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20/10 - 18:37hs
O Android está entre nós
O primeiro "celular do Google" finalmente chega ao mercado (nos EUA). O software brilha, mas o hardware tem arestas a aparar e a cobertura de rede é fraca demais
David Pogue / New York Times
O “celular do Google” é real, e finalmente está entre nós (cuidado para não ser atingido por uma rolha de champanhe). Na verdade, para ser preciso, não há nada chamado “o celular do Google”. Você não pode comprar “o celular do Google”, assim como não pode comprar “o PC da Microsoft”. O Google faz apenas o software, batizado de Android, e é tarefa dos fabricantes construir os aparelhos que irão rodá-lo.
O que chega ao mercado, por enquanto apenas nos EUA, neste dia 22 de outubro é um “celular do Google”, o primeiro de toda uma linhagem: é o T-Mobile G1 (US$ 180, com um contrato de dois anos com a operadora de telefonia T-Mobile). Outros com certeza virão nos próximos meses.
O G1 foi obviamente pensado como um concorrente direto do iPhone. Determinar seu sucesso nesta missão, entretanto, é algo complicado, já que ele depende da soma de três partes. O Google criou o software, a fabricante taiwanesa HTC criou o aparelho e a operadora T1 fornece a rede de telefonia. Portanto, precisamos fazer análises separadas de cada uma delas.
O software
O sistema operacional Android parece, se comporta e funciona de forma bastante parecida com o sistema do iPhone. Não é tão consistente ou atraente, mas foi projetado de forma inteligente e, para uma versão 1.0, é surpreendentemente completo. Em qualquer caso, é refinado o suficiente para dar a seu outro concorrente, o Windows Mobile, um completo de inferioridade do tamanho da Austrália. Espero que a Microsoft tenha bons terapeutas.
O botão Home abre uma área de trabalho em miniatura, com uma imagem de fundo à sua escolha. Uma “gaveta” que desliza pela tela armazena os ícones de todos os seus programas. Você pode arrastar seus favoritos para o desktop para acesso rápido, ou organizá-los em pequenas pastas. Você também pode colocar playlists. “widgets”, páginas da web ou “cartões de visitas” de seu livro de endereços no desktop, exatamente como em um “computador de verdade” (e o G1 pode ser considerado um).
A tela inicial (Home) pode ser rolada lateralmente para revelar outras partes do desktop. Você vai precisar deste espaço extra assim que começar a baixar programas do Android Market. Como a App Store no iPhone, este “mercado” é um recurso importantíssimo e rico em possibilidades: à medida em que programadores de todo o mundo criam novos programas, a maioria deles gratuitos, seu “telefone” se transformará em algo muito mais flexível – sem falar na possibilidade de adicionar recursos ao aparelho ausentes no software original de fábrica.
Melhor ainda, o Google insiste que sua loja será completamente aberta. Ao contrário da Apple, software que vá contra os interesses comerciais da “nave mãe” não será rejeitado. Por exemplo, a Apple rejeita programas que permitam fazer chamadas através da internet (ou seja, aplicativos VoIP, como o Skype e similares), o que evita que você gaste minutos de seu plano de telefonia. O Google e a T-Mobile juram que irão permitir programas deste tipo.
Uma vantagem crucial sobre o iPhone: um botão “Menu”. Ele chama um painel com botões grandes para funções relacionadas ao que você está fazendo. É o equivalente a clicar com o botão direito do mouse em seu PC.
Este painel oferece comandos para colocar uma chamada em espera, cortar o som ou ajustar o volume quando você está falando ao telefone e opções como “arquivar” e “deletar” quando você está lendo e-mail ou “rotacionar” e “compartilhar” quando você está lidando com fotos. Se você conseguir se lembrar de usar o botão Menu, raramente perder tempo “caçando” o comando que precisa naquele momento.
O Android vem com vários programas embutidos, como lista de contatos, calendário, música, Google Maps, um visualizador de vídeos do YouTube e programas para bate-papo e envio de mensagens de texto. O navegador web usa toda a belíssima tela de 3.2 polegadas (com resolução de 240 x 320 pixels), mas infelizmente não há suporte para vídeos e animações em Flash. Pior ainda, você vai perder as contas de quantas vezes terá de aproximar e afastar a página para conseguir ler e navegar pelos sites, e os botões + e – na tela são muito menos convenientes de usar que o gesto de “pinçar” a página usado no iPhone.
Há um punhado de defeitinhos. Por exemplo, você vai ter de lidar com dois programas de e-mail diferentes: um para as contas do GMail, um para contas em outros servidores. O programa do GMail consegue ver arquivos anexos nos formatos do Microsoft Office, o outro não. E quando você usa o programa “genérico”, apertar o botão “Reply” joga o cursor para o campo de destinatário (que já está preenchido), em vez de no corpo da mensagem (o que seria bem mais útil).
Você não pode fechar uma mensagem e ler outra a não ser que retorne para a caixa de entrada antes. Também não há o “Visual Voicemail” - recurso do iPhone onde os recados de sua caixa postal de voz aparecem em uma lista, como em sua caixa postal de e-mail - ou compatibilidade com servidores Microsoft Exchange, crucial para empresas e usuários corporativos.
