Pesquisador americano mostra que, apesar de valorizarmos a privacidade, muitas vezes agimos de modo inconsistente

NYT

Por Somini Sengupta

Digamos que você tenha se deparado com uma loja vendendo crochês feitos à mão com desconto para a primavera. Você cria uma conta digitando seu endereço de email, mas antes de terminar, uma mensagem de texto é enviada para o seu celular. Você a lê e a responde, em seguida, retorna ao site, digita sua data de nascimento, clica em "F" para feminino, concorda com os termos da empresa e continua navegando no site.

Mas espere: O que é que você acabou de aceitar? Você aceitou revelar informações tão vitais quanto sua data de nascimento e endereço de email?

A maioria de nós enfrenta essas decisões diariamente. Estamos apressados e distraídos e não prestamos muita atenção no que estamos fazendo. Muitas vezes, cedemos nossos dados em troca de uma oferta difícil de ser recusada.

Alessandro Acquisti, economista comportamental da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, realizou estudos sobre como nós fazemos essas escolhas. Em uma série de experimentos instigantes, ele mostrou que, apesar de dizermos o quanto nós valorizamos a nossa privacidade, tendemos a agir de forma inconsistente.

Acquisti é um pioneiro neste campo emergente de pesquisa. Seus experimentos poderão demorar para demonstrar resultados. Sua mais recente pesquisa, que revelou como os usuários do Facebook haviam alterado suas configurações de privacidade, demorou sete anos para ser concluída. Muitas vezes elas também podem ser bastante criativas: Ele já chegou a enviar estudantes de pós-graduação a um shopping center de subúrbio em nome da ciência. E muitas vezes também são desconcertantes: Um estudo de 2011 mostrou que era possível deduzir alguns números do CPF de uma pessoa a partir apenas de uma fotografia publicada online. Ele agora está estudando como as redes sociais online podem permitir que os empregadores discriminem de maneira ilegal na contratação de um funcionário.

Acquisti, 40, não enxerga a si mesmo como um dedo duro e sim como um observador que segura um espelho para os problemas que nem sempre conseguimos ver sozinhos.

"Será que as pessoas deveriam se preocupar? Eu não sei ", disse ele em seu escritório na Universidade Carnegie Mellon. "Meu papel não é dizer às pessoas o que fazer. Meu papel é mostrar por que fazemos certas coisas e quais podem ser algumas das consequências. Todo mundo terá que decidir sozinho. "

Aqueles que acompanham seu trabalho disseram que possui importantes implicações políticas à medida que reguladores em Washington, Bruxelas e em outros lugares escrutinizam a maneira na qual as empresas aproveitam os dados pessoais coletados de usuários. A Comissão de Comércio Federal no ano passado chegou a um acordo com o Facebook, e resolveu as acusações de que ele havia enganado os usuários com mudanças nas configurações de privacidade. Reguladores estaduais recentemente multaram o Google pela colheita de e-mails e senhas de usuários inocentes durante o seu projeto de mapeamento Street View. No ano passado, a Casa Branca propôs um projeto de lei de direitos de privacidade para dar aos consumidores maior controle sobre como seus dados pessoais são utilizados.

Empresas também têm interesse em suas pesquisas, a Microsoft Research e a Google têm oferecido bolsas de investigação a Acquisti. No geral, sua pesquisa afirmou que, quando se trata de privacidade, os decisores políticos deveriam considerar cuidadosamente como as pessoas realmente se comportam. Nós nem sempre agimos em prol de nosso próprio interesse, a pesquisa sugeriu. Nós podemos ser facilmente manipulados pela forma como informações são solicitadas. Até mesmo um site projetado para servir apenas como entretenimento pode nos fazer revelar mais de nós mesmos do que acreditamos.

Com o objetivo de entender melhor como os consumidores determinam o valor da sua privacidade, Acquisti enviou um conjunto de alunos de pós-graduação para um shopping nos arredores de Pittsburgh, Pennsylvania. Para alguns clientes, os alunos ofereceram um cartão de desconto de US$ 10, mais um desconto extra de US$ 2 em troca de dados de compras. Metade recusaram a oferta extra - aparentemente, eles não estavam dispostos a revelar o conteúdo de seu carrinho de compras por meros US$ 2.

Para outros clientes, no entanto, os estudantes ofereceram uma escolha diferente: um cartão de desconto de US$ 12 e a opção de trocá-lo por US$ 10 caso quisessem manter seu registro de compras privado. Curiosamente, desta vez, 90 % dos compradores optaram por manter o cupom de maior valor - mesmo que isso significasse divulgar as informações à respeito do que haviam comprado.

Por que tais respostas contraditórias?

Para Acquisti, os resultados ofereceram uma janela para os truques que nossas mentes podem nos aplicar. Se possuímos algo - neste caso, a posse de nossos dados de compra – somos mais propensos a valorizar isso. Se não temos isso no início, não estamos propensos a pagar para adquiri-lo. O contexto importa.

Também importa como nós definimos a privacidade. A sabedoria convencional em torno das políticas de privacidade da internet se baseia na noção de que os consumidores vão fazer escolhas inteligentes.

Essa sensação de controle também pode ser prejudicada de outras maneiras, principalmente por distrações: Elas aparentemente nos influenciam mais do que imaginamos.

Será que tudo isso significa que os usuários do Facebook deveriam mentir sobre seus aniversários (e quebrar termos de serviço do Facebook)? Acquisti disse que não. Ele disse que apenas existe uma “troca complexa " a ser feita.

"Eu revelo a minha data de nascimento e cidade natal no meu perfil no Facebook e um ladrão de identidade consegue reconstruir o meu número de CPF e roubar a minha identidade", disse ele, "ou alguém pode me enviar mensagens de" feliz aniversário "no dia do meu aniversário, e me fazer sentir muito bem. "

O Facebook, por sua vez, disse que os usuários podem controlar quem vê suas informações na rede.

Acquisti está no Facebook. Ele utiliza uma foto de seu perfil usando um capacete de motocicleta, o que o torna um pouco mais difícil de identificar.

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