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Quase 90% do faturamento da empresa japonesa vem da tradicional linha de relógios

NYT

Tóquio - Desajeitados? Talvez. Coisa de nerd? Certamente. Porém, por três décadas a linha de relógios digitais G-Shock, da Casio Computer, dominou um mercado pequeno, mas muito lucrativo.

O nicho dos relógios tecnológicos está atraindo o interesse de alguns dos maiores nomes da indústria tecnológica. A Apple patenteou o nome "iWatch" em diversos países no ano passado, o que levou o setor a especular se a empresa estaria trabalhando em um relógio de pulso que pudesse se conectar ao telefone. A Samsung revelou esta semana um relógio capaz de fazer ligações, exibir jogos e enviar e-mails.

Em julho, a Sony apresentou uma nova versão de seu Smartwatch, capaz de se comunicar com smartphones e que permite que os usuários joguem e acessem o Facebook diretamente nos pulsos. Além disso, uma série de startups, como a Pebble, está oferecendo relógios que prometem redefinir o que colocamos nos pulsos.

Veja alguns modelos históricos da linha G-Shock

"De repente todo mundo descobriu o pulso", afirmou Kazuo Kashio, o chefe-executivo da Casio, de 84 anos, na sede da empresa em Tóquio. "Sabemos há muito tempo que o pulso é um terreno valiosíssimo. Estamos preparados."

A alta no interesse em acessórios inteligentes está abalando a indústria dos relógios digitais e abrindo espaço para a alta tecnologia pessoal em um setor que andava adormecido. Em meio ao processo, fabricantes de relógios digitais bem estabelecidas como a Casio descobrem que precisam disputar com novos concorrentes.

Câmeras em queda

Entretanto, isso não é novidade para a Casio, uma empresa com faturamento anual de 3,096 bilhões de dólares, que também fabrica câmeras compactas, instrumentos musicais e calculadoras. Por exemplo, a introdução do smartphone, que apresenta câmeras melhores a cada nova geração, derrubou o mercado das câmeras compactas.

A Minolta abandonou as câmeras em 2006, vendendo suas tecnologias para a Sony. Este ano, a Olympus e a Fujifilm afirmaram que não iriam mais fazer modelos básicos após a queda nas vendas. Até mesmo pesos pesados como a Canon e a Nikon registraram uma queda nas vendas dos modelos point-and-shoot.

As exportações de câmeras digitais caíram 43 por cento na primeira metade de 2013, em relação ao ano passado, de acordo com a Associação de Câmeras e Produtos de Imagem.

A Casio também sofreu. No ano passado a empresa não teve lucros, mas analistas afirmam que seu foco em câmeras finas e baratas significa que a empresa continuará a perder mercado. Isso torna o mercado de relógios da empresa ainda mais importante.

Relógios resistem

As vendas de relógios digitais correspondem a 85 por cento do lucro operacional da Casio, de aproximadamente 206 milhões de dólares. Porém, em um relatório publicado no começo do ano, analistas do Credit Suisse afirmam que a vantagem passaria a ser cada vez mais de empresas que se concentrem na conectividade, em aplicativos e nas interfaces para o usuário.

2011: Relógio G9300
Divulgação/Casio
2011: Relógio G9300 "Mudman" tem proteção extra contra lama

Mais do que isso, os analistas afirmaram o papel emergente do smartphone como um centro que conecta os relógios inteligentes dando uma vantagem clara à Apple e à Google, que dominam o mercado dos smartphones.

"Tecnologias vestidas estão evoluindo rapidamente de aparelhos limitados, de função única e difíceis de conectar, para aquilo que acreditamos serem aparelhos conectados e inteligentes", afirmou.

O mercado para esse tipo de tecnologia – incluindo relógios inteligentes, monitores esportivos, tênis e fones de ouvido – pode decuplicar, chegando a 50 bilhões de dólares nos próximos dois ou três anos, de acordo com o relatório.

A ideia de um relógio digital avançado que funciona como um computador não é necessariamente nova. Nos filmes, James Bond usava relógios que contavam com telas de LED, dispositivos de localização, microfones, monitores de vídeo e até uma mini-impressora para mensagens secretas enviadas de Londres, sem falar em lasers, contadores Geiger e ganchos para escalar.

Eterna promessa

Mas, na vida real, o sucesso dos relógios inteligentes ainda tem sido limitado.

