Mathieu Le Roux fala ao iG sobre a chegada de seu maior concorrente, o Spotify, e sobre o sucesso da Deezer no Brasil

Francês radicado no Brasil, Mathieu Le Roux é diretor da Deezer para América Latina desde 2012
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Francês radicado no Brasil, Mathieu Le Roux é diretor da Deezer para América Latina desde 2012

Há uma semana, um dos maiores concorrentes da Deezer no mercado de música online por assinatura desembarcou no Brasil após meses de espera. Líder desse tipo de serviço, o Spotify chega para aumentar a fatia da torta e para combater a pirataria no Brasil na opinião de Mathieu Le Roux, diretor da Deezer para a América Latina desde outubro de 2012.

Em entrevista ao iG , ele confessa que escutou música pirata antes de existirem soluções mais acessíveis como o Deezer, e que este modelo veio para ficar. Na opinião do francês radicado no Brasil, o streaming está revolucionando não apenas a indústria fonográfica, mas o processo criativo dos próprios artistas. Confira abaixo a conversa com executivo da Deezer, serviço de música online com mais de dois milhões de usuários ativos por mês no Brasil.

Como você avalia a chegada do Spotify ao Brasil?

Essa é uma pergunta que foi feita algumas vezes, porque faz tempo que eles estão para chegar, então fazíamos a mesma entrevista a cada mês. Mas que bom que eles conseguiram, pois não dava mais para um player global como eles ignorar um mercado do tamanho do Brasil por mais tempo.

É óbvio que vamos fazer de tudo para manter a liderança que conquistamos em menos de um ano. É uma corrida, é claro, e eu espero ficar na frente, mas acredito que a chegada do Spotify vai ajudar a conscientizar as pessoas da existência desse tipo de serviço de streaming de música. E que o melhor ganhe. Nós temos bons argumentos de convencimento, não acredito que todo mundo vá sair da Deezer, não.

Como vocês veem os concorrentes já instalados?

O modelo em que o artista ganhava muito dinheiro no momento em que o CD saía acabou. Agora, com o streaming, o artista ganha dinheiro ao longo da vida do CD a partir da sua base de fãs. É uma mudança radical que tem consequências até na criação"

Claro que a concorrência é forte, Rdio e Napster têm produtos ótimos, de nível mundial, mas eu não acredito que o Brasil vá ser um mercado que vai ter só uma solução. Acredito que todo mundo vai acabar usando um, não é uma rede social. A concorrência é muito boa, e é claro que vamos tentar convencer cada vez mais usuários e também artistas, porque para eles é uma verdadeira revolução.

O modelo em que o artista ganhava muito dinheiro no momento em que o CD saía acabou. Agora, com o streaming, o artista ganha dinheiro ao longo da vida do CD a partir da sua base de fãs. É uma mudança radical que tem consequências até na criação: não adianta mais fazer um CD de vinte músicas se cinco são ruins porque ninguém vai escutá-las. Então eu não vejo a concorrência como algo ruim, temos um número bom de players globais atualmente no mercado, mais do que isso talvez não fosse atrativo.

Como fica a Deezer com a compra da The Echo Nest pelo Spotify?

[A The Echo Nest é uma empresa de inteligência que antes da aquisição era responsável pelo algoritmo de vários serviços de música online como Rdio e o próprio Spotify]

A Deezer tem uma cultura que é bem de acordo com a cabeça do fundador Daniel Marhely de que tudo que é estratégico deve ser feito em casa. Nunca usamos o The Echo Nest e todos os nossos algoritmos são feito em casa. Nós avaliamos esse movimento do Spotify como algo positivo, porque é preciso agregar mais dados e entender melhor o usuário. Vimos todo o dinheiro que investimos nisso ser rentabilizado quando descobrimos o preço que o Spotify pagou pelo negócio [o valor não foi anunciado para o público].

É o caminho do mercado, pois não queremos ser um banco de dados de música sem alma, tem que ter curadoria humana. Eles também fizeram esse movimento de aumentar a parte editorial. Quando se vê um concorrente tomando o mesmo caminho a gente percebe que não estava tão errado, né? Na Deezer, tudo que é recomendado tem intervenção humana: ou é um editor de um gênero que sabemos que o usuário gosta, ou é um amigo que recomendou algo ou é a música que sabemos que está bombando entre o grupo de amigos. A única coisa automática são as sugestões de novidades de um artista que o usuário marcou como favorito.

E quanto a pirataria, ela ainda é um desafio no Brasil?

Eu acredito que sim. O sucesso das plataformas de streaming mostra que para vencer a pirataria o que tinha que ser feito – e demorou porque não era rápido – era oferecer uma alternativa melhor em termos de experiência de uso. E é melhor. Você tem um catálogo gigantesco, a capacidade de compartilhar com quiser, é fácil, é só um link, a capacidade de criar uma playlist no celular, que depois vai aparecer no computador, na smart TV, sem precisar de cabo, sem se preocupar se vai ocupar memória ou não, porque está tudo na nuvem, com a facilidade de um Dropbox.

