Enquanto TVs com Ginga não se popularizam, universidades preparam lojas e desenvolvedores aguardam mercado “acontecer"

Os desenvolvedores de aplicativos podem ajudar o Ginga , sistema de interatividade na TV digital, a enriquecer as TVs com conteúdo, independentemente das estratégias das emissoras comerciais . Por meio de lojas virtuais de aplicativos, similares às encontradas em smartphones e tablets, desenvolvedores poderão oferecer seus aplicativos, pagos ou gratuitos, a milhões de pessoas que comprarem novas TVs a partir do ano que vem, quando 75% dos novos modelos sairão de fábrica com o Ginga.

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Aplicativos, como o de Twitter desenvolvido pela Totvs, poderão ser oferecidos pela web ou lojas integradas ao Ginga
Claudia Tozetto
Aplicativos, como o de Twitter desenvolvido pela Totvs, poderão ser oferecidos pela web ou lojas integradas ao Ginga
O Ginga foi criado, inicialmente, para permitir que os espectadores tivessem acesso a conteúdos como notícias, redes sociais e informações sobre o clima junto com a programação, por meio do sinal digital . Contudo, uma nova versão, criada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Universidade Federal da Paraíba (UFPB), permite que os usuários também instalem aplicativos na TV por meio da internet. “Os desenvolvedores poderão distribuir aplicativos para Ginga para TVs e celulares”, diz Luiz Fernando Gomes Soares, pesquisador da PUC-Rio e criador do Ginga.

Apesar de não se tratar de uma novidade, as lojas de aplicativos em TVs começaram a se popularizar há pouco tempo. Fabricantes de TVs com conexão a internet , como Samsung e LG, apostam em um sistema próprio para oferecer aplicativos por meio dos televisores. As empresas, no entanto, mantêm controle sobre a loja e, até o momento, só oferecem aplicativos de empresas parceiras. Atualmente, é possível acessar o YouTube, Netflix e diversas redes sociais por meio das TVs conectadas. Algumas dessas fabricantes permitem que os desenvolvedores submetam aplicativos à loja.

Sticker Center, loja de aplicativos do Astro TV, ainda tem poucas opções
Claudia Tozetto
Sticker Center, loja de aplicativos do Astro TV, ainda tem poucas opções
Poucos aplicativos

As lojas de aplicativos do Ginga, por outro lado, ainda não oferecem muitas opções, em parte por conta da demora na adoção do sistema em televisores da maioria das marcas oferecidas no País. Somente a partir do ano que vem a maior parte das TVs fabricadas no Brasil terá o Ginga , e esse número aumentará até 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil.

A Totvs, que desenvolveu um Ginga próprio chamado Astro TV e o licencia para fabricantes, criou sua própria loja de aplicativos chamada Sticker Center em agosto de 2010. “É possível ver todos os aplicativos disponíveis e acessar uma tela que mostra só aqueles que já foram instalados”, diz David Brito, diretor de tecnologia da Totvs.

A navegação no Sticker Center é feita com o controle remoto e, atualmente, os espectadores podem encontrar aplicativos da Climatempo (com informações sobre metereologia), Banco do Brasil (com consulta de saldos e extratos por meio da TV), e sites de comércio eletrônico, como Extra e Walmart. Estes últimos só mostram promoções, mas não permitem fazer compras. “Ainda estamos desenvolvendo a parte de segurança e integração com sistemas de pagamento”, diz Emerson Luiz, engenheiro da Totvs.

Em outubro de 2011, a Totvs também liberou o kit de desenvolvimento de aplicativos (SDK) para o Sticker Center. Os desenvolvedores podem baixar o kit gratuitamente por meio do site da Totvs e escrever os aplicativos com base na linguagem NCL ou Java. Porém, cinco meses após o lançamento do SDK, nenhum aplicativo de desenvolvedores independentes está disponível no Sticker Center. “Ainda estamos trabalhando só com os parceiros, mas temos alguns aplicativos em fase de testes”, diz Brito.

