Apesar de obrigatoriedade do Ginga a partir de 2013, interatividade ainda depende da cobertura da TV digital e mais conteúdo

Grandes empresas com fábricas no Brasil, como Samsung e LG, correm contra o tempo para incluir o Ginga, sistema de interatividade para a TV digital, nos televisores até janeiro de 2013. Os projetos dos fabricantes com Ginga, que seguiam com lentidão desde 2007 quando a tecnologia foi adotada como padrão, ganharam impulso com a decisão do governo brasileiro de obrigar a instalação do Ginga em 75% das TVs fabricadas no País em 2013. O percentual aumentará para 90% em 2014.

LEIA TAMBÉM:
O que é o Ginga?
Infográfico: Como funciona o Ginga
Ginga completo pode tornar TVs até R$ 300 mais caras
Lojas de aplicativos podem dar novo fôlego ao Ginga
Mais populares, TVs conectadas podem ofuscar Ginga
TV pública quer liderar criação de conteúdo para Ginga

A portaria interministerial publicada pelo governo brasileiro em fevereiro estabeleceu que os fabricantes só receberão incentivos fiscais do Processo Produtivo Básico (PPB) de TVs se o Ginga estiver presente nos aparelhos. Trata-se de um esforço do governo para popularizar o Ginga no Brasil no período pré-Copa do Mundo de 2014, quando os brasileiros tradicionalmente aproveitam para trocar a TV por um modelo com tela maior e recursos mais avançados.

Criado por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o Ginga foi disponibilizado em 2007, cerca de dois anos após a adoção do padrão japonês de TV digital no País. “O Ginga enfrenta uma lacuna de tempo entre seu desenvolvimento e a chegada ao mercado”, disse Cezar Alvarez, secretário-executivo do Ministério das Comunicações (Minicom), ao iG . O sistema permite que os espectadores interajam com a programação e acessem aplicativos, de maneira similar às TVs conectadas .

Os aplicativos desenvolvidos para Ginga são transmitidos pelas emissoras de TV junto com o sinal da TV digital ou podem ser baixados por meio de uma loja virtual, acessada a partir da TV por meio da internet. Por meio deles, os espectadores podem acessar informações sobre os programas que estão assistindo, participar de enquetes e fazer compras por meio da TV. Alguns recursos dependem do envio de informações da TV para um servidor, portanto, só funcionam quando há conexão com a internet.

Mais de 10 milhões por ano

O potencial da plataforma Ginga é grande, considerando o tamanho do mercado de TVs no Brasil: só em 2012, as vendas de TVs (incluindo televisores de tubo e tela fina) devem chegar a 12 milhões de unidades. Além de permitir que os espectadores obtenham informações sobre os programas de TV, o governo brasileiro planeja usar o sistema para projetos sociais, como envio de informações sobre prevenção de doenças ou consulta a serviços públicos por meio da TV, em localidades onde o acesso a internet ainda é escasso.

Até agora poucos fabricantes de TVs, conversores (set-top boxes) e celulares apostaram, de fato, no Ginga. “É difícil convencer os brasileiros de que conseguimos fazer uma coisa boa”, diz Luiz Fernando Gomes Soares, pesquisador da PUC-Rio e criador do Ginga. O longo tempo de atraso na chegada da interatividade ao mercado acabou tornando o Ginga um desconhecido em seu próprio País. Fora do Brasil, no entanto, o sistema se tornou popular rapidamente: ele já foi reconhecido como padrão internacional para serviços de IPTV pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) e está em processo de adoção por outros 13 países, a maioria deles na América Latina.

Contudo, o Ginga ainda precisa percorrer um longo caminho até se tornar popular no Brasil. Um dos entraves é a transmissão do sinal de TV digital, ainda indisponível em boa parte do País (veja infográfico) , por conta dos altos investimentos que poucas retransmissoras têm condições de fazer. Isso significa que, apesar de as TVs com Ginga chegarem às lojas de regiões não atendidas a partir do ano que vem, quem comprá-las continuará sem acesso às imagens em alta definição e aos recursos de interatividade.

Todos os 26 modelos de TVs da Sony vendidos no Brasil já possuem o Ginga embarcado
Getty Images
Todos os 26 modelos de TVs da Sony vendidos no Brasil já possuem o Ginga embarcado
Fabricantes investem com cautela

Entre as fabricantes de TVs, apenas a Sony oferece o Ginga em 100% da linha vendida no Brasil. “Decidimos apostar no Ginga logo no início, mas sabemos que o mercado está longe de estar maduro”, diz Luciano Bottura, gerente de produto da linha Bravia da Sony.

