Apesar de desafios, desenvolvedores brasileiros criam aplicativos para consultar hospitais mais próximos, rotas para andar de bicicleta e até para fiscalizar obras do PAC

No início deste ano, Antônio Souza, desenvolvedor de aplicativos, soube que bancos de dados públicos da prefeitura do Rio de Janeiro estavam disponíveis na internet. A prefeitura precisava colocar seus bancos de dados na web por conta da Lei da Transparência (nº 131/2009) e da Lei de Acesso à Informação (nº 12.527/2011) e decidiu incentivar a criação de aplicativos móveis por meio de um concurso com prêmios em dinheiro, o Rio Apps.

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Souza encontrou uma infraestrutura de software rara em órgãos públicos: a equipe de tecnologia da prefeitura ajustou os bancos de dados para uma linguagem mais moderna e os colocou em um repositório, chamado Rio Datamine. Além disso, ela desenvolveu uma interface de programação de aplicativos (API) para conectar facilmente aplicativos às bases de dados. Apesar da pouca experiência com aplicativos móveis – ele só havia criado um aplicativo para iPhone até então -, Souza topou o desafio.

Aplicativo Rio Saúde permite acessar informações sobre hospitais e postos de saúde mais próximos
Reprodução
Aplicativo Rio Saúde permite acessar informações sobre hospitais e postos de saúde mais próximos

No Rio Datamine, a prefeitura oferece informações sobre o trânsito, rotas de ônibus, endereços de hoteis e até pontos turísticos. Souza queria criar um aplicativo que permitisse que as pessoas localizassem, por meio do celular, postos de saúde e hospitais da cidade e pudesse vê-los em um mapa, além do telefone, especialidades atendidas e equipamentos disponíveis para exames e cirurgias.

O problema é que nem todos os dados que ele precisava estavam disponíveis. “Havia poucas informações da área da saúde e muitas delas estavam desatualizadas”, diz o desenvolvedor. Para tentar salvar projeto, Souza vasculhou os dados disponíveis no site do DataSUS, o departamento de informática do Sistema Único de Saúde. Ele escreveu o código do aplicativo de modo a usar a busca do DataSUS para localizar o cadastro de unidades de saúde do Rio.

O aplicativo Rio Saúde chegou à loja de aplicativos da Apple no início deste ano. Gratuito, ele localiza unidades de saúde, mostra as especialidades médicas atendidas e até os equipamentos presentes no local. Um mapa mostra também a localização dos postos de saúde mais próximos. Com o prêmio pelo terceiro lugar no Rio Apps, Souza quer comprar um smartphone com sistema Android, plataforma que será base para a próxima versão do aplicativo.

Serviço à sociedade

Assim como Souza, outros desenvolvedores do País também começam a se interessar em criar aplicativos para facilitar o acesso às informações de interesse público por meio do smartphone ou tablet. “Sempre quis ajudar a sociedade de alguma maneira e vi uma oportunidade quando soube que o governo federal liberou informações sobre as obras do PAC”, diz Caio Moreno de Souza, CEO da empresa de desenvolvimento de software IT4Biz. PAC é a sigla para o Programa de Aceleração do Crescimento, um projeto que inclui grandes obras de infraestrutura pelo País financiadas pelo governo federal.

Aplicativo Rio de Bicicleta mostra oficinas para reparo, chuveirões e rotas para esporte
Reprodução
Aplicativo Rio de Bicicleta mostra oficinas para reparo, chuveirões e rotas para esporte

A equipe de Caio criou o aplicativo “Obras do PAC”, que deve chegar à App Store (iPhone) e ao Google Play (Android), nas próximas semanas. Ele permite que os usuários acompanhem o estágio das obras e acessem dados sobre a localização, empresa contratada para executar a obra e localização geográfica. “Mesmo sem conhecimento técnico, as pessoas podem criar relatórios usando nossa ferramenta”, diz o desenvolvedor.

Nem sempre todas as informações do governo estão disponíveis, mas alguns desenvolvedores buscam outras alternativas para complementar seus aplicativos.

No concurso Rio Apps, um programa se propôs a informar aos moradores e turistas as rotas para andar de bicicleta, locais dos chuveiros públicos e até bicicletarias espalhadas pela cidade. “O aplicativo Rio de Bicicleta mostra informações colaborativas enviadas por pessoas da cidade”, diz José Lobo, presidente da ONG Transporte Ativo, um dos criadores do aplicativo.

Como a prefeitura do Rio tem poucos dados relativos ao uso da bicicleta como transporte na cidade, Lobo e os técnicos da prefeitura conversam sobre como incluir os dados obtidos pela ONG no banco de dados da prefeitura, de modo que eles fiquem disponíveis para outros desenvolvedores. “No final de 2012 devemos entregar um pacote mais completo de dados para a prefeitura”, diz Lobo.

Concursos fazem sucesso

Além do Rio de Bicicleta e do Rio Saúde, a prefeitura do Rio analisou outros 50 aplicativos durante a edição 2012 do Rio Apps. Todos eles usavam alguma informação pública do banco de dados municipal. “O coração deste projeto é o Rio Datamine, que inclui informações do Centro de Controle e Gestão, atualizado em tempo real por vários órgãos da prefeitura”, diz Franklin Dias Coelho, secretário de Ciência e Tecnologia da cidade do Rio de Janeiro.

Para fazer o concurso de aplicativos, a prefeitura do Rio se baseou no concurso Big Apps, realizado pela prefeitura de Nova York (EUA). A terceira edição aconteceu em abril de 2012. De maneira similar, os desenvolvedores usam APIs criadas pela prefeitura para acessar mais de 750 bancos de dados de 63 órgãos públicos.

Além disso, startups sediadas em Nova York oferecem suas APIs para que os aplicativos tenham integração com serviços populares, como Foursquare, Tumblr e Vimeo. Em 2012, a prefeitura de Nova York distribuiu US$ 11 mil em prêmios para 11 novos aplicativos.

No Brasil, além da prefeitura do Rio de Janeiro, o governo do Estado de Pernambuco pretende realizar, em breve, seu primeiro concurso para desenvolvedores de aplicativos. Segundo Verlaynne Rocha, chefe da Unidade de Informações Estratégicas do Governo, a ideia é começar com duas categorias de aplicativos, uma escolhida pelo público e outra por um conjunto de jurados. “Além de premiar a comunidade de desenvolvedores, queremos premiar o órgão que disponibilizou os dados que estão no aplicativo vencedor”, diz Verlaynne.

O concurso ainda não tem data para acontecer, pois a equipe de Verlaynne ainda trabalha para publicar os bancos de dados de diversos órgãos na web. “Ainda enfrentamos muita resistência, porque até pouco tempo havia preocupação em manter os dados do governo em sigilo”, diz Verlaynne. Para facilitar o trabalho dos funcionários dos órgãos, que não são formados em tecnologia, a equipe de Verlaynne criou uma ferramenta para exportar os bancos de dados para arquivos XML, formato mais amigável para os desenvolvedores de aplicativos.

No Rio, a equipe de tecnologia da prefeitura continua incluindo novos dados no Rio Datamine. Uma nova edição do concurso Rio Apps deverá acontecer no início de 2013. Aos poucos, o governo percebe que, ao abrir os dados públicos num formato mais simples para os desenvolvedores, ganha em popularizar informações sobre a cidade sem investir em aplicativos próprios, que dependem de capacitação interna e investimentos maiores. “O investimento da prefeitura no concurso não é alto e os desenvolvedores são uma fonte inesgotável de novas propostas”, diz Coelho.

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