Aparelhos eletrônicos substituíram coleções de CDs e livros

Por Bruce Feller

Recentemente, participei de uma festinha caótica com crianças, na casa de um amigo. A caminho do banheiro, em busca de algum conforto, decidi me render a uma das minhas atividades antissociais preferidas: analisar a prateleira de livros de alguém. Para um investigador veterano, uma prateleira de livros oferece muitas ideias dignas de um divã freudiano. A pessoa organiza os livros por ordem alfabética ou simplesmente os acumula? Ela arruma os livros por gênero, ordem em que foram comprados, ou cor? Esses livros são novinhos, de capa dura, ou de papel simples, desgastados?

Kindle, da Amazon: livros digitais são cada vez mais populares
Reuters
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Já estava investigando havia alguns minutos (memórias de Bill Clinton, 'O Código Da Vinci’), quando percebi: meu amigo não comprava um livro de verdade, daqueles feitos a partir de árvores mortas, há anos. Ele havia adotado de vez os e-readers. Desesperado, fui consultar sua coleção de discos. Ali, o problema era ainda maior (Simon & Garfunkel, Hootie & the Blowfish). Meu amigo não comprava um CD físico desde a faculdade!

Meu coração gelou. De repente, senti-me preso com uma habilidade obsoleta, como ser um virtuoso iluminador de manuscrito na era de Gutenberg. Ou pior, estava enfrentando uma situação alarmante. Como posso bisbilhotar a casa dos meus amigos quando suas prateleiras de livros congelaram em 2007? Como posso bisbilhotar na era do livro eletrônico?

A bisbilhotice é mais do que apenas um passatempo, como rapidamente descobri: é um campo acadêmico em crescimento. Seu grande exponente é Sam Gosling, professor de psicologia da Universidade do Texas, em Austin, e autor de 'Snoop: What Your Stuff Says About You’ ('Bisbilhotice: o que suas coisas dizem de você’, em tradução livre). Gosling explicou que, longe de ser algo frívolo (ou intrusivo), um pouco de bisbilhotice no armário de alguém pode revelar muito mais sobre a pessoa do que uma noite inteira de conversa.

''Os lugares refletem uma longa série de comportamentos’', disse Gosling, durante uma recente visita à minha casa. ''Se eu conversar com você, só obtenho fragmentos do seu comportamento. Seus livros, cadeiras, o que você pendura na parede, tudo isso representa um acúmulo de muitos anos. Um espaço destila atos repetidos. Por isso é difícil fingir’'. Segundo ele, dos cinco grandes traços de personalidade, três – abertura, escrúpulos e extroversão – são claramente revelados nos espaços das pessoas.

Os outros dois traços são mais internos. Apenas olhando a prateleira de livros, por exemplo, ele rapidamente formou uma série de impressões sobre mim e minha esposa. O fato de que nossos livros nessa estante cobrem temas diversos sugerem abertura. O fato de que todos eles são escritos por amigos sugere extroversão. O fato de que eles estão em ordem alfabética geral (mas não especifica) sugere que nos desejamos ter consciência, mas muitas vezes não atingimos nossos objetivos.

Essa avalanche de indícios é o torna a investigação de prateleiras tão atraente – e tão difícil de reproduzir em outras partes da casa. ''A cozinha e a despensa são ótimas’', disse Anne Fadiman, uma descarada bisbilhoteira de prateleiras e autora de 'Ex Libris: Confessions of a Common Reader’ ('Ex Libris: confissões de uma leitora comum’).

''Aprendo coisas sobre a pessoa e são coisas que me interessam’'. Essa pessoa é organizada ou bagunceira? Ela é mais interessada em mostrar – panelas caras e intocadas penduradas no teto – ou todas as panelas possuem riscos e queimaduras no fundo? Os temperos são organizados por ordem alfabética? Ela tem muita comida congelada? ''Mas não são tão interessantes quanto a prateleira de livros’', ela continuou, ''porque a cozinha e a despensa são reflexos do que a pessoa come, enquanto a estante reflete como a pessoa pensa’'.

Outros não veem problemas em bisbilhotar além dos livros. ''Gosto de arte’', disse Eric Abrahamson, professor da Graduate School of Business da Universidade Columbia e autor de 'A Perfect Mess’ ('Uma bagunça perfeita’), livro sobre os benefícios da desordem. ''Gravito muito rapidamente para a obra de arte pendurada na parede. A pessoa tem uma obra que revira o estômago ou uma peça de um artista não tão conhecido que é absolutamente linda?''

