Na década de 1980, elas representavam cerca de 50% dos alunos de TI. Atualmente, são apenas 10%

Quando Margareth Ortiz Camargo, hoje superintendente de Tecnologia da Informação (TI) do Hospital Sírio-Libanês, conseguiu seu primeiro emprego na área, em Campinas (SP), as mulheres ainda eram obrigadas a usar saia no ambiente de trabalho. Mesmo com a resistência à figura feminina dentro das empresas, naquela época era mais fácil encontrar mulheres trabalhando na área de tecnologia do que hoje em dia. “Quando entrei no curso técnico em processamento de dados havia uma quantidade de mulheres, mas nunca mais encontrei tantas, nem durante a graduação, nem no ambiente de trabalho”, diz Margareth.

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Margareth, do Sírio-Libanês, precisou demitir um funcionário por preconceito no ambiente de trabalho
Divulgação
Margareth, do Sírio-Libanês, precisou demitir um funcionário por preconceito no ambiente de trabalho
O fato é que, apesar de o mercado enfrentar escassez de mão de obra na área de TI , as mulheres perdem, cada vez mais, o interesse pela carreira. Os motivos variam: envolvem desde o preconceito dos homens contra a presença de mulheres em áreas técnicas até a dificuldade em conciliar a vida pessoal com o trabalho, que impõe horários pouco convencionais.

De acordo com dados de um estudo conduzido pela Microsoft, em conjunto com a Sociedade Brasileira da Computação (SBC), as classes de graduação de cursos brasileiros relacionados à informática tinham quase sempre a mesma quantidade de mulheres e homens na década de 1980.

Desde então, a quantidade de mulheres que se interessam em seguir carreira na área de informática caiu. “Os números estão caindo a cada ano”, diz Karin Breitman, professora do departamento de informática da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) e diretora de publicações da SBC. De acordo com o estudo, as classes de ciências da computação de universidades de todo o país são compostas, em média, por apenas 10% de mulheres.

Desinteresse de mulheres por TI ocorre em todo o País

Segundo o iG apurou, o percentual de mulheres em cursos de TI varia entre as universidades brasileiras consultadas, mas o desinteresse feminino pode ser notado em todas elas. Na PUC-Rio, por exemplo, as mulheres matriculadas nos cursos de Sistemas da Informação e Ciências da Computação não chegam a 20%: em novembro de 2011, elas representavam 18,7% e 17,9% do total, respectivamente. Na Universidade de São Paulo (USP), uma das mais procuradas do País, o índice de mulheres que cursam Ciências da Computação é ainda menor: apenas 9,9% dos mais de 260 alunos atualmente matriculados no curso.

No Nordeste, a Universidade Federal de Pernambuco, uma das universidades mais procuradas por empresas do Porto Digital - pólo de desenvolvimento de software localizado em Recife - também tem poucas mulheres. Em novembro de 2011, elas representavam apenas 11% dos 872 estudantes de Ciências da Computação e Engenharia da Computação.

Por lá, a coordenação do curso também notou a falta de interesse dos homens pelas carreiras tecnológicas. Os alunos reclamam que os baixos salários oferecidos pelas empresas, em sua maioria startups , não pagam o esforço exigido pela profissão. “Os cursos de engenharia sempre tiveram mais homens do que mulheres e foi o que acabou acontecendo com a área de TI”, diz Ana Carolina Salgado, professora da UFPE.

Apesar do baixo interesse das mulheres em cursos de graduação em TI, as mulheres vêm conquistando um espaço maior em grandes empresas de tecnologia, como a IBM e a brasileira Totvs. Na Totvs, que desenvolve softwares para empresas, são 904 mulheres do total de mais de 2,7 mil funcionários em áreas que requerem diploma na área de TI. O número corresponde a 32,7% do total – similar à média de mulheres na IBM, que é de 30% em todo o mundo. “Estamos nos esforçando para nivelar a proporção de homens e mulheres”, diz Gabriela Hertz, líder de diversidades na IBM, que organiza palestras em universidades para estimular mulheres a concorrerem a vagas na empresa.

Tânia Nossa, da Alcoa, subiu na carreira depois de levar filhos e marido para os EUA
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Tânia Nossa, da Alcoa, subiu na carreira depois de levar filhos e marido para os EUA
Moda e Turismo ganham preferência

Um dos motivos para o desinteresse das mulheres pela área de tecnologia foi o surgimento de outras carreiras, vistas pelas mulheres como mais fáceis de conciliar com a vida familiar, como Moda e Turismo, e a opção por profissões que permitem ter maior estabilidade.