Presente em apenas três modelos de televisores da Semp Toshiba e dois modelos de set-top boxes, o Sticker Center não pode ser acessado em TVs que não venham com o recurso de fábrica. Segundo Brito, as TVs não suportam que o software seja atualizado para uma versão que contenha a loja de aplicativos. “Nunca será possível instalar um aplicativo nessas TVs”, diz Brito.

Web oferece opções

Outras lojas de aplicativos para Ginga, desenvolvidas por universidades, também podem ser acessadas por meio do navegador web de TVs conectadas. Um exemplo é o Clube NCL, um site que reúne aplicativos criados por desenvolvedores na linguagem NCL ou Java (ambas são suportadas pelo Ginga). Em funcionamento há três anos, a loja tem 49 aplicativos e pode ser acessada por meio do navegador web existente em TVs com conexão com a internet. Na loja, os usuários navegam nas categorias de aplicativos e podem baixá-los para TVs com Ginga, desde que o sistema permita.

Clube NCL, criado pela PUC-Rio, têm 49 aplicativos para Ginga em português
Reprodução
Clube NCL, criado pela PUC-Rio, têm 49 aplicativos para Ginga em português
“Os aplicativos funcionam em qualquer TV que use o Ginga de acordo com o padrão, mas nem todos seguem”, diz Soares, da PUC-Rio. Em TVs com Ginga diferente do padrão, só é possível baixar aplicativos a partir de uma loja integrada acessada por meio do próprio sistema.

O Clube NCL só aceita aplicativos com licença Creative Commons, ou seja, que possam ser baixados de graça por qualquer pessoa e, inclusive, modificados por outros desenvolvedores.

A equipe do Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital (Lavid), da UFPB, também prepara uma loja virtual de aplicativos para Ginga, que deve ser lançada até a metade do ano. Similar ao Clube NCL, ela poderá ser acessada pela internet e oferecerá aplicativos gratuitos, criados por desenvolvedores de todo o País. “Vamos começar os testes ainda este mês e consideramos até propor às emissoras que transmitam os aplicativos”, disse Alan Lívio, um dos responsáveis pelo projeto da loja no Lavid. O projeto reúne outras instituições, como Universidade Federal do Pará e Rede Nacional de Pesquisa (RNP).

Devagar e sempre

Após ver o Ginga fora dos planos de investimento das emissoras e das fabricantes de TV e outros dispositivos por tantos anos, os desenvolvedores aguardam o efeito da portaria interministerial que obriga o uso do Ginga em 75% das TVs em 2013. “O Ginga é interessante e oferece boas perspectivas para este ano e o próximo. Tudo ainda é incerto, mas há possibilidades”, diz Carlos Fernando Gonçalves, professor da pós-graduação em Engenharia da Computação da Faculdade de Tecnologia (Fatec) de São José do Rio Preto (SP). Até hoje, Gonçalves criou seis aplicativos, entre eles uma tabela que mostra informações sobre campeonatos, durante a transmissão de um jogo de futebol.

No Lavid, além de trabalhar na nova loja virtual, os pesquisadores também desenvolvem aplicativos. Um deles, chamado Ginga Hero, já está disponível no Clube NCL, loja de aplicativos da PUC-Rio para o Ginga. O jogo musical, nos moldes do Guitar Hero ou Rock Band, permite que o usuário use o controle remoto para interagir com o game. Segundo Lívio, do Lavid, o aplicativo permite, inclusive, a integração com programas de TV. “É uma aplicação interessante que canais de música poderiam usar para permitir a interação com os clipes que passam na TV”, diz Lívio.

Apesar de diversas iniciativas em todo o País, os investimentos necessários para desenvolver aplicativos para o Ginga, dizem os desenvolvedores, ainda são altos. Isso restringe a participação de profissionais independentes neste mercado. “Hoje ainda não há espaço para desenvolver, mas talvez o mercado esteja muito bom daqui a um ano”, diz AndréTerra, diretor de marketing da Intacto, empresa que desenvolve aplicativos. Com a obrigatoriedade do Ginga e, futuramente, o aumento de casas que tenham televisores ou set-top boxes com o sistema embarcado, o mercado para aplicativos pode se tornar uma nova esperança para os desenvolvedores brasileiros. E também para o Ginga.

*Colaborou Augusto Garcia.

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