Obrigatoriedade do Java no sistema de TV ainda precisa ser aprovada no Brasil, mas já é descartada em outros países

Para usar o Ginga , sistema que permite usar a TV para ver notícias, consultar redes sociais e outras atividades, o brasileiro poderá pagar até R$ 300 a mais pelos televisores depois de janeiro de 2013, quando o governo obrigará os fabricantes a incluírem o recurso em 75% das TVs fabricadas no Brasil . Para adotar o sistema nas TVs, os fabricantes fazem investimentos que devem gerar um acréscimo no preço do produto, pelo menos nos primeiros meses. O aumento no preço deve variar dependendo da estratégia que cada empresa adote para incluir o Ginga nas TVs.

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O Astro TV, Ginga desenvolvido pela Totvs, suporta aplicativos desenvolvidos em NCL e Java
Claudia Tozetto
O Astro TV, Ginga desenvolvido pela Totvs, suporta aplicativos desenvolvidos em NCL e Java

Por meio do Ginga, o telespectador pode acessar a sinopse dos programas, fotos de atores, enquetes e outros conteúdos, mesmo que não tenha conexão de internet. Contudo, cinco anos após sua criação, muita gente sequer ouviu falar do Ginga. “É mais fácil o consumidor pagar mais para ter um smartphone ou tablet que suporte aplicativos do que gastar mais numa TV com o Ginga, porque não se trata de um recurso conhecido”, diz Valdecir Becker, doutor em TV digital pela Universidade de São Paulo (USP).

O Ginga nasceu nos laboratórios de informática da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) com investimentos do governo. Qualquer fabricante pode incluir o softwares em suas TVs sem custo. Apesar disso, equipar uma TV com o Ginga não sai barato para os fabricantes. A Sony e a Samsung, por exemplo, investiram do próprio bolso para desenvolver o Ginga  e, como o sistema é usado em poucos países, custa caro ajustar os produtos a uma exigência local. “É preciso mudar o hardware e o software da TV”, diz Luciano Bottura, gerente da linha de TVs Bravia na Sony.

Outras empresas, como Semp Toshiba, Panasonic e Philips, usam o Astro TV, um sistema Ginga desenvolvido pela Totvs. Com isso, as empresas “pularam” o desenvolvimento de uma versão própria do sistema para as TVs lançadas no Brasil. Neste caso, os fabricantes pagam uma taxa à Totvs a cada TV que sai de fábrica com o Astro TV - resultado de um investimento de cerca de R$ 25 milhões nos últimos quatro anos. “O Astro TV encontra todos os conteúdos interativos transmitidos pelas emissoras e oferece uma loja de aplicativos”, diz David Brito, diretor de tecnologia da Totvs.

Duas versões de um mesmo Ginga

Independentemente da estratégia adotada, o Ginga incluído nas TVs deve respeitar as recomendações do Fórum Brasileiro de TV Digital (SBTVD), grupo que inclui representantes das universidades e da indústria. Ele exige que duas versões do Ginga, que suportam as linguagens NCL e Java, sejam embarcadas nas TVs. A primeira versão, chamada de Ginga-NCL, foi criada no Brasil pela PUC-Rio. “O NCL é uma linguagem declarativa, que facilita muito o desenvolvimento de aplicativos”, diz Luiz Fernando Gomes Soares, pesquisador do departamento de informática da PUC-Rio e considerado o “pai” do Ginga.

Aplicativos desenvolvidos em NCL, como da TV Brasil, possuem interface mais simples do que os desenvolvidos em Java
Divulgação
Aplicativos desenvolvidos em NCL, como da TV Brasil, possuem interface mais simples do que os desenvolvidos em Java
Para André Barbosa, superintendente de suporte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) responsável pelo projeto de interatividade na TV Brasil, a linguagem NCL permite que o Ginga cumpra seu papel na inclusão digital. “É muito mais fácil desenvolver aplicativos em NCL do que em Java”, diz Barbosa.

Segundo os desenvolvedores, a linguagem NCL é mais simples, porque é baseada no padrão XML, adotado também no HTML5. Com isso, segundo Barbosa, qualquer pessoa com conhecimentos mínimos sobre programação poderia criar seus próprios aplicativos. “O Ginga-NCL foi a grande inovação do Brasil”, diz Barbosa.

Java encarece Ginga

A segunda versão, conhecida como Ginga-J, foi originalmente criada pela UFPB para permitir a compatibilidade do Ginga com o padrão adotado na Europa, mas acabou modificada para suportar Java, uma das linguagens mais usadas pelos desenvolvedores em todo o mundo. “O governo solicitou que a especificação fosse reescrita em código-aberto. O trabalho foi feito e, em 2009, já estava disponível”, diz Paulo Riskalla, líder da área de Java da Oracle para a América Latina. Isso permite que os desenvolvedores criem aplicativos baseados em Java para Ginga, sem pagar direitos de uso da linguagem para a Oracle.

