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09/03 - 09:14hs
Twitter ao gosto do freguês
Não se prenda à "regras": não existe um "jeito certo" de usar um dos serviços mais populares na internet. A única regra é "faça o que você achar melhor".
David Pogue / New York Times
Escrever pode ser uma tarefa solitária, mas não quando você escreve uma coluna sobre tecnologia. O feedback dos leitores vem tão depressa, por e-mail, blogs e comentários na internet -- que é quase como um espetáculo com performance em tempo real.
Durante muito tempo, meus leitores ficaram me pedindo para dar uma olhada numa coisa chamada "Twitter". Eu desconversava, porque me parecia mais uma destas perdas de tempo online da moda. E-mail, blogs, chat, RSS, Facebook... quem tem tempo para acompanhar mais uma fonte de ruído na internet?
É verdade, não há nada como o Twitter. É um site onde você pode transmitir mensagens bem pequenas -- 140 caracteres no máximo -- para qualquer um que escolha recebê-las. É como uma mistura entre um blog e uma sala de bate-papo. Seus "seguidores" podem ser seis colegas do tempo do colégio, ou, se você é o Presidente Barack Obama, 254.484 de seus fãs mais familiarizados com a tecnologia. Aliás, ele não mandou uma mensagem sequer via Twitter desde que tomou posse. Cadê as prioridades?
Da mesma forma, você pode "seguir" outras pessoas. Eventualmente, sua tela se enche com uma enorme lista de mensagens delas -- piadas, recomendações de links, pensamentos do dia, e um monte de coisas do tipo "o que eu estou fazendo agora".
Ainda assim, eu não gostava dessa coisa de ego. Seu perfil mostra quantos seguidores você tem, como se isso fosse algum tipo de medidor de relevância. Até que, um dia, eu vi o Twitter em ação.
Eu estava servindo no comitê responsável por conceder o financiamento para alguns projetos, e vi um dos juízes perguntar a seus seguidores se determinado projeto já havia sido tendado antes. Em 15 segundos, seus seguidores responderam com links para a informação que ele precisava. Nenhuma mensagem de e-mail, ligação telefônica ou site na web poderia ter atingido o mesmo efeito. É só uma questão de tempo até que um dos concorrentes do "Show do Milhão" use o Twitter como fonte de ajuda.
Convencido, criei uma conta gratuita (com o nome pogue) e entrei na roda.
Não é fácil entender o que está acontecendo. A maior parte das pessoas é prestativa e fica feliz em ajudar. Há, entretanto, alguns "esnobes do Twitter".
Um cara me criticou por fazer "perguntas bobas". Outros me criticaram por "infrações" como não seguir um número suficiente de pessoas, escrever demais sobre assuntos não-técnicos, ou mandar mensagens de mais, ou de menos.
Determinado a pegar prática, procurei no Google por "Twitter para iniciantes". Encontrei 927 mil resultados. Claro, você consegue uma quantidade gigantesca de resultados quando procura por qualquer coisa no Google, e é por isso que considero um golpe baixo quando jornalistas usam esse número para provar um ponto de vista. Mas vamos voltar ao assunto.
A maioria destes artigos é uma lista de regras. Uma diz para usar o Twitter para divulgar seu negócio, a outra diz para nunca fazer isso. Uma recomenda escrever sobre o que você está fazendo neste exato momento (afinal, a caixa de texto diz "O que você está fazendo?"); outra diz que é melhor não.
Uma destas listas de regras diz: "Agregue valor. Construa relações. Pense a LONGO prazo". Estamos falando do Twitter ou de uma candidatura ao senado?
Minha confusão continuou até que, em uma conferência, encontrei Evan Williams, executivo-chefe e co-fundador do Twitter. Falei com ele sobre todas as regras, todos os conselhos, todas as reclamações de "você está fazendo errado". Disse a ele que a tecnologia era interessante, mas que todos os resmungões e ditadores estavam acabando com meu entusiasmo.
Ele balançou a cabeça -- com certeza já tinha ouvido tudo isso antes -- e me disse a verdade sobre o Twitter: todos estão errados. Ou, colocando de outra forma: todos estão certos.
Confuso? O Twitter, em outras palavras, é exatamente o que você quer que ele seja. Pode ser uma ferramenta de negócios, um passa-tempo para adolescentes, um auxiliar em pesquisas, uma fonte de notícias -- não importa. Não há regras, pelo menos nenhuma que possa ser aplicada da mesma forma a todos.