Mas onde o Android realmente fracassa é no quesito “iPod”. Não há um programa como o iTunes que transfira de uma só vez suas fotos, música e vídeo para o telefone. Você tem que arrastar o que quiser manualmente para o aparelho após conectá-lo através de um cabo USB a seu Mac ou PC. Mais uma aporrinhação que toma tempo.
Também não há uma loja online para música, séries de TV e filmes. A T-Mobile fechou um acordo com a loja de músicas da Amazon, o que já é um começo, mas você só pode baixar músicas quando está conectado a um ponto de acesso Wi-Fi. E “fora da caixa” o Android é simplesmente incapaz de tocar qualquer tipo de vídeo, embora exista um programa para isso no Android Market.
Alguns dos recursos do Android vão agradar aqueles que resistiram ao canto de sereia do iPhone: discagem por voz, mensagens MMS, gravação de áudio e a habilidade de transformar qualquer música MP3 em um ringtone estão presentes – e você não paga nada a mais por isso.
Por fim, os que odeiam o Google não vão querer um telefone com o Android. Uma conta do GMail é necessária para ativação e sua agenda e livro de endereços só podem ser sincronizados com o serviço online de agenda e livro de endereços do Google.
O telefone
O G1 tem Wi-Fi, GPS (mas sem instruções “turn-by-turn” que indicam o caminho passo-a-passo) e uma câmera medíocre (para fotos, ele não grava vídeo). As teclas Send, End e Back, junto com o pequeno “trackball” para rolar páginas, tornam o G1 mais flexível que o iPhone, mas também mais complicado.
A grande notícia é o teclado físico. Como nos aparelhos “Sidekick”, também da T-Mobile, basta um empurrãozinho e a tela “salta” para frente para revelar um pequeno teclado escondido debaixo tela, para alívio daqueles que odeiam teclados virtuais (como o do iPhone).
Mas nem tudo é alegria. As teclas são pequenas e não se movem muito quando pressionadas. Pior ainda, é necessário girar o telefone em 90 graus sempre que você precisar digitar texto. Isto logo se torna um incômodo.
Também há uma bateria removível. Isto é uma boa notícia: com o celular rodando a “todo vapor” (com Wi-Fi, Bluetooth e GPS ligados e em uso, por exemplo), ela se esgota em cerca de três horas e meia de uso contínuo.
Infelizmente, o teclado e a bateria removível tornam o telefone muito mais grosso, pesado e muito menos sexy que o iPhone. Ninguém olha para o G1 e pensa “Cara, eu tenho que ter um desses”.
E é estranho que, embora o aparelho tenha um sensor de rotação como o iPhone, ele não esteja “ligado” à tela. Girar o aparelho em 90° para observar melhor aquela foto ou página da web não rotaciona a imagem. É necessário fazer isso manualmente, usando um menu ou puxando o teclado, o que não faz sentido.
Por fim, não há um plugue para fones de ouvido (Como assim??). Se você quiser usá-los, precisará comprar e carregar sempre consigo um adaptador que é plugado à porta USB.
O G1 tem pouca memória interna para fotos, música e programas. Em vez disso, usa-se um cartão MicroSD (um cartão de 1 Gbvem com o aparelho). Para igualar a capacidade de armazenamento de um iPhone de 8 GB (que custa US$ 200), você precisa de um cartão MicroSD de 8 GB (que custa cerca de US$ 30). Se quiser igualar um iPhone de 16 GB... não dá. Ainda não existem cartões MicroSD nesta capacidade.
A rede
Os planos de telefonia para o G1 começam em US$ 55 por mês com uso ilimitado de dados e 300 minutos de chamadas. O problema é que a T-Mobile tem uma das redes mais fracas entre todas as operadoras nos EUA. Os usuários do iPhone reclamam da rede 3G de alta velocidade da AT&T, mas a rede 3G da T-Mobile cobre apenas 19 áreas metropolitanas nos EUA, comparada às 280 àreas cobertas pela concorrente. E fora destas áreas, a navegação na web é dolorosamente lenta – coisa de vários minutos para carregar uma página.
Mas aqui o “mantra” do Android – “Aberto” - pode ser o salvador do G1. Depois de 90 dias, é possível pedir à T-Mobile um código que desbloqueia o aparelho e permite seu uso em qualquer rede GSM, como a da AT&T ou as redes de operadoras na Europa e até no Brasil.
Portanto, este é o boletim do G1: Software, A-. Telefone, B-. Rede, C. Mas não se deixe enganar pela impressão inicial e mantenha as esperanças: embora o “grandalhão” T-Mobile G1 seja o primeiro telefone Android, ele não será o último. Telefones Android virão em breve em todas as formas e tamanhos, e em funcionarão em todos os tipos de redes.
Mesmo com tantos fabricantes, é improvável que qualquer um deles atinja a beleza, simplicidade e pureza de design do iPhone. E é certo que nenhum deles irá inspirar a criação de um universo de acessórios – adaptadores para carros, estojos protetores, sistemas de alto-falantes e por aí vai – que tornam o iPhone divertido de usar.
Ainda assim, o sistema Android em si é um sucesso. Claramente há um mercado considerável para telefones que ofereçam a facilidade de navegação e divertida interface de toque de um iPhone, sem uma filosofia tão extrema de minimalismo quanto aos recursos. Se você é parte desde mercado, então deve dar boas vindas à era do Android com os braços, olhos e ouvidos bem abertos.
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