Produtos da empresa chegam mais rápido, mas alguns serviços importantes ainda não funcionam no País

Na primeira vez que Tim Cook subiu ao palco como CEO da Apple, em outubro deste ano, o primeiro assunto abordado não foi o iPhone 4S , versão mais recente do smartphone da marca, mas a inauguração da maior loja da Apple em Shanghai, na China. Trata-se da quinta loja da Apple naquele país. Em 2010, a empresa obteve faturamento de R$ 5,3 bilhões (US$ 3 bilhões) na China.

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O investimento da Apple na China mostram que a empresa está de olho nos países emergentes. “Focar nestes países é uma tendência natural, já que as economias emergentes representarão 40% do investimento global em tecnologia em 2015”, diz Luciano Crippa, gerente de pesquisas da consultoria IDC.

Na apresentação do iPhone 4S, primeiro tópico abordado por Tim Cook foi inauguração da maior loja da Apple na China
Getty Images
Na apresentação do iPhone 4S, primeiro tópico abordado por Tim Cook foi inauguração da maior loja da Apple na China
No Brasil, os resultados da Apple não chegam perto dos alcançados na China, mas crescem a passos largos. De acordo com o balanço anual da empresa, referente ao ano fiscal de 2011 concluído em setembro, as vendas de produtos da Apple cresceram 118% no Brasil em apenas um ano, o que resultou em faturamento de R$ 1,57 bilhão (US$ 900 milhões). “Há três anos Steve Jobs nem cogitava investimentos no Brasil, mas essa estratégia se provou errada”, diz Crippa.

Apesar dos bons resultados e da clara influência no mercado brasileiro de smartphones e tablets, em que a empresa se consolidou como uma das cinco maiores fabricantes, a presença da Apple no Brasil ainda é tímida. Grandes metrópoles, como São Paulo, ainda não têm uma Apple Store sequer (a empresa atua no País por meio de revendas autorizadas e loja virtual própria) e alguns serviços da empresa, como a loja de músicas e filmes iTunes Store, ainda não chegaram ao País – mesmo depois de oito anos de operação nos Estados Unidos.

Impasses com o governo brasileiro também atrasam a chegada da loja de aplicativos de games por meio da versão brasileira da App Store. Na América Latina, a iTunes Store (música e vídeo) funciona só no México. Já a App Store está presente em todos os países, sem a restrição de games que vigora no Brasil.

Apple escolhe ser “premium”

Desde sua fundação, a Apple foi marcada pelo desejo de seu fundador Steve Jobs de criar produtos que todos pudessem usar. A atenção obsessiva com design e recursos inovadores acabaram por elevar o preço da maioria dos produtos. Embora eles cheguem às lojas dos Estados Unidos por um preço acessível, os custos de importação e a alta carga tributária no Brasil acabam por elevar o preço dos produtos mais populares da marca em mais de 50%. No caso do iPhone, os impostos respondem por 46,76% do preço. iPad e iPod também são os mais afetados (54,67% e 63,19%, respectivamente).

Carga tributária do iPad chega a quase 55% do preço do produto
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Carga tributária do iPad chega a quase 55% do preço do produto
“A carga tributária é bastante alta para produtos de luxo no Brasil e inclui impostos estaduais e federais, como PIS, Cofins, ICMS e IPI”, diz João Eloi Olenike, presidente executivo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), que calculou a carga tributária dos produtos da Apple a pedido do iG .

Por conta disso, quando chegam nas 47 revendas autorizadas do Brasil, os produtos da Apple continuam restritos às classes A e B. Mesmo assim, a empresa detém 20% do mercado de smartphones do País e domina o mercado de tablets . Recentemente, a Apple passou a exibir em sua loja virtual o valor dos impostos cobrados em cada produtos.

Contudo, a popularidade dos produtos da Apple está ameaçada pelos dispositivos com sistema Android , do Google, que ganham popularidade em aparelhos de marcas como Samsung e LG. Com aparelhos que chegam quase que simultaneamente ao Brasil e preços que variam entre R$ 350 e R$ 2 mil (desbloqueados), essas empresas alcançaram um público que o iPhone ainda não consegue atingir. No Brasil, a participação de mercado dos aparelhos com Android, segundo a IDC, aumentou de 23% para 44% em apenas seis meses.