De fato, Williams me disse que boa parte das tradições, etiqueta e até mesmo da terminologia do Twitter brotou dos próprios usuários, sem qualquer intervenção da companhia. Por exemplo, foram os usuários que inventaram o termo "tweet" para descrever as mensagens. A multidão começou a se referir aos colegas "twiteiros" usando atalhos como esse: @pogue. Logo, tal notação se tornou um padrão para identificação que o software agora reconhece. O público também inventou convenções como "RT,", que significa "re-tweet", ou seja, repassar algo que alguma outra pessoa disse no Twitter.
Se você me pedisse para escrever minha própria lista de "Regras do Twitter" -- documento número 927.001 no Google -- seria algo mais ou menos assim:
1. Não desdenhe o Twitter até você experimentá-lo. Claro, este conselho pode ser aplicado a qualquer coisa nessa vida. Mas me escute: nem o melhor artigo pode descrever o que você vai sentir quando experimentar o Twitter. Então faça isso. Se você achar que ele não presta pra nada, feche a janela e não volte. Tudo bem. Apesar de toda a publicidade, até o momento o Twitter ainda é, na maior parte, uma coisa para geeks e "early-adopters", aqueles que gostam de ser os primeiros a experimentar uma nova tecnologia.
2. Não use o site. Eu não podia acreditar que seis milhões de usuários corriam para a mesma página na web cada vez que queriam enviar ou ler tweets. E descobri que eles não fazem isso. Cerca de 70% deles usam programinhas gratuitos que ficam escondidos no canto da tela (ou rodam em seus celulares, especialmente iPhones) o dia todo. Eles tem nomes como Twitterfeed, Twhirl, Twitterific, Twitterfox, TweetDeck e por aí vai.
3. Você não tem que ler todos os tweets. É comum dar uma espiada no perfil de uma pessoa e ler: "Seguindo: 900 pessoas". Balela. Ninguém tem tempo para ler todos os tweets de mais que 30 pessoas. Pelo menos ninguém que tem o que fazer da vida. Claramente, estas pessoas lêem só as mensagens mais recentes, procuram só as interessantes ou usam o http://search.twitter.com para encontrar mensagens sobre assuntos específicos.
4. Você não tem que responder a todas as respostas. Se você tem muitos seguidores, vai receber um monte de respostas aos seus tweets. Felizmente, isto não é e-mail: ninguém espera que você responda a tudo.
5. Se você estiver confuso nessa história de respostas, não está sozinho. Se você responder a um dos meus tweets, posso responder a você de duas formas: com um tweet público, mas aí ninguém vai entender do que diabos estou falando (zé: talvez em Montana!! Hahaha!), ou uma Mensagem Direta particular. Mas nosso diálogo pode acabar aí: você não pode responder à minha mensagem direta a não ser que eu também esteja te seguindo. Segundo os criadores do Twitter, isso é uma medida anti-spam. Entendeu? Nem eu. A Twitter Inc. promete que irá consertar este e vários outros pontos confusos em seu serviço.
6. Use-o como quiser. Eu finalmente consegui aproveitar o poder do Twitter para meus próprios fins nefastos. Eu repasso piadas. Compartilho pequenos pensamentos e idéias que não rendem um post em blog ou artigo completo. Sigo links e acompanho amigos. E deixo de seguir quem é chato ou posta 50 mensagens por dia. E eu também faço perguntas à multidão. Na semana passada, eu estava escrevendo um script para um programa de TV, e precisava de um bom exemplo de um "filme de arte que uma babá adolescente não iria assistir de jeito nenhum". Meus seguidores instantâneamente dispararam uma enorme seleção de respostas hilárias: "Gandhi", "My Dinner with Andre", "The Red Ballon". Outras pessoas fazem propaganda de seus blogs, consolam umas às outras ou mandam notícias: o primeiro relato do avião que pousou no Rio Hudson veio via Twitter. A melhor foto também. Tudo é válido.
7. Não se importe com as regras. Incluindo as minhas. Use o Twitter do jeito que você quiser. Não deixe ninguém te dizer que "você está fazendo errado".
Ah, e uma última dica: quando você estiver precisando trabalhar, pode fechar o Twitter sem medo. Ele pode ser poderoso, útil, viciante e fascinante -- mas no final, ainda é uma baita perda de tempo na internet.
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