Na linha de TVs mais recente da marca, 26 modelos contavam com o sistema de interatividade – recurso presente em mais TVs da linha que a conexão de internet, que é encontrada em 22 modelos da linha atual.

Outra empresa que apostou cedo no Ginga foi a Visiontec. A fabricante de antenas parabólicas decidiu entrar para o mercado de set-top boxes, dispositivos que são conectados à TVs analógicas para permitir a recepção do sinal digital. Em 2009, a empresa desenvolveu a primeira versão do produto com o software do Ginga, licenciado pela Totvs. O produto chegou às lojas no início de 2010, mas a procura foi pequena. “Até hoje não passamos de 3 mil peças vendidas, mas o investimento no novo negócio não foi menor que R$ 18 milhões”, diz Ricardo Minari, diretor de negócios e tecnologia da Visiontec.

Por conta da baixa demanda dos consumidores, outras fabricantes também olham para o Ginga com cautela. TVs de marcas como Samsung e Semp Toshiba são encontradas no varejo desde o ano passado, mas o consumidor demora a achar, pois a quantidade fabricada ainda é pequena. “Desde agosto de 2011 já colocamos o Ginga em alguns modelos de TVs, mas ainda estamos na fase de testes”, diz Benjamin Sicsú, vice-presidente de novos negócios da Samsung no Brasil.

Embora tenha lançado produtos com Ginga há cerca de um ano, nenhum anúncio ou comercial de TV da maioria das fabricantes promove o recurso. O motivo, segundo Sicsú, é a insegurança na estabilidade do sistema, que ainda precisa de mais testes. “Temos que assegurar que as TVs captem a interatividade todos os dias, mas existe pouco conteúdo para testar”, diz Sicsú, que aguarda a aprovação, em outubro, de um conjunto de testes pelo Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD).

Nova linha de TVs da LG que chegou ao Brasil ainda não tem Ginga, mas receberá atualização até o final do ano
iG São Paulo
Nova linha de TVs da LG que chegou ao Brasil ainda não tem Ginga, mas receberá atualização até o final do ano
Na LG, os executivos garantem que a nova linha de televisores, que chega ao Brasil até o final do primeiro semestre, está preparada para receber o Ginga.

“Ainda estamos estudando o Ginga, mas as TVs vendidas ao longo de 2012 receberão uma atualização com o sistema até o final do ano”, disse Fernanda Summa, gerente de produto da LG, ao iG . A partir do ano que vem, as TVs fabricadas pela LG no Brasil já devem sair de fábrica com os recursos de interatividade.

Um longo caminho

Até o início do ano que vem, os fabricantes garantem que produzirão a cota de TVs exigida pelo governo brasileiro. Entretanto, governo e indústria sabem que o Ginga ainda precisa percorrer um longo caminho para cair nas graças dos espectadores. “O governo sabe que a portaria que obriga a presença do Ginga nas TVs não basta. É preciso um conjunto de medidas complementares para aumentar a cobertura do sinal digital e também estimular o desenvolvimento de aplicações interativas”, diz Alvarez, do Minicom.

Valdecir Becker, doutor em TV digital pela Universidade de São Paulo (USP) que pesquisa sobre o tema há 10 anos, diz olhar para o futuro do Ginga com pessimismo. “As emissoras ainda não encontraram uma forma de pagar o investimento na interatividade, mas torço para que dê certo”, diz Becker. Todas as grandes emissoras já oferecem algum tipo de conteúdo interativo desenvolvido para Ginga, mas algumas delas restringem as informações apenas a alguns programas ou horários específicos. Até agora, somente o SBT mantém um portal interativo para TVs com Ginga, que fica 24 horas no ar.

Outro pioneiro em TV digital, André Barbosa, gerente de suporte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável pelo projeto de interatividade nas emissoras públicas, acredita que a obrigatoriedade do Ginga nas TVs foi o primeiro passo para que as aplicações interativas ganhem espaço e o recurso se torne conhecido e útil para os telespectadores no Brasil. “Amargamos a espera pela obrigatoriedade do Ginga nas TVs, mas agora o sonho se tornará realidade.”