Notícias
03/09 - 19:35hs
Uma SLR com algo mais
A Nikon D90 é a primeira câmera "Single Lens Reflex" capaz de gravar vídeos, recurso que abre um imenso leque de possibilidades de uso que podem sacudir o mercado
David Pogue / New York Times
Se você a visse jogada em um canto, nunca iria adivinhar que a nova Nikon D90 é uma câmera impressionante, que pode mudar o mercado. Ela se parece com qualquer outra câmera SLR (single-lens reflex) intermediária: grande, preta, muito mais compacta que um modelo profissional, mas muito maior e mais pesada que uma câmera compacta. Uma SLR vem com uma alça para pendurá-la no ombro porque precisa de uma.
O que você ganha por ficar parecendo um turista é o potencial para fotos absolutamente estonteantes. Graças a fatores como lentes intercambiáveis de alta qualidade, um sensor de luz imenso e um circuito de alta velocidade que reduz o atraso do obturador a zero, as fotos que você tira com uma SLR geralmente deixam as de uma câmera compacta parecendo um trabalho de amador.
A nova D90, que chega às lojas nos EUA em setembro, é uma SLR soberba. Por US$ 1.000 (ou US$ 1.300 com uma nova lente estabilizada de 18-105 mm), ela tem preço convenientemente entre a D300 (o modelo profissional maior, mais pesado e com corpo metálico da Nikon, que custa US$ 1.650 online) e a intermediária D80 (US$ 720 online), que logo será descontinuada. Os preços levam em consideração apenas o corpo da câmera, sem as lentes.
As especificações e recursos também ficam entre os dois modelos mencionados. A D90 tem um sensor CMOS de 12.3 megapixels que mede cerca de 2.9 centímetros na diagonal (24 por 16 mm), só "um tiquinho" menor que nas câmeras profissionais. Quando é ligada (ou quando o usuário desejar) a D90 dá uma "sacudida" no sensor para remover qualquer poeira que tenha entrado na câmera durante uma troca de lentes, evitando pontos escuros e manchas nas fotos.
Esta câmera também é rápida como um foguete. O auto-foco é praticamente instantâneo, o atraso do obturador (o intervalo entre você apertar o botão e a imagem ser capturada) é zero e você consegue tirar 4.5 fotos por segundo enquanto mantiver o botão pressionado.
Há alguns novos recursos: um esperto calendário que permite a você selecionar fotos por data, direto na câmera, um efeito que simula a visão "esférica" através de uma lente olho de peixe, um conector para um receptor GPS externo que a Nikon vai lançar (para gravar as corrdenadas do local, processo conhecido como "geotagging", junto com as fotos), uma função que endireita horizontes tortos, auto-foco com reconhecimento de faces e por aí vai.
Mas nada disso é a grande novidade.
Se quiser uma dica, considere o recurso de "visão ao vivo" (que a Nikon chama de "Live View") da D90, que permite que você enquadre uma foto usando a incrivelmente nítida tela de três polegadas no corpo do aparelho. Claro, é assim que qualquer câmera compacta na face da Terra funciona, mas até a Olympys se tornar a pioneira neste sistema, há alguns anos atrás, as SLRs lhe forçavam a compor a cena usando um pequeno visor ótico. A tela era usada exclusivamente para rever as fotos já tiradas.
O desafio, em uma SLR, era descobrir o que fazer com o espelho lá dentro. Geralmente ele era usado para refletir a luz da lente para o visor. Ele só saía do caminho, expondo o sensor de imagem da câmera, no instante em que a foto era tirada. Para mostrar uma imagem "ao vivo" na tela, seria necessário deixar o espelho permanentemente fora do caminho, de forma que o sensor recebesse luz continuamente.
Isto é exatamente o que acontece quando você aperta o botão Live View na D90. Você ouve um "clique" - o som do espelho se movendo lá dentro - e a imagem aparece na tela. Agora você pode tirar fotos em ângulos que seriam impossíveis se tivesse que manter a câmera na altura dos olhos, e isso é mais pratico do que você pode imaginar. Você também pode usar o zoom para garantir o foco perfeito.
Claro que há um "porém". Quando o espelho sai do caminho do sensor, a D90 passa a usar um sistema de auto-foco mais lento, baseado na detecção de contraste. Às vezes podem ser necessários vários segundos para conseguir um bom foco no modo Live View. Mas não desdenhe o Live View. Ele é, afinal, a chave para a verdadeira inovação da D90, o segredo que a transforma em um tipo completamente novo de instrumento. Pronto?
A D90 é a primeira SLR no mundo que pode gravar vídeo.
