Mercado de computadores de mesa e notebooks está em queda e empresas como Microsoft e Intel apostam em novas estratégias para tentar retomar as boas vendas

NYT

Seattle – A morte do computador pessoal pode ser um exagero. Entretanto, a indústria em torno dos PCs parece estar no limbo.

Como o mainframe, que foi considerado acabado há décadas mas permaneceu como um negócio útil, o PC quase certamente enganará a morte. Claro, dispositivos móveis como o iPad vão continuar afetando as vendas de PCs. Esses dispositivos, porém, nunca irão satisfazer mestres de planilhas, editores de filmes e outros profissionais que dependem de diversas telas e da precisão de um teclado e um mouse.

Espaços do Windows em lojas Best Buy dos EUA: estratégia da Microsoft para popularizar o sistema
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Espaços do Windows em lojas Best Buy dos EUA: estratégia da Microsoft para popularizar o sistema

Ainda assim, há uma forte corrente entre executivos da tecnologia de que a relevância do PC irá diminuir progressivamente.

"Em minha humilde opinião, o PC como o conhecemos está em contínuo declínio e sendo relegado a um dispositivo utilitário para empresas", declarou Hector Ruiz, ex-presidente da Advanced Micro Devices, empresa que fabrica chips para PCs e outros dispositivos.

O clima em torno da indústria do PC está cada vez mais sombrio. O mercado está efetivamente em uma recessão, e não há retomada em vista. Durante o segundo trimestre do ano, as vendas globais de PCs caíram cerca de 11 por cento, pelo quinto trimestre consecutivo de quedas – a pior crise desde a invenção do PC, há mais de 30 anos.

A Intel, fornecedora de chips para a maior parte dos PCs, e a Microsoft, que coloca o sistema operacional Windows na ampla maioria dessas máquinas, divulgaram resultados financeiros decepcionantes. Uma grande reformulação do software da Microsoft, o Windows 8, não elevou as vendas e pode tê-las piorado.

A antes poderosa Dell, profundamente enfraquecida pela crise do PC, está atrelada a uma luta com acionistas sobre um plano de tornar-se privada, buscando alívio da pressão de investidores. Em sua tentativa de tornar a empresa privada, Michael S. Dell, fundador, e a empresa de investimentos Silver Lake argumentaram que transformariam a empresa em uma provedora de serviços corporativos em software.

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Embora a venda de PCs a empresas continue estável, a demanda entre consumidores caiu muito, principalmente porque as pessoas passaram a comprar iPads, Kindle Fires e outros tablets.

Ainda assim, um choque de realidade: mais de 300 milhões de PCs devem ser vendidos neste ano mundialmente. Isso representa muitas máquinas para um mercado que está doente.

As vendas de tablets estão crescendo explosivamente. Neste ano, é esperada uma venda de mais de 200 milhões dos dispositivos, ultrapassando pela primeira vez as vendas de laptops, a maior categoria de PCs, segundo a firma de pesquisa Gartner.

Picapes e carros

Steve Jobs, presidente da Apple que morreu em 2011, previu há vários anos que os PCs se tornariam algo parecido com picapes – veículos de trabalho usados por muitos, mas superados em número pelos tablets, os carros do mercado de tecnologia. (A analogia acabou sendo desmentida pelas estatísticas: o veículo mais popular nos Estados Unidos durante vários anos foi uma picape, a Ford F-150.)

Uma teoria é que os tablets estariam levando os compradores de PC a adiar as compras de novos computadores, talvez em um ou dois anos, mas que essas pessoas eventualmente estarão prontas para uma máquina nova. "Os ciclos de troca estão sendo adiados", afirmou Toni Sacconaghi, analista da Bernstein Research.

Uma visão mais pessimista diz que grande parte da demanda de consumo para PCs nunca irá voltar. Segundo Daniel Huttenlocher, do novo campus de tecnologia da Cornell University, os consumidores começaram a comprar PCs em grandes quantidades na década de 1990, principalmente porque não existia nenhum dispositivo melhor para acessar a internet.

