Para evitar que futuro do sistema para TVs dependa de emissoras comerciais, TV Brasil aposta em serviços públicos

Quando André Barbosa, hoje superintendente de suporte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), começou a discutir o projeto da TV digital no Brasil em 2004, ele acreditava que, poucos anos depois, brasileiros das regiões mais distantes do País assistiriam programas de TV em alta definição. Ele também acreditava que as TVs receberiam informações sobre serviços públicos, como aposentadoria e prevenção de doenças, por meio de um sistema interativo. “A TV tem um papel importante no Brasil e precisa fazer parte do mundo informatizado”, diz Barbosa.

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André Barbosa, da EBC, tem o desafio de tomar a frente do projeto de ampliar conteúdo para Ginga na TV Brasil
Magno Mota/Divulgação
André Barbosa, da EBC, tem o desafio de tomar a frente do projeto de ampliar conteúdo para Ginga na TV Brasil
Oito anos depois de seu envolvimento no projeto, nem todas as TVs captam o sinal digital no Brasil, muito menos recebem aplicativos de conteúdo oferecidos pelas emissoras. O motivo é a falta do Ginga, sistema de interatividade para TV digital, na maior parte das TVs vendidas no País.

O problema será resolvido em 2013, quando a maior parte das TVs deverá sair de fábrica com o Ginga instalado. Mas, mesmo depois da troca das TVs por modelos com Ginga, outro problema ameaça o uso de interatividade no Brasil: a falta de conteúdo.

TV pública toma frente

Este foi um dos desafios que Barbosa assumiu há dois meses, quando chegou à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável pela operação das emissoras de TV públicas, como a TV Brasil. Em seu projeto, Barbosa lidera uma equipe que desenvolve aplicativos com informações sobre a programação e também acesso a serviços públicos do governo. A TV Brasil transmitirá estes aplicativos junto com sua programação. Assim, quem tiver uma TV com Ginga nas cidades atendidas pela TV Brasil, poderá usar os recursos. “A TV pública será a grande fomentadora do Ginga”, diz Barbosa.

Com o conteúdo pronto, Barbosa pretende realizar até junho os primeiros testes com espectadores. “Vamos fazer um projeto-piloto em três cidades próximas à Brasília”, diz Barbosa. O governo fornecerá os conversores de TV digital com Ginga (set-top boxes) de graça para os participantes e, em parceria com a Telebras, eles serão conectados a internet. A conexão é necessária para usar aplicativos que dependem do envio de informações para a emissora. Durante os testes, técnicos da EBC avaliarão se as pessoas usam e entendem como funcionam os aplicativos desenvolvidos para Ginga.

Busca e bate-papo na TV

Entre os conteúdos que a TV Brasil poderá transmitir no futuro estão oito aplicativos criados pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), localizado em Campinas (SP), a partir de um investimento de R$ 16 milhões realizado em 2008 pelo Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel). “Alguns aplicativos oferecem dicas de saúde, como prevenção da dengue, e outros permitem buscar vagas de emprego e até bater papo”, diz José Orfeu, pesquisador do CPqD.

Em março, o CPqD entregou os primeiros aplicativos para o Ministério das Comunicações (Minicom) e os disponibilizou em seu site – os demais serão entregues até maio. “Temos um aplicativo que permite marcar consultas, mas para funcionar é preciso integrá-lo com o sistema do órgão em questão, neste caso o Sistema Único de Saúde”, diz Orfeu. Eles dependem de outros sistemas não estão prontos para uso, mas poderão ser melhorados por qualquer desenvolvedor.

Segundo Barbosa, da EBC, os pesquisadores do CPqD e da EBC ainda não conversaram a respeito dos aplicativos desenvolvidos para Ginga, mas o trabalho feito pelo CPqD pode ajudar a acelerar o desenvolvimento de conteúdo interativo. Com a TV pública oferecendo aplicativos, Barbosa espera que o recurso se popularize entre os espectadores, para que eles mesmos cobrem o uso da tecnologia pelas emissoras comerciais.

Em busca de retorno

Atualmente, somente o SBT, entre as maiores emissoras comerciais no Brasil, transmite conteúdo interativo 24 horas por dia. A maioria dos recursos oferecidos permite navegar por notícias, fotos e curiosidades sobre os atores e participar de enquetes – este último recurso só funciona em TVs conectadas a internet, porque depende do envio de informações para a emissora. “As aplicações de interatividade das emissoras ainda são muito pobres. Há 10 anos já havia recursos superiores ao que elas oferecem hoje”, diz Luiz Fernando Gomes Soares, pesquisador do departamento de informática da PUC-Rio e criador do Ginga.