Os fabricantes, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Apesar de liberar o uso do Java para os desenvolvedores, a Oracle passou a cobrar dos fabricantes os direitos de uso da máquina virtual Java, programa necessário para permitir que o Ginga reproduza os aplicativos na TV. Segundo a Oracle, cada fabricante de TVs têm um acordo comercial diferente para uso da máquina virtual nas TVs - os valores envolvidos não foram revelados. “Os royalties pagos à Oracle são caros e emperram a adoção do Ginga no Brasil”, diz Soares, da PUC-Rio.

Apesar de encarecer as TVs, a adoção do Ginga-J favorece algumas das empresas envolvidas na criação de aplicativos interativos. A Rede Globo é uma das emissoras que mais promovem o uso de Java, principalmente pelos recursos gráficos que podem ser usados para sobrepor o aplicativo à programação, como transparências. Bancos e sites de comércio eletrônico também fazem parte do grupo de empresas que concordam com a adoção do Ginga-J nas TVs, apesar do ônus para os fabricantes.

Aplicativo do Banco do Brasil para Ginga permite consultar saldos e extratos pela TV
Divulgação
Aplicativo do Banco do Brasil para Ginga permite consultar saldos e extratos pela TV
Bancos dependem do Java

No Banco do Brasil, que criou o primeiro aplicativo bancário para o Ginga, a maior parte da equipe de desenvolvimento é especializada em Java. A linguagem, segundo José Lairton Rocha Junior, gerente de gestão de canais do Banco do Brasil, é importante para assegurar transações bancárias, que geralmente precisam instalar um certificado digital na máquina.

“Atualmente nosso aplicativo permite consultar o saldo ou extrato da conta. Precisamos da certificação digital com Java para autenticar outras transações, como pagamentos e transferências”, diz Junior.

No futuro, o aplicativo do Banco do Brasil para Ginga oferecerá todas as opções atualmente disponíveis por meio do site, mas exigirá que os espectadores conectem a TV a uma conexão de internet. “Estamos estudando outras alternativas de canal de retorno, mais baratas, para levar este serviço para pessoas das classes C e D que não têm banda larga disponível”, diz Junior.

A volta do comitê

Os fabricantes já colocam o Ginga-NCL e o Ginga-J nas TVs, seguindo a recomendação do Fórum SBTVD. Apesar disso, até hoje o governo não publicou nenhuma diretriz oficial que obrigue os fabricantes a adotar as duas versões do Ginga nos produtos. “O governo ainda não chegou a conclusão nenhuma sobre este assunto, mas é ele quem deve referendar as decisões do Fórum”, diz Barbosa, da EBC.

Desde o início das discussões sobre o padrão de TV digital nipo-brasileiro, o governo mantém um comitê interministerial para analisar e aprovar todas as regras e padrões técnicos para a TV digital no Brasil. Contudo, as reuniões do comitê interministerial deixaram de acontecer no final de 2008, quando a presidenta Dilma Rouseff ainda era ministra da Casa Civil.

Hoje, quatro anos depois, o governo planeja retomar o comitê interministerial que define as regras para os televisores, adaptadores e celulares que recebem o sinal de TV digital no Brasil. Uma reunião, programada para os próximos meses, terá representantes do Ministério das Comunicações, Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Um dos assuntos na pauta, segundo fontes, é a possibilidade de adoção parcial do Ginga - somente com suporte a NCL – em televisores e set-top boxes (adaptadores usados para rodar o Ginga em qualquer aparelho de TV). No caso dos celulares, o Fórum SBTVD recomenda apenas o uso do Ginga-NCL.

Cezar Alvarez, do Minicom:
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Cezar Alvarez, do Minicom: "Discussão sobre obrigatoriedade do Java no governo ainda não terminou"
Em entrevista ao iG , Cezar Alvarez, secretário-executivo do Ministério das Comunicações, afirmou que a discussão sobre a obrigatoriedade do Ginga-J em TVs e set-top boxes no governo ainda não terminou.

“A questão do pagamento dos royalties da máquina virtual do Java ainda está em discussão entre o Fórum SBTVD e a Oracle”, disse Alvarez, o que sinaliza que o governo ainda espera uma possível isenção ou redução do pagamento à Oracle pelos direitos de uso da máquina virtual Java.

Em países vizinhos ao Brasil, em que o sistema nipo-brasileiro de TV digital, também foi adotado, o Ginga é a principal opção para permitir a interatividade na TV digital. Contudo, os países ainda têm dúvidas se vale a pena adotar o Ginga completo, com Java e NCL.

Na Argentina, por exemplo, o governo decidiu adotar apenas o Ginga-NCL como padrão. Com isso, apesar de as TVs e conversores fabricados no Brasil serem compatíveis, aplicativos desenvolvidos para o Ginga-J não serão reproduzidos nas TVs com o Ginga argentino. “Nós podemos ficar isolados com o Java, porque o conteúdo brasileiro pode não ser lido em outros países”, diz Barbosa, da EBC.

Para Soares, o criador do Ginga, a definição sobre a opção de instalar somente o Ginga-NCL nos aparelhos deve sair em breve. “Do ponto de vista técnico, o NCL tem os mesmos recursos que o Java”, diz o pesquisador. “É sempre bom ter opções, mas quando isso significa pagar mais é preciso avaliar se vale mesmo a pena.”

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