Fabricante dos aparelhos, RIM diz que demora se deve apenas ao desenvolvimento de um novo processador

Quando a Research in Motion afirmou, em dezembro, que uma nova linha de celulares BlackBerry só seria lançada no fim de 2012, o anúncio provocou choque e ceticismo entre analistas de mercado.
Choque porque até a RIM reconhece que os novos aparelhos são vitais para interromper a queda da empresa nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, analistas se manifestaram céticos com a justificativa de que o atraso era devido à espera por um novo e sofisticado processador.

Mike Lazaridis, um dos presidentes da RIM: empresa sob críticas devido a atrasos de aparelhos
Getty Images
Mike Lazaridis, um dos presidentes da RIM: empresa sob críticas devido a atrasos de aparelhos
Em vez disso, muitos analistas dizem que a causa da demora dos novos aparelhos e do novo sistema operacional (BlackBerry 10) é um conjunto de problemas graves de desempenho.

LEIA TAMBÉM:
Futuro da RIM depende de novo sistema
RIM corta preços do tablet Playbook

“Eles estão com problemas para desenvolver a infraestrutura e o sistema a tempo do lançamento”, diz o analista Peter Misek, da consultoria Jefferies & Co.

Alkesh Shah, analista da consultoria Evercore Partners, concorda. “Esperar pelo novo processador é apenas mais um fator de atraso”, afirma. “Criar o ecossistema para os aparelhos é o grande problema”.

Bateria seria um dos problemas

Shah e outros analistas afirma que o atraso no desenvolvimento do BlackBerry 10 e problemas com duração de bateria em protótipos são alguns dos motivos do atraso. Esses problemas teriam obrigado a RIM a esperar por novos processadores, menores e com menor consumo de energia. Por isso, a empresa não conseguirá vender seus novos aparelhos no começo de 2012, como pretendia.

“Um dos problemas da RIM é o atraso do sistema BB 10, e isso pode ter obrigado a RIM a escolher chips que ainda não estão prontos, atrasando o lançamento dos aparelhos”, diz Rod Hall, analista da consultoria JP Morgan Chase.

Embora parte do ceticismo dos analistas seja baseado em especulações, a falta de credibilidade da RIM no mercado contribui para as análises pessimistas. No último ano, a empresa foi forçada a revisar previsões financeiras e fracassou em lançar produtos importantes na data planejada.

Empresa nega problemas

“Eles não parecem lidar bem com as dificuldades envolvidas em lançar esses aparelhos no mercado”, diz Golin Gillis, analista do BGC Partners. “Poucas pessoas acreditam no futuro da empresa”.
A RIM não divulgou informações detalhadas sobre o novo processador dos aparelhos BlackBerry. A empresa também não comentou possíveis problemas no desenvolvimento do BB 10 e na bateria dos aparelhos.

Ela apenas reforçou afirmações anteriores de seus principais executivos, Jim Balsillie e Mike Lazaridis, de que o atraso se deve simplesmente à espera pelos novos processadores.

“A RIM tomou a decisão estratégica de lançar aparelhos com o sistema BB 10 equipados com um novo chip de dois núcleos e compatível com redes LTE (4G)”, disse a empresa.

“Como explicado em nossa última reunião com acionistas, os impactos dessa decisão na engenharia dos aparelhos e outros fatores de fabricação afetaram a previsão inicial de lançamento”, afirma ainda a empresa.

Entretanto, não é segredo que RIM tem tido dificuldades em criar seu novo sistema operacional, baseado na arquitetura QNX. A RIM comprou a QNX Software Systems, responsável pela plataforma, em 2010.

Tablet Playbook fracassou nas lojas

O tablet Playbook foi o primeiro aparelho da empresa a usar um sistema baseado na plataforma QNX, e até agora tem sido um fracasso de vendas. Apesar da forte associação entre aparelhos BlackBerry e e-mail, o Playbook foi lançado em abril de 2011 sem um aplicativo de e-mail e sem sincronização de contatos e agenda.

Playbook: sem aplicativo de e-mail, tablet até agora tem vendas fracas
Getty Images
Playbook: sem aplicativo de e-mail, tablet até agora tem vendas fracas
A empresa prometeu corrigir esse problema com uma atualização de software, esperada para fevereiro.

Misek, analista da Jeffries & Co., afirma que a RIM teria inicialmente tentado incluir alguns dos componentes de seu sistema antigo no QNX para acelerar o desenvolvimento da nova plataforma. Mas a tentativa teria fracassado, forçando a empresa a criar mais códigos do zero.

Michael Morgan, analista-sênior de dispositivos móveis da ABI Research, diz que muitos dos problemas do BlackBerry 10 estão ligados à integração do sistema com a rede de dados da RIM. Essa rede, responsável por todos os dados dos aparelhos BlackBerry, contém várias camadas de segurança e recursos que diminuem o consumo de dados dos aparelhos.

Para acomodar usuários de BlackBerry e do tablet Playbook, a RIM teve que modificar recursos de segurança da sua rede, que atualmente permite que cada conta de usuário tenha apenas um aparelho vinculado a ela, diz Morgan.

“Quando é necessário mudar um recurso tão importante de um sistema, essa mudança tem ramificações que alteram vários outros aspectos”, diz Morgan. “Estou realmente chocado com o atraso no lançamento dos produtos”.

Como outros analistas, Morgan também afirma que a RIM tem dificuldades com a duração da bateria dos novos aparelhos. A boa duração de bateria é uma vantagem conhecida da plataforma BlackBerry.
Segundo Morgan, o sistema QNX é estável e confiável, mas é normalmente usado em situações em que o consumo de bateria não é relevante. Muitos sistemas de GPS de automóveis, por exemplo, usam o QNX. Mas a energia elétrica desses sistemas é fornecida pelo próprio carro.

Quando os pesquisadores da ABI desmontaram tablets Playbook, eles encontraram vários componentes para reduzir consumo de energia, afirma Morgan. Mas, segundo o analista, esses componentes não podem ser incluídos em smartphones, que têm baterias menores do que a de um tablet.

“O QNX está sendo testado pela RIM em um ambiente em que não foi testado antes”, diz.
Outro problema é a decisão da RIM de que os smartphones devem operar em redes LTE (4G). A maior parte dos processadores compatíveis com essas redes têm a fama de consumirem muita energia.
Redes LTE ainda são raras nos Estados Unidos. Mas espera-se que elas devem ser um diferencial para compra de celulares nos próximos anos.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.