De acordo com estudo do site de recrutamente Catho Online, as áreas de Educação e Administrativa são as que possuem maior proporção de mulheres entre os funcionários das 200 mil empresas cadastradas no site. Em março de 2011, elas representavam 65,7% do total na área de educação e 60,8% na área administrativa das empresas.

Ao escolher a área de TI, elas têm que trabalhar em regime de escala, muitas vezes com turnos durante a madrugada, para manter os data centers e os sistemas das empresas funcionando 24 horas. “E a gente precisa se reciclar sempre, senão ficamos para trás, além de se organizar com a casa e os filhos”, diz Margareth, do Sírio-Libanês, que aproveitou o tempo como analista para engravidar. Ela esperou os filhos crescerem e, só quando eles estavam com idade próxima aos 15 anos, voltou a estudar para batalhar um cargo de gestão da área de TI. “Converso sempre com minhas analistas que dá para trabalhar bem e ser boa mãe, mas é preciso se organizar.”

Entretanto, às vezes as exigências da carreira não esperam os filhos se tornarem independentes. Em 2004, Tânia Nossa, hoje gerente-geral do centro de serviços compartilhados (que inclui também a área de TI) da mineradora Alcoa, teve a oportunidade de trabalhar numa filial em Pittsburg, nos Estados Unidos. Os dois filhos de Tânia tinham entre 1 ano e meio e 5 anos. “Eu tinha acabado de fazer o MBA em marketing com a Julia amamentando, mas enfrentei o novo desafio”, diz Tânia. Junto com seu marido e os filhos, ela viveu um ano nos EUA. “Tive que me provar chefe da casa. Eu não podia falhar.” A experiência valeu a pena e, ao voltar para o Brasil, ela garantiu o cargo de diretora de TI da Alcoa.

O estigma Bill Gates

As mulheres também evitam a área de TI por ser uma área com alta presença de homens que, nem sempre, respeitam a capacidade das mulheres de trabalhar em áreas técnicas. “Já tive que demitir um funcionário por fazer piadinhas sobre loiras para me desqualificar na frente da equipe”, conta Margareth, do Sírio-Libanês.

Bill Gates, da Microsoft, deixou impressão de que tecnologia é complicada, diz Karin, da SBC
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Bill Gates, da Microsoft, deixou impressão de que tecnologia é complicada, diz Karin, da SBC
Contudo, segundo Karin, da SBC, muitas vezes o preconceito parte das próprias mulheres. Já no início da adolescência, elas descartam as carreiras em tecnologia, sem compreender que estão deixando uma grande oportunidade de trabalho para trás. “Elas veem a tecnologia como algo complicado, um estigma deixado por Bill Gates”, diz Karin, da SBC, citando o fundador da Microsoft. “Acho que a tecnologia está voltando a ser sexy pela influência de Steve Jobs .” O co-fundador e ex-CEO da Apple, empresa que criou o iPhone e o iPad, morreu em outubro deste ano.

Mais mulheres na liderança

As mulheres que apostam na TI e perseveram, segundo os especialistas, podem colher bons frutos e chegar á direção de grandes empresas. Segundo Edison Kalaf, coordenador do MBA em gestão de projetos de TI da Business School São Paulo, universidade vinculada ao grupo internacional Laureate, nos próximos anos é provável que mais mulheres sejam promovidas a diretoras de TI. “A tendência é que os cargos de gestão de TI sejam passados para pessoas menos técnicas, mas que tenham mais jogo de cintura para negociar com as áreas de negócio da empresa”, disse Kalaf, em entrevista ao iG . “Neste ponto, o gênero feminino leva vantagem.”

E não somente mulheres com longa carreira em departamentos técnicos poderão ter a oportunidade de ocupar altos cargos na TI de grandes empresas. Segundo Kalaf, as profissionais formadas em administração ou finanças - mas que tenham uma formação técnica posterior na área de tecnologia - serão as mais cotadas para assumir os cargos mais altos de TI, em vez de profissionais que estudaram TI a vida toda. O motivo é o conhecimento sobre outras áreas de negócio da empresa, com as quais a TI terá que se tornar cada vez mais integrada. “Começar como estagiário da área de TI não é mais o caminho natural”, diz Kalaf.

Apesar do longo caminho que as mulheres ainda têm pela frente para se igualar aos homens, em quantidade, na área de tecnologia, já é possível ver alguns avanços. Em encontros com outros diretores de TI, Margareth e Tânia ainda sentem falta de mulheres em cargos de gestão, mas percebem que o número de mulheres que superaram os desafios da área de TI aumenta a cada ano. “Já fui a eventos para diretores de TI em que eu era a única. Hoje já encontro por volta de 10 mulheres”, diz Margareth, do Sírio-Libanês.

*Colaborou Augusto Garcia.

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