A Citizen, a Casio e outras fabricantes japonesas desenvolveram relógios com calculadora no fim dos anos 1970, mas eles nunca pegaram de verdade. A Casio surgiu rapidamente como uma das maiores fabricantes de relógios digitais, acrescentando dicionários, monitores de pressão sanguínea, telas sensíveis ao toque e controles por gestos no fim dos anos 1980.

Porém, após as vendas baixas de muitos desses modelos – Kashio acredita que a empresa estava à frente de seu tempo –, a Casio voltou sua atenção para relógios à prova d'água e à prova de choque da linha G-Shock.

O G-Shock ganhou fãs graças ao estilo retrô, ao preço baixo, à durabilidade, ao nicho dos tecnófilos e à aparição em filmes como "Missão Impossível" e "Homens de Preto".

Outras fabricantes de relógios também enfrentaram dificuldades. A Fossil colaborou com a Sony Ericsson, a Microsoft e a Palm para desenvolver relógios de alta tecnologia, incluindo, em 2005, um organizador pessoal que vinha com uma pequena caneta.

Em 2004, a Microsoft apresentou o relógio Spot, que exibia notícias informações sobre o clima e a bolsa de valores por meio de ondas de rádio. A Swatch fez uma parceria com a Microsoft para criar o Paparazzi. Desde então, ambas as empresas abandonaram o setor em função dos resultados ruins.

"Até agora, as fabricantes de relógios ainda não encontraram sua razão de ser", afirmou Kuninori So, vice-presidente da consultora em tecnologia ROA Holdings, com sede em Tóquio. "Se a Apple aparecer com um relógio inteligente revolucionário, com uma interface bonita e fácil de usar, isso tudo pode mudar."

A Casio continua a vender novos produtos agressivamente. No ano passado ela criou um relógio que usa o Bluetooth para permitir que os usuários vejam o recebimento de ligações e mensagens. Atualmente, a empresa está trabalhando em uma série de novos modelos, incluindo um que permite que corredores postem detalhes sobre seus percursos na internet, afirmou Kashio.

As vantagens do G-Shock

A Casio acredita que tem uma vantagem, já que aparelhos de vestir como relógios, que podem bater na parede ou cair na água, exigem muito mais robustez e durabilidade do que as empresas de tecnologia estão habituadas a oferecer. Os executivos da Casio afirmam que outra vantagem é o tempo de duração das baterias de seus relógios, que chega a dois anos para cada pequena bateria de lítio; os modelos concorrentes exigem uma nova recarga após poucos dias de uso. Especialistas concordam quem o tempo de duração das baterias pode ser importante porque os usuários não estão habituados a recarregar relógios com muita frequência.

"A Casio se saiu muito bem em antecipar o que o mercado deseja", afirmou Serkan Toto, analista tecnológico independente que atua em Tóquio. "Mas a empresa estará em maus lençóis caso a Apple ou a Samsung entre no mercado com mais funcionalidades, designs e sistemas operacionais melhores".

A Casio não surgiu do nada. Fundada pelos quatro irmãos Kashio sobre as cinzas da Segunda Guerra Mundial, ela é uma das poucas empresas de produtos eletrônicos voltadas ao consumidor que conseguiu resistir à onda de comoditização que acabou com tantas concorrentes.

As margens de lucro beiram os 20 por cento nos relógios digitais G-shock, Baby-G e outros causam inveja no setor.

Mais recentemente, a queda no valor do iene ajudou ainda mais a empresa. Analistas da Morgan Stanley MUFG esperam que o lucro bruto da Casio cresça cerca de 30 por cento este ano, chegando a 16,9 bilhões de ienes, graças às boas vendas do G-Shock.

Os irmãos fundadores – os dois que ainda estão vivos continuam no comando da empresa – já fazem parte do folclore empresarial japonês. O mais velho, Toshio, era o guru comercial da família, o segundo mais velho, Tadao, estava por trás de muitas das invenções, incluindo as primeiras calculadoras completamente elétricas. O terceiro irmão, Kazuo, é o vendedor despojado, e Yukio, o mais novo da família, é engenheiro formado e está a cargo da produção.

Em uma entrevista, Yukio Kashio afirmou que a empresa já ganhou outras batalhas no passado. Nos anos 1960 e 1970, cerca de 40 empresas japonesas disputavam aquilo que chamam no país de "guerra das calculadoras". Mas a Casio tirou todