Empresa coreana investe em aplicativos próprios para valorizar seus aparelhos. Após ser comprada pelo Google, Motorola aos poucos desiste de adicionar recursos ao Android

Durante o lançamento do Galaxy S4 , smartphone mais avançado de sua linha, a Samsung apresentou nada menos de que 16 novos recursos avançados, que incluem um aplicativo que traduz conversas em tempo real e um recurso que reconhece o olhar do usuário. No melhor estilo da Broadway, a empresa usou atores, palco de três andares e um cenário com imagens do Rio de Janeiro para convencer a todos de que o Galaxy S4 é o aparelho mais avançado do momento.

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Contudo, os presentes no evento sentiram falta de uma palavra que sempre esteve associada à linha de smartphones Galaxy da Samsung: Android. Na grande peça teatral apresentada pela fabricante, o sistema operacional não passou de um coadjuvante. Os executivos da Samsung que apresentaram o novo smartphone não mencionaram o sistema operacional do Google nem uma única vez. O sistema também não aparece no site oficial do produto.

Veja todas as fotos do lançamento do Galaxy S4:

“Em um lançamento de uma nova versão de um dos produtos que se tornou um dos modelos de ponta com Android, o mais notável foi a falta das palavras ‘Android’ e ‘Google’”, dizem Carolina Milanesi e Hugues De La Vergne, analistas do Gartner, em um estudo sobre os impactos do lançamento do Galaxy S4 no mercado de smartphones divulgado na metade de abril.

Embora nem todos os fabricantes adotem uma postura tão radical, o Android também tem perdido espaço no discurso de outras grandes empresas, que também enfatizam seus recursos exclusivos em vez de promover o sistema do Google. “Todos os smartphones ficaram muito parecidos em termos de hardware, então customizar o software se tornou algo crítico”, diz De La Vergne, em entrevista ao iG .

HTC One com quinta versão da interface Sense: feed de notícias e redes sociais na tela de bloqueio
Getty Images
HTC One com quinta versão da interface Sense: feed de notícias e redes sociais na tela de bloqueio

A HTC, por exemplo, chamou a atenção no início de 2013, quando apresentou seu modelo mais recente de smartphone, o One . O produto foi eleito o melhor  dispositivo do Mobile World Congress, em grande parte por conta da nova versão da interface, chamada HTC Sense .

Em sua quinta versão, ela ganhou uma tela inicial diferente da oferecida pelo Android e passou a exibir novidades de redes sociais e de sites de notícias. Para alguns, o design em blocos, adotado para mostrar o conteúdo, é inspirado no Windows Phone.

Um dos motivos do ganho de importância da customização, segundo o Gartner, está na concorrência com celulares sem marca fabricados na China e distribuídos a preços baixos pelo mundo. “Customizar o Android é importante para oferecer uma experiência melhor e faz com que os consumidores deem mais valor aos dispositivos de grandes marcas”, diz De La Vergne.

Parceiros e rivais

Até pouco tempo atrás, no entanto, lançar um smartphone com a versão mais recente do Android era uma das principais bandeiras dos grandes fabricantes. Eles já customizavam o sistema e  adicionavam alguns recursos próprios, mas a estratégia mudou ao longo do tempo, quando os  fabricantes perceberam que estavam deixando de lado um fator importante: a criação de um  ecossistema próprio que gere lucro.

Com o Galaxy S4, por exemplo, além de criar seus próprios aplicativos, a Samsung apresentou alguns novos recursos, como o aplicativo de tradução S Translator e o hub de música, livros e vídeos. Eles concorrem diretamente com serviços já oferecidos pelo Google em celulares com Android: o aplicativo Google Tradutor e a loja de aplicativos, músicas, filmes e livros Google Play. A Samsung também passou a oferecer um serviço de backup em nuvem, chamado Home Sync,  que atua em um segmento similar ao do Google Drive.

“Parece que a Samsung está tentando cooptar o Android para criar um ecossistema que ela possa carregar para outras iniciativas, como a plataforma de TV ou o Tizen , seu mais novo esforço para criar um sistema operacional próprio para celulares”, dizem os analistas do Gartner, no estudo.

Google reage com Motorola

No caso do aplicativo de tradução em tempo real, um dos recursos mais enfatizados pela Samsung é o modo offline. Ele permite que um turista que esteja em outro país traduza frases simples mesmo sem estar conectado à internet. O Google não tardou a responder: durante o lançamento do smartphone Nexus 4 no Brasil, a empresa anunciou o mesmo recurso para o
Google Tradutor .

A empresa, no entanto, pode ter planos maiores para manter o Android em evidência no mercado de smartphones. Após a aquisição pelo Google , no início de 2012, a Motorola abandonou aos poucos sua interface customizada para Android. “A MotoBlur foi abandonada pela Motorola no  final de 2012, quando a estratégia passou a ser a promoção dos recursos nativos do Android”, diz Renato Arradi, gerente de produto da Motorola Mobility Brasil, ao iG .

No início de março, a Motorola liberou uma atualização para a nova versão do Android para os modelos Razr HD e Razr Maxx, que removeu grande parte dos recursos do MotoBlur . Os aplicativos Social Location, MotoActv, MotoPrint, Alarme, Times, My Music e My Gallery deram lugar a recursos similares, como Google Music, Android Gallery e Google Clock. “Vamos continuar a oferecer recursos exclusivos para usuários Motorola, mas apenas na forma de aplicativos no Google Play”, diz Arradi.

Os smartphones mais recentes da Motorola, que chegaram este mês às lojas do Brasil, mostram o esforço da empresa em promover os serviços do Google no País. Nos comerciais veiculados na TV aberta e na internet, os recursos de hardware dos smartphones Razr D1 e Razr D3 são   demonstrados, mas o foco é o Google Now , aplicativo que mostra diversos tipos de informação de acordo com o local e o momento do dia.

O cancelamento da interface MotoBlur também mostra que, apesar dos poucos sinais de integração, o Google começa a influenciar mais na estratégia de produtos da Motorola. “É um risco que o Google assumiu, já que o MotoBlur fez sucesso em muitos países, inclusive no Brasil. Contudo, a decisão foi necessária e deve minimizar a fragmentação do sistema Android ”, diz De La Vergne, do Gartner.

O Google ainda não revelou quais são os planos de longo prazo em relação à Motorola, mas rumores indicam que o primeiro smartphone desenvolvido em conjunto pelas empresas está prestes a chegar ao mercado. Chamado de "X-Phone" , o novo produto pode ser revelado pelas duas empresas em maio, durante o Google I/O, conferência anual do Google para desenvolvedores que será realizada em San Francisco (EUA).

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