SBT é a única emissora que transmite conteúdo interativo para Ginga 24 horas por dia
Claudia Tozetto
SBT é a única emissora que transmite conteúdo interativo para Ginga 24 horas por dia
Os projetos das emissoras andam devagar , mas elas dizem estar interessadas no novo canal de interação com os espectadores. “Não estamos com tanta pressa, porque as pessoas não têm conexão com a internet e, se existe a conexão, as aplicações ficam muito mais ricas”, diz Roberto Franco, diretor de rede e assuntos regulatórios do SBT e presidente do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD).

Primeira emissora a transmitir contéudo interativo 24 horas por dia, o SBT está prestes a lançar a segunda versão do portal, que terá recursos específicos para cada programa. “Vamos ampliar a experiência e, em três passos, o espectador chegará ao conteúdo do programa que ele procura”, diz Franco.

No caso de outras emissoras, o conteúdo interativo é transmitido apenas em horários específicos, já que está vinculado à programação. Dessa forma, o espectador só consegue acessar o conteúdo se o ícone de interatividade (a letra "i" no canto superior direito) aparecer no vídeo. No caso da Globo, os principais conteúdos são transmitidos nos horários das novelas, quando os espectadores podem ver fotos dos atores, notícias e curiosidades sobre os personagens. Durante a transmissão de alguns jogos de futebol, é possível ver dados sobre a partida e a tabela de classificação dos times. A Record também oferece acesso a notícias em paralelo à programação.

Segundo Valdecir Becker, doutor em TV digital pela Universidade de São Paulo e pesquisador na área há 10 anos, as emissoras usam apenas 20% dos recursos de interatividade do Ginga. Elas desenvolvem pouco conteúdo interativo, porque ainda não acharam uma forma de “vender” este novo recurso para os anunciantes. Para Becker, as emissoras precisariam gastar, no mínimo, R$ 500 mil ao mês para manter uma equipe dedicada ao desenvolvimento de conteúdo interativo para TV digital. “É um investimento alto que precisa ser pago, mas elas ainda não encontraram um modelo de negócios para a interatividade”, diz Becker.

Outro problema, segundo o pesquisador, está na potencial concorrência do conteúdo interativo com a publicidade veiculada durante os intervalos comerciais. Nesta pausa, em vez de assistir aos anúncios, o espectador tem a possibilidade de navegar por notícias e fotos relacionadas ao programa que está assistindo. “Elas terão que pensar em alternativas para ganhar dinheiro sem manter o modelo atual de grade de programação”, diz Becker.

Governo pode financiar interatividade

Apesar dos esforços do governo para garantir que o Ginga seja embarcado nas TVs, o governo não pretende obrigar as emissoras a desenvolver aplicações interativas para garantir a sobrevivência do Ginga no futuro. “Não está em nosso horizonte tornar o uso de interatividade na programação obrigatório, mas estamos conversando com calma com as emissoras para encontrar um modelo de negócios”, disse Cezar Alvarez, secretário-executivo do Ministério das Comunicações (Minicom), em entrevista ao iG .

Embora focado em seu projeto de interatividade na EBC, Barbosa acredita que, para o Ginga dar certo, as emissoras comerciais também precisam participar - elas dominam a maior parte da audiência em todo o País. Recentemente, ele entregou uma proposta à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) em que sugere que o governo federal direcione parte de sua verba publicitária para anúncios veiculados em conteúdo para o Ginga, de modo a estimular as emissoras comerciais.

“A interatividade não traz dinheiro novo ainda, só investimentos, então seria uma forma de estimular as emissoras e agências a testarem anúncios nesta nova plataforma”, diz Barbosa. O projeto prevê que o governo destine 1% de toda a verba prevista para publicidade (inclusive de grandes empresas públicas, como Caixa Econômica Federal e Petrobras) para conteúdos desenvolvidos para o Ginga. “A proposta precisa da aprovação da ministra Helena Chagas, da Secom, então ainda não há nada definido”, diz Barbosa.

Enquanto a interatividade ainda traz resultados pouco expressivos em audiência, o que torna difícil justificar o investimento aos anunciantes, Franco, do SBT, afirma que o melhor argumento é a inovação. “As empresas não tiram proveito da audiência, mas associam a sua marca a uma plataforma inovadora, o que aumenta o prestígio entre os consumidores”, diz Franco. Até agora, três anos após o lançamento do portal de interatividade, o SBT conseguiu apenas o patrocínio da Caixa Econômica Federal.

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