Porém o PC, argumentou ele, sempre foi mais adequado ao escritório, para a produção de documentos, apresentações e outros trabalhos. Em sua opinião, os tablets são melhores para o consumo de conteúdo, seja assistir ao Netflix ou navegar na web.

"Existem muito mais consumidores do que produtores, mesmo num mundo repleto de conteúdo gerado pelo usuário", explicou Huttenlocher. 

No primeiro trimestre, 53 por cento das vendas de computadores foram ao mercado de consumo, enquanto 47 por cento ficaram no mercado empresarial, estima a firma de pesquisa IDC.

Muitos consumidores ainda preferem o PC para tarefas como editar filmes caseiros e escrever monografias. No entanto, os tablets já estão invadindo o terreno dos PCs em muitos nichos profissionais, de manuais de voo para pilotos comerciais a caixas registradoras em restaurantes.

Windows 8

Os maiores operadores da indústria do PC – especialmente Microsoft e Intel, o duopólio de softwares e chips com mais a perder com a queda da indústria – têm uma resposta aparentemente simples: redefinir o PC para torná-lo mais parecido com um tablet. A Microsoft criou o Windows 8 para trabalhar bem em dispositivos com tela sensível ao toque. Se os usuários se cansarem de gestos com os dedos, podem mudar para uma interface clássica do Windows que podem operar com mouse e teclado.

A Intel, enquanto isso, aperfeiçoou seus chips para que eles sejam mais econômicos no consumo de bateria, um importante requisito para dispositivos móveis.

As mudanças deram origem a um frenesi de dispositivos híbridos, efetivamente borrando os limites entre PCs e tablets. Hoje existem laptops que se transformam em tablets girando ou destacando suas telas. Outros vêm com telas sensíveis ao toque para alternar entre diferentes modos de operação.

Microsoft e Intel estão apostando que os dispositivos com lançamento no outono irão do Hemisfério Norte finalmente irão trazer os compradores de PCs de volta às lojas. A Microsoft pretende lançar uma nova versão de seu sistema operacional, o Windows 8.1, resolvendo problemas apontados por clientes na versão inicial.

"O que veremos nos próximos meses será muito mais projetos de cada fabricante de PCs", apostou Adam King, diretor de marketing de produto da Intel.

Usando a analogia automotiva de Jobs com outra finalidade, Frank Shaw, um porta-voz da Microsoft, disse que a indústria de carros seguiu se subdividindo em muitas categorias, incluindo modelos de luxo e veículos elétricos. "Podemos dizer que o mesmo está acontecendo na computação", argumentou Shaw.

Anand Chandrasekher, diretor de marketing da Qualcomm, que fornece chips para alguns dispositivos móveis com Windows, acha que a Microsoft conseguirá se adaptar às mudanças em sua indústria. "Eu admiro a Microsoft pelas mudanças que eles fizeram", explicou Chandrasekher. "Estamos otimistas de que eles terão uma forte presença no mercado".

Google ganha espaço

Alguns duvidam que uma nova classe híbrida de dispositivos conseguirá interromper o crescimento dos tablets da Apple e de empresas com aparelhos baseados no sistema operacional Android, do Google. Marc Benioff, presidente da Salesforce.com e frequente antagonista da Microsoft, disse que os clientes já rejeitaram novos tipos de dispositivos, como o tablet Surface da Microsoft.

"O motivo para eles não estarem acelerando o crescimento é muito simples", afirmou Benioff. "Existe uma tecnologia melhor".

Aconteça o que acontecer à indústria do PC, a mão de ferro que empresas como Microsoft e Intel exerciam sobre os fabricantes de hardware parece ter acabado. A Hewlett-Packard hoje fabrica um laptop usando o software Chrome OS, do Google, e um tablet baseado em Android. A Lenovo, maior fabricante mundial de PCs, é uma grande vendedora de smartphones e tablets Android, especialmente na China.

Em uma era mais antiga da computação, todos esses seriam vistos como atos intoleráveis de deslealdade.

"Somos uma empresa de dispositivos", declarou Gerry Smith, vice-presidente da Lenovo e chefe de sua divisão nas Américas. "Somos agnósticos em hardware e agnósticos em software, seja ele Android ou Windows".

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