As pessoas tendem a formar impressões imediatamente, disse Abrahamson. ''Você entra pela porta e vê uma toalha sobre a mesa de jantar. Pronto, essa pessoa é uma bagunceira’', ele disse. ''Você chega e vê palitos de dente. Pronto, essa pessoa é organizada’'. Nos então buscamos evidências que confirmem nossas impressões iniciais. Em outras palavras, espiar na geladeira pode não ser necessário; você já sabe o que vai achar antes de chegar lá.

Assim, Gosling recomenda bisbilhotar em três lugares da casa se a estante de livros não for muito reveladora. Primeiro, qualquer espaço onde a pessoa se recolha para ficar sozinha. ''Pode ser um galpão, um escritório doméstico ou o canto de costura’', ele disse. Segundo, os quartos. Ele recomendou prestar especial atenção à cabeceira da cama, travesseiros e o que as pessoas mantêm do lado.

Finalmente, fotos. Gosling ficou surpreso, por exemplo, com o fato de que eu e minha esposa não temos foto nenhuma em nossa sala, sugerindo que usamos o espaço para espairecer ou descansar das pessoas. Por outro lado, no meu escritório tenho diversas fotos dos meus filhos, minha família, meus amigos ao redor do mundo. Sozinho em meu escritório, concluí, eu busco contato com os outros, no que ele chamou de ''lanchinho social’'.

Apesar de todos os benefícios da bisbilhotice, a atividade apresenta, sim, alguns dilemas éticos. Tudo bem olhar o armário de alguém? A prateleira de remédios? O iPad? Fadiman rejeita veementemente invadir espaços privados. ''Não tenho muito interesse em bisbilhotar lugares que meu anfitrião não quer que eu bisbilhote’', ele disse. Isso inclui smartphones, computadores e tablets, ela disse. E se, por acaso, ele tivesse de usar o banheiro de um amigo e acidentalmente se deparasse com um estoque enorme de Prozac ou Viagra?

''Seria uma experiência desagradável’', ela disse. ''Iria me sentir imensamente culpada’'. Mas essas descobertas não intencionais ocorrem, é claro. Há alguns anos, enquanto dormia na casa de um amigo, abri uma gaveta ao lado da cama onde eu estava dormindo e descobri um par de algemas. O que eu deveria fazer com essa informação?

''Essas descobertas deflagram sentimentos fortes e confusos’', disse Abrahamson. ''A pessoa guarda as unhas do pé? Possuem uma faca com sangue?'' E é impossível esquecer, ele acrescentou. ''Toda vez que você encontra a pessoa e ela diz 'Bom te ver. Como estão as crianças?', você pensa: 'Elas estão bem, Sr. Algema’''

Em parte por causa de desafios como esses, Gosling estabelece uma linha rígida em qualquer lugar que deve ser privado. Ele diz que quando você quebra certas barreiras, isso pode na verdade prejudicar o relacionamento.

Você pensa na pessoa com mais precisão, mas no processo perde a confiança. Segundo conta, o real propósito de bisbilhotar a casa de alguém é se aproximar da pessoa. ''Quando entrei pela primeira vez na sua casa’', afirmou, ''notei que você tinha um quimono japonês na parede. Embora eu não soubesse o que ele significava para você, isso me direcionou a uma conversa mais informativa. Foi quando fiquei sabendo que você morou no Japão’'.

Aparelhos eletrônicos protegem informações pessoais

A bisbilhotice, em outras palavras, em vez de ser uma atividade antissocial, na verdade é pró-social. Nossos espaços dizem às outras pessoas como somos, mesmo quando não somos assim. Hoje em dia, precisamos desses empurrões para a comunicação, porque, como mostra o falecimento da estante de livros, nossos verdadeiros 'eu’ estão cada vez mais se afastando da exibição pública e desaparecendo em nossos dispositivos. Estamos nos tornando, como lamentou Fadiman, mais invisíveis. ''Nossa obsessão com privacidade de alguma forma se reflete no fato de que nosso gosto agora está trancado dentro de todas essas pequenas caixinhas, longe da vista’'.

Mas talvez, como ela sugeriu, isso não seja de todo ruim. ''Talvez o fato de que meu anfitrião não tem uma estante de livros ativa me mande de volta para as pessoas. Eu teria de voltar para a festinha e perguntar ao meu amigo: 'O que você gosta de ler?'''

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