usando um cabo USB, é possível fazer essa transferência por meio de uma conexão Wi-Fi, sem o uso de cabos. O Playbook aceita transferências sem fio até mesmo em estado de descanso.

Finalmente, há um recurso interessante chamado BlackBerry Bridge, que funciona por meio de uma conexão Bluetooth. Com o recurso ativado, o Playbook vira uma “janela gigante” para o conteúdo de um smartphone BlackBerry. Qualquer conteúdo relativo a e-mail, calendário, agenda e mensagem instantânea aparece maior na tela do Playbook. E a conexão é criptografada.

Outra vantagem de sincronizar o Playbook com um smartphone BlackBerry é a conexão à internet. O Playbook pode acessar a web por meio da conexão 3G do BlackBerry. Não é necessário pagar um valor extra para esse tipo de recurso, como ocorre com o iPhone e aparelhos Android nos Estados Unidos.

O BlackBerry Bridge é um recurso criado para usuários corporativos. Como a conexão entre os aparelhos é criptografada, os administradores de rede de empresas não precisam se preocupar com brechas de segurança no tablet. Todo o investimento em segurança de dados em aparelhos BlackBerry vale também para o Playbook.

Playbook, tablet da RIM, fabricante do BlackBerry
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Playbook, tablet da RIM, fabricante do BlackBerry
Playbook fica devendo em e-mail

Mas, está sentado? No momento, o Bridge é a única maneira de acessar aplicativos de e-mail, calendário, agenda e o BlackBerry Messenger no Playbook. O tablet não tem aplicativos próprios para essas funções. Sim, você leu corretamente. A RIM acaba de lançar um produto da linha BlackBerry sem aplicativo de e-mail (a RIM afirma que esses aplicativos chegarão no segundo semestre).

Para compensar, o aparelho traz uma versão do aplicativo Documents do Go. Ele permite editar arquivos do Word, Excel e PowerPoint. E o tablet traz ainda um browser legal e com suporte a Flash, algo que o iPad não tem. As câmeras do Playbook (3 e 5 megapixels) gravam vídeos com boa qualidade.

Infelizmente, não há aplicativo para videoconferência, uma desvantagem em relação a iPad e Android. Além disso, o tablet traz GPS, mas não tem recurso de navegação curva a curva. Por isso, na área de mapas as funções ficam limitadas a consultar endereços no Bing Maps.

Falta de aplicativos é problema grave

E isso é só o começo. Por enquanto, o slogan do Playbook pode ser “There´s no app for that” (não há aplicativos para isso). Nenhum aplicativo já existente roda no novo sistema do Playbook. Nem os programas feitos para smartphones BlackBerry (a RIM afirma que um emulador de aplicativos BlackBerry chegará até o fim do ano).

Por isso, a RIM resolveu começar do zero com uma loja de aplicativos exclusiva para o Playbook. A empresa diz que já tem três mil aplicativos cadastrados, em parte porque deu um Playbook para qualquer desenvolvedor que quisesse criar um programa. Mas esses aplicativos só serão revelados na próxima semana (jornalistas com acesso ao aparelho só tiveram acesso a uma versão enxuta da loja, com algumas dezenas de aplicativos bem fracos).

Também vale mencionar que esse Playbook funciona apenas com redes Wi-Fi. Não há uma opção para usar redes 3G, como em aparelhos da Apple, Motorola e Samsung. A RIM diz que versões 4G do aparelho chegarão até o fim de 2011. (Nota do editor: no Brasil ainda não há redes do padrão 4G).

Aparelho terá que melhorar muito

Resumindo, o Playbook é rápido, fácil de usar e tem bom design. Mas na atual versão, é tão incompleto que é quase impossível de analisar, quanto mais comprar. Vale lembrar que o principal competidor do Playbook é o iPad 2, mesmo preço, mais fino, tela maior e mais de 300 mil aplicativos.

Considerando esse fator, faz sentido comprar um aparelho incompleto, sem e-mail ou calendário, sem conexão 3G, sem Skype, sem aplicativo de GPS, sem videoconferência e sem Angry Birds?

Também vale esclarecer que até o momento, poucos dias antes do lançamento oficial em 19 de abril, o sistema operacional está cheio de falhas e sendo atualizado diariamente. E o vital recurso BlackBerry Bridge ainda está em fase de testes. Ele ainda não tem recursos importantes, como exibir anexos em e-mails ou clicar em links incluídos em mensagens.

Se tudo isso for consertado, e se os aplicativos chegarem, e se o Playbook sobreviver à avalanche de tablets que devem chegar esse ano, talvez ele consiga ficar entre os vencedores desse mercado. Por enquanto, porém, há muitos recursos que estão apenas no caderno de idéias da RIM, mas não no aparelho.

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