A falta de esforço em atender uma classe maior de consumidores, principalmente nos países emergentes, foi um dos motivos que rebaixaram a Apple para o segundo lugar entre os maiores fabricantes de smartphones do mundo. Em outubro, ela foi superada pela Samsung , empresa que vendeu 200% mais smartphones no último ano de acordo com a IDC, graças a sua linha Galaxy que usa o Android. “Qualquer outra fabricante tem aparelhos para atender o usuário de entrada, mas a Apple não tem”, diz Crippa, da IDC.

Mudança de hábito

Junto com a chegada do iPhone 4S, Cook também apresentou uma nova versão do iPhone 4 , com 8 GB de memória e preço de R$ 960 (US$ 549). Antes, o iPhone 4 era vendido apenas em versões com 16 GB ou 32 GB, mais caras. Como as outras especificações continuaram iguais, porém, o novo iPhone 4 não concretizou as previsões dos analistas sobre uma possível versão com foco nos países emergentes . “O ideal seria lançar uma versão mais simples do aparelho, porque vender o mesmo iPhone com preço mais baixo pode acabar reduzindo o status do produto”, diz Crippa, da IDC.

iPhone 4S chegou às lojas acompanhada de versão mais barata do iPhone 4
Reuters
iPhone 4S chegou às lojas acompanhada de versão mais barata do iPhone 4
Mesmo assim, o ato de reduzir o preço da versão imediatamente anterior do iPhone, em vez de descontinuá-la, já representa uma mudança de comportamento da Apple. No entanto, a versão mais barata do produto só chega aos países emergentes junto com o iPhone 4S. Os aparelhos chegarão a um total de 70 países até o fim do ano .

Ainda não há uma data específica para o Brasil, mas o aparelho foi homologado pela Anatel há poucos dias, o que sugere que o lançamento está próximo. “Uma falha que a Apple ainda comete é não incluir países como o Brasil fora da primeira lista de países que recebem os produtos”, diz Crippa, do IDC.

A chegada dos produtos da empresa ao Brasil, no entanto, tem sido mais rápida. As versões mais recentes do iPhone, por exemplo, chegaram com cerca de três meses de atraso, enquanto o primeiro iPhone demorou cerca de um ano para chegar por aqui.

O iPad, que em sua primeira versão demorou 11 meses para chegar ao Brasil, também chegou bem mais rápido em sua segunda versão, apenas dois meses após ser visto pela primeira vez nas mãos de Steve Jobs. No caso do iPhone 4S, homologado pela Anatel em 31 de outubro , o processo de homologação terminou em apenas 27 dias após a data de lançamento. Se o produto chegar ainda em novembro ao Brasil, pode se tornar o primeiro aparelho da Apple a ser lançado no mercado local em menos de dois meses.

O intervalo entre as datas de lançamento aqui e no exterior acontece por conta da negociação com operadoras e da certificação do aparelho, que inclui testes de segurança elétrica (verifica se o produto aquece ou dá choque), compatibilidade eletromagnética (interferência em outros eletrônicos), entre outros. Segundo Alexandre Sabatini, diretor comercial do Instituto Brasileiro de Certificação (Ibrace), entidade contratada pela Apple para certificar seus produtos, a certificação é obrigatória para que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) homologue o aparelho. “Este processo todo geralmente demora entre 50 e 60 dias”, diz Sabatini.

Fabricação local do iPad só reduz preço em 15%

Além da redução de preços de versões anteriores, os brasileiros esperam que a fabricação local dos produtos da Apple, na fábrica ainda não inaugurada da Foxconn em Jundiaí (SP), também ajude a tornar os preços dos novos produtos mais acessíveis. No caso do iPad, por exemplo, a Foxconn tenta enquadrar o produto na chamada “Lei do Bem”, que reduz a alíquota do imposto sobre produtos industrializados (IPI) de 15% para 3% e do PIS/Cofins para 0.

Com o incentivo, o governo brasileiro espera que o iPad chegue às lojas até 40% mais barato, previsão anunciada por Aloísio Mercadante, ministro de Ciência e Tecnologia. Se a previsão se concretizar, seria possível encontrar a versão mais básica do iPad 2, que hoje custa R$ 1.650, por menos de R$ 1 mil.

Para Crippa, da IDC, a previsão do governo é “impensável”. Segundo estimativas da consultoria, a fabricação local deve reduzir o preço do tablet em, no máximo, 15% para o consumidor final. “Os custos de importação deixam de existir e há os incentivos fiscais, mas surgem os custos altos com maquinário, transporte e pessoal.” Neste caso, a versão Wi-Fi e com 16 GB do iPad custaria, no mínimo, R$ 1.400.

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