E vídeo em alta definição. Estonteante, vívido, em widescreen, com resolução de 1024 x 720 pontos a 24 quadros por segundo, com as cores e nitidez que só uma câmera SLR pode oferecer. Evidentemente, algum engenheiro teve a idéia: "Ei, já estamos mostrando vídeo. Isto é, afinal, a essência do Live View. Talvez possamos descobrir uma forma de gravá-lo!".
A primeira reação da maioria das pessoas é: "Dã, minha câmera de R$ 200 que comprei há anos já gravava vídeo, qual a novidade?". Ou talvez: "Que inútil, quem vai querer gravar vídeo em uma câmera de US$ 1.000?". Ou, no melhor dos casos: "É, talvez possa ser útil gravar um pouco de vídeo enquanto estou fotografando por aí". Mas há algo muito maior aqui. Lembre-se: qualquer controle, efeito ou lente que pode ser usado para tirar fotos com a D90 também pode ser usado nos vídeos.
Pense em toda a liberdade que você ganha, liberdade que geralmente não está disponível em uma filmadora: controle sobre o foco, profundidade de campo e exposição, efeitos especiais como olho de peixe, imagens monocromáticas ou mais vívidas e excelente estabilização de imagem se você estiver usando lentes Nikon VR.
Mas isto é o que vai te deixar louco por ela: você agora pode ter uma filmadora com lentes intercambiáveis. Antes da D90, se você quisesse uma câmera de vídeo de alta definição com lentes removíveis, pagaria US$ 7.000 só pela câmera, e entre US$ 7.000 e US$ 20.000 por cada lente.
Nesta câmera, entretanto experimentei uma lente olho de peixe de US$ 500 da Nikon e filmei um panorama completo de 180 graus sem girar a câmera. Com uma lente macro, filmei uma abelha, enorme e nítida como em um documentário da National Geographic.
Com uma enorme lente telefoto, sentado na arquibancada em um torneio de tênis, eu filmei o que outras pessoas só conseguiam capturar como imagens estáticas (veja exemplos em nytimes.com/personaltech). E o anel de zoom lhe dá muito mais controle do que o encontrado em uma filmadora típica. Por exemplo, você pode dar um zoom rápido de 1x a 10x em meio segundo. Cineastas independentes, alegrem-se!
Mas antes que você coloque a D90 em sua lista de presentes, um aviso: ela não é uma filmadora. Sua tela não vira, então não há forma fácil de filmar a si mesmo. Há um microfone e alto-falante, mas o som é mono. E vídeo no formato AVI, embora seja facilmente editável em programas como o iMovie e Movie Maker, come uma quantidade absurda de espaço no cartão de memória: cerca de 400 megabytes por minuto. Felizmente, a câmera acomoda cartões SD do tamanho que você quiser. Um cartão de 32 gigabytes, por exemplo, é suficiente para 80 minutos de vídeo.
Uma cena individual não pode durar mais que cinco minutos em alta-definição, ou 20 minutos em definição padrão. Mais que isso e o sensor de imagem esquenta demais. Então não espere filmar a peça de seus filhos na escola com esta câmera.
Mas o pior de tudo é que o foco automático não funciona com vídeo. Você pode usá-lo antes de começar a filmar, ou usar o anel de foco manual enquanto filma. Mas não são soluções ideais: se a distância entre você e o que está sendo filmado mudar, momentos fora de foco são inevitáveis.
Em outras palavras, a Nikon D90 tem benefícios e defeitos nunca vistos em nenhum outro tipo de equipamento para gravação de imagens. Mas sua criatividade como cinegrafista pode ser estimulada pelo desafio causado pela falta de auto-foco, a duração limitada das cenas e o enorme tamanho dos arquivos.
Por outro lado, a D90 traz uma quantidade incrível de controles de imagem, lentes intercambiáveis por uma fração do preço comumente praticado no mercado de vídeo, um sensor gigantesco que faz bons vídeos em condições que tornariam uma filmadora convencional inútil e a conveniência de capturar clipes curtos e nítidos sem ter de carregar uma segunda câmera. É engraçado que isso venha da Nikon, uma companhia com praticamente nenhuma experiência em câmeras de vídeo, e não, digamos, que uma gigante do mercado de filmadoras como a Sony ou a Canon.
Mas quem se importa? Mesmo com suas limitações de modelo "1.0", a D90 é uma câmera fotográfica impressionante e uma filmadora muito interessante. Vale a pena dar uma olhada: a era das SLR com vídeo começou.
› Você tem mais informações? Envie para Minha Notícia, o site de jornalismo colaborativo do iG

