Com vendas anuais na casa de centenas de unidades, Cliever e Metamáquina fornecem produtos principalmente para universidades e para a indústria criativa

Sony, Samsung e LG são alguns dos grandes nomes de tecnologia que sempre se destacam na CES, maior feira de tecnologia do mundo. Na edição deste ano, porém, elas tiveram a companhia de uma empresa bem mais nova. A fabricante de impressoras 3D MakerBot atraiu centenas de jornalistas à sua coletiva de imprensa, na qual apresentou novos modelos.

LEIA TAMBÉM:
Com preços em queda, impressoras 3D devem ganhar mercado em 2014

Ainda longe da realidade da MakerBot, algumas startups tentam explorar o mercado de impressão 3D no Brasil. Uma delas é a Cliever, de Porto Alegre (RS), que fornece máquinas para empresas, faculdades e, ocasionalmente, pessoas físicas. “Um de nossos clientes era médico e me explicou que muitas pessoas reclamavam do nariz após a cirurgia, pois quase não notavam a diferença do anterior. Então ele comprou a impressora para digitalizar o rosto do paciente e imprimir em 3D o nariz original e dar de presente, como um souvenir”, conta Rodrigo Krug, de 27 anos, que comanda a Cliever.

Fundada oficialmente em 2012, a startup que nasceu na PUC do Rio Grande do Sul recebeu, no final do ano passado, aporte financeiro de um grupo de investidores nacionais. Hoje, instalada na Tecnopuc – parque tecnológico da universidade em que Krug ainda cursa em engenharia de controle e automação –, a Cliever conta com nove pessoas. A empresa fechou 2013 com 250 máquinas vendidas e se prepara para exportar para a América Latina em 2014.

Veja abaixo algumas fotos das impressoras nacionais e produtos impressos:

Educação e economia criativa

O bem-humorado cirurgião plástico é um caso atípico. A indústria criativa é o principal cliente da Cliever ao lado de universidades, que compram o equipamento para uso dos alunos de cursos como design, engenharia de produto, arquitetura e outros tantos. Hoje, são 80 máquinas só em instituições de ensino. Empresas como Embraer, Intelbras, Nissan, Renault e Randon, que fazem protótipos com certa frequência, também fazem parte da sua carteira de clientes.

A impressora da Cliever é a CL-1. Ela custa R$ 4.650, imprime volumes de até 18 cm x 18 cm x 10 cm e está disponível em três cores. A máquina é compatível com qualquer software de modelagem 3D, mas vem com o seu próprio embarcado. A impressão é feita a partir de um filamento plástico, PLA (biodegradável) ou ABS (reciclável), disponível em até 28 cores. A máquina tem ainda suporte e garantia nacional de seis meses. Segundo Rodrigo Krug, a demanda já é maior que a produção.

Rodrigo Krug, da Cliever, posa com a CL-1
Divulgação
Rodrigo Krug, da Cliever, posa com a CL-1

A meta da empresa é chegar a mil máquinas até o final do ano. Diminuir o preço também está nos planos: ele quer reduzir o valor final à metade. Por isso, trabalha com fornecedores para desenvolver soluções nacionais e importar o mínimo possível, reduzindo o impacto da carga tributária. Na opinião de Krug, o “custo Brasil” ainda é um dos maiores obstáculos para empreender no País.

Por enquanto, fabricantes de fora como a MakerBot não ameaçam o seu negócio, pois as máquinas chegam ao Brasil com preços exorbitantes, tanto pela conversão do dólar quanto pela incidência de impostos. O primeiro modelo da Cube, da 3D Systems, vendido na Saraiva, custa R$ 6.398,00. No Mercado Livre, os preços de uma MakerBot variam de R$ 4.690 a R$ 11.890, dependendo do modelo.

Objetos personalizados

Quanto ao futuro da impressão 3D no Brasil, Krug tem dúvidas se a terceirização da impressão de objetos impressos pegaria, como acontece hoje com a impressão tradicional. Otimista, ele acredita que as pessoas físicas vão ter suas máquinas em casa: “as pessoas gostam da personalização, daquela coisa olha, mãe, fui eu que fiz”, comenta.

A imaginação de Krug vai mais longe: “Eu penso em empresas como a Ikea e a Tok Stok vendendo modelos de objetos em seus sites para os clientes imprimirem em casa. Quebraria toda uma cadeia produtiva, imagina só”, diz, otimista.

Tão iguais, tão diferentes

A Cliever não está sozinha no mercado brasileiro. Apresentada no mesmo dia em que a CL-1 na Campus Party de 2012, a Metamáquina também já tem seus clientes e está empenhada em fazer seu negócio crescer. A principal diferença é que a Metamáquina nasceu em um contexto bem diferente. Na faculdade Politécnica da USP, em São Paulo, Felipe Sanches, de 30 anos, e Rodrigo Rodrigues da Silva, se conheceram graças ao interesse mútuo por software livre. Mais tarde, juntaria-se a eles outro sócio, Felipe Moura.

Eles foram responsáveis pela criação do Garoa Hacker Club, um hackerspace (laboratório comunitário) que incentiva a troca de conhecimentos sobre diversas áreas da tecnologia. Segundo conta Sanches, na nova sede da empresa, junto ao Fab Lab no centro de São Paulo, a ideia de fazer uma impressora 3D nasceu da vontade de colocar em prática os princípios do software e do hardware livre.

Confira abaixo o funcionamento da Metamáquina 2:

“Na mesma lógica de fazer dinheiro com software livre”, conta Sanches, que gosta de reforçar que isso é possível sem trair os princípios do movimento, “nós pegamos um projeto de impressora 3D, livre, que estava quase lá, fizemos algumas inovações incrementais, fechamos uma lista de componentes e fizemos”. A Metamáquina é baseada em um projeto livre inglês chamado RepRap, de impressoras 3D autorreplicantes (uma é usada para imprimir a outra).

Enquanto Rodrigo Krug, da Cliever, tomou empréstimo em banco para fundar sua empresa, os sócios da Metamáquina recorreram ao crowdfunding para arrecadar o investimento inicial de R$ 30 mil. Desde 2012 foram vendidas 150 máquinas, levando em conta todos os modelos. No momento, Sanches prefere não falar de modelos, preços, nem abrir a estratégia de negócios.

A empresa que hoje conta com cinco pessoas, incluindo os sócios, está no meio de mudanças estratégicas. Mas ele concorda com Rodrigo Krug em um ponto a respeito de começar um negócio: a maior dificuldade são os impostos.

Da esquerda para a direita, Rodrigo, Felipe Sanches e, sentado, Felipe Moura, os donos da Metamáquina
Divulgação
Da esquerda para a direita, Rodrigo, Felipe Sanches e, sentado, Felipe Moura, os donos da Metamáquina

O futuro

Sanches acredita que, além do consumidor final, o futuro da impressão 3D possa estar nas lojas de serviços gráficos. Ele crê que no futuro pode haver impressora 3D em uma loja de serviços gráficos, como ocorre hoje com máquinas de fotocópia. Os clientes da Metamáquina não divergem muito dos da Cliever: indústrias que fazem prototipagem, assim como as universidades que compram o equipamento para disciplinas específicas e laboratórios.

“Eu tenho a impressão de que 2014 é um ano bombástico. As pessoas estão cada vez mais tendo consciência da existência da impressão 3D e é cada vez mais comum as pessoas chegarem aqui sabendo bastante sobre o assunto. No começo era assim: chegou o circo na cidade e a gente faz uma mágica, e agora não é mais”, conclui.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.