E por um preço que é a metade de um CD por mês. Antes, para quem realmente gostava de música, era um pouco caro ter todos os CDs. Para ser sincero, eu pirateei muito antes da Deezer entrar no esquema, mas nunca mais, hoje não tem mais papo.

No Brasil, as pessoas já entendem como funciona o streaming?

Eu acho que tem uma grande maioria que não entende, não conhece. Por isso acho que a chegada do Spotify pode melhorar, pois serão várias vozes dizendo a mesma coisa “vem descobrir, vem experimentar, veja como é legal”. Mas é claro que dois milhões de usuários ativos por mês não é pouco e mostra que o streaming de música não é mais uma coisa de nicho, já começou a pegar, e bem.

É claro que sabemos que eles têm um poder de viralização [Spotify], mas a gente aposta muito nos nossos embaixadores e na nossa base de fãs que é muito engajada. É assim que vai funcionar por enquanto, pois ninguém tem dinheiro para colocar uma propaganda na Rede Globo, então temos que apostar na paixão dos primeiros usuários e no poder de convencimento deles com amigos e parentes.

Quais são características do usuário brasileiro?

Nós nunca vimos uma taxa de crescimento e adoção tão rápida quanto no Brasil. A capacidade de viralização, a capacidade de transformar um usuário em dez, é fenomenal. O brasileiro tem essa facilidade de adotar coisas novas e de entender como funciona muito bem. O brasileiro que usa Deezer, e usa muito. Os números de streaming aqui por usuário são os mais altos do mundo.

E isso que todo mundo já sabe: brasileiro se conecta em todas as redes sociais e vai comunicando os demais. A gente tem uma pouco menos de fãs na página do Facebook que o Deezer francês, mas quando você olha o número de pessoas atingidas o Brasil, que é uma proporção entre o número de fãs e o quanto eles compartilham, o Brasil dá dez a zero na França. Brasileiro “bomba” tudo o que faz, ele engaja, ele compartilha, é muito bom. Você tem que prestar atenção porque pode tornar viral algo ruim, mas sendo honesto e reconhecendo os erros, é tudo muito bom.

No Brasil, o uso do serviço é muito pelo celular, mas acho que é uma questão de geração, porque muitas pessoas descobriram a internet pelo smartphone, então claro que nossa base de usuários é móvel.

Dr. Dre e Jimmy Iovine, fundadores da Beats. Empresa foi comprada pela Apple na semana passada
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Dr. Dre e Jimmy Iovine, fundadores da Beats. Empresa foi comprada pela Apple na semana passada

Qual a sua opinião sobre o movimento da Apple de comprar a Beats?

É sempre complicado interpretar o que faz a Apple porque eles há tempos não compram nada. Tem muita gente dizendo que eles só compraram por causa dos fones e muita gente que diz que eles compraram a Beats pelo serviço, que os acessórios não valem nada. Cada um interpreta do jeito que lhe convem.

Mas é claro que o iTunes deixou de crescer e está começando a cair. Isso é um sinal muito forte de que o futuro não é fazer download, mas assinatura ou algo nesse sentido.Toda a indústria da música está convencida de que é o modelo do futuro e provavelmente a Apple se interessou em ser parte disso.

Eu vejo isso como um sinal de que temos um modelo de negócio fértil e que agora estão chegando todos os grandes, Apple, Amazon, Google e Facebok, e provavelmente os quatro fantásticos vão se posicionar nesse mercado rapidamente. O Google já se posicionou com o Google Music. Para Apple mesmo pode ser interessante já que eles possuem com o iTunes uma base de dados de cartões de créditos que é fenomenal.

Essa é a primeira grande compra da Apple em anos, a última havia sido a NeXT, que na verdade era uma estratégia para ter o Steve Jobs de volta. Então, lógico, o fato da última grande compra da Apple ser no mercado em que eu atuo é um ótimo sinal. Mostra que não é tão fácil criar o que a gente criou, até porque a Apple não é uma empresa para ficar para trás, ela é o tipo de empresa que cria as inovações.

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Como vocês estão lucrando na Deezer?

Temos o modelo de assinatura, onde nós ganhamos dinheiro com os assinantes, e tem o modelo de venda de publicidade, de dar visibilidade para marcas na nossa plataforma ou por meio de campanhas. Temos uma equipe de vendas que comercializa publicidade na plataforma na Europa e na América Latina e nos fechamos com grandes marcas como Unilever, Itaú e Ubisoft .

É muito interessante porque nossa base de usuários é uma base de pessoas que são antenadas, que testam as coisas antes de todo mundo. A Ubisoft, por exemplo, nos procurou para lançar o Just Dance [jogo de videogame], que é cultura, música, porque estava em busca de early adopters [termo para pessoas que aderem rápido a uma tecnologia]. Os usuários da Deezer são pessoas que as marcas querem atingir primeiro porque influenciam os outros. Além disso, estamos quase entrando no top 100 dos sites mais visitados do Brasil, então sim, estamos bem.

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