Novo smartphone é resultado da mudança de estratégia da empresa, agora totalmente voltada para o mercado corporativo

Entre acabar e ser vendida, a BlackBerry optou por renascer. E, para se recuperar, a empresa voltou às suas raízes, o cliente corporativo. Anunciado há algumas semanas, o BlackBerry Passport, smartphone de tela quadrada, é considerado um marco dessa nova fase. O aparelho com tela de 4,5 polegadas em proporção de 1:1, teclado físico e virtual e bateria de 3.450 mAh – que, segundo a fabricante, dura até dois dias –, foi totalmente pensado para empresas interessadas em produtividade e segurança.

O diretor geral para o Brasil da BlackBerry, João Stricker, falou um pouco sobre esse novo momento da empresa canadense ao iG . “Historicamente, a BlackBerry sempre foi uma empresa voltada para o corporativo e não de smartphones. Erámos uma companhia de soluções corporativas que vendia software e aparelhos que conectavam o usuário com a empresa. O crescimento no mercado de consumidor final aconteceu naturalmente porque, na época, os nossos smartphones eram os que funcionavam melhor, mas eles nunca foram planejados para esse público, pelo menos não inicialmente”.

A concorrência

Segundo o executivo, o problema maior da derrocada da BlackBerry foi a demora da própria empresa em responder à chegada de smartphones que rodavam os sistemas iOS, da Apple, e o Android, do Google. “Nós tínhamos um sistema de dez anos, baseado em Java, que mal rodava alguns aplicativos, e a Apple trazia um ecossistema totalmente novo, realmente robusto e pronto para aplicações. A gente demorou para responder. Tentamos competir algumas vezes com o sistema antigo e não funcionou. Houve um erro”.

Tanto o Passport quanto o BlackBerry 10.3, a nova versão do sistema operacional, preenchem as lacunas do passado. Agora, a plataforma da empresa conta com uma loja de aplicativos, a Amazon App Store, roda grande parte dos aplicativos nativos para Android, e oferece recursos aprimorados para multimídia e navegação. Mas, para Stricker, quando a BlackBerry deixou de ser líder a empresa deveria ter feito o que está fazendo hoje: focar no corporativo.

No Brasil, a BlackBerry é dona de 40% do mercado de gerenciamento de dispositivos móveis para empresas. Mais do que o segundo e o terceiro colocado somados de acordo com o executivo. Além disso, os serviços da empresa não funcionam só com aparelhos da própria BlackBerry como alguns ainda pensam. Hoje, as soluções da companhia também contemplam as plataformas concorrentes: iOS e Android e, em breve, Windows Phone. Mas, então, por que continuar fazendo smartphones?

Segurança é diferencial da empresa

De acordo com Stricker, por dois grandes motivos: o primeiro é que os novos aparelhos da BlackBerry são diferentes porque são focados em produtividade: na velocidade de digitação, na capacidade do usuário de ler documentos e abrir planilhas, no tempo de bateria.

O outro aspecto é a segurança, uma das marcas registradas da empresa. “Se eu não faço o hardware eu não tenho como garantir que nossa solução será 100% segura. Eu não posso garantir que a plataforma Android é totalmente segura, mesmo que eu tenha a rede e o gerenciamento em mãos. Como disse um analista do Gartner, o software é tão seguro quanto o sistema operacional permite que ele seja. Se alguém conseguir romper o sistema talvez seja possível chegar até a nossa rede”, alerta.

Mesmo tendo uma solução mais completa, a BlackBerry não pretende concorrer diretamente com Apple e outros marcas que fabricam smartphones com Android e que já chegaram no mercado corporativo. Como as soluções de gerenciamento da empresa atendem a todas as plataformas, a escolha continuará sendo do consumidor.

Stricker: BlackBerry deve focar no cliente corporativo
Divulgação
Stricker: BlackBerry deve focar no cliente corporativo

Conforme conta Stricker, há tempos a empresa vem atendendo clientes que oferecem para seus funcionários um BlackBerry ou um iPhone como aparelho corporativo, por exemplo. O objetivo maior da companhia com o Passport é chegar naqueles clientes onde a produtividade com segurança é imprescindível.

“O grande problema das corporações é adotar soluções de segurança que não limitem a produtividade do funcionário. Às vezes, existe tanta restrição de segurança que o usuário não consegue trabalhar. O que nós fazemos é entregar um produto seguro e produtivo no qual é possível trabalhar. Ao invés de solicitar para o usuário que ele entre e saia de uma zona segura todo o tempo, um BlackBerry deixa ele fazer o que quiser, mas quando o funcionário fizer algo errado, ele avisa. Se, por exemplo, ele tentar copiar um arquivo que recebeu no e-mail corporativo para o PC por um cabo USB o aparelho vai dizer não, isso não é permitido”, exemplifica o diretor.

Passport no Brasil em 2015

No Brasil, o Passport deve chegar no primeiro trimestre de 2015, ainda sem preço definido, nas operadoras e em algumas lojas premium o que significa que, sim, um cliente pessoa física interessada em produtividade e segurança poderá adquirir o aparelho. Quanto a voltar ao topo do mercado de consumidor final, João Stricker é cauteloso.

Para o executivo, se esse movimento acontecer, será de forma natural, pois o foco agora é outro. Mas, como ele mesmo alertou, o mercado de smartphones é bastante cíclico e assim como os aplicativos já foram a necessidade da vez, a privacidade e, consequentemente, a segurança, também podem se tornar um motivo de compra.

Os vazamentos não só de fotos de pessoas físicas, mas também de seus dados de cartão de crédito podem motivar os consumidores a buscarem uma solução mais segura como as que a BlackBerry oferece para o meio profissional.

De acordo com o executivo, a empresa já surfou na onda da preocupação com a segurança e a privacidade quando Edward Snowden revelou que várias empresas estavam concedendo dados para as agências do governo dos Estados Unidos. “Nós carregamos cada vez mais informações dentro dos smartphones, é natural que as pessoas comecem a se preocupar”.

Quanto a fazer incursões no mercado de tablets, do qual a BlackBerry já tentou fazer parte com o falecido PlayBook, Stricker afirma que existem apenas discussões sobre. Mas, se o Passport vingar, pode ser um próximo passo no renascimento da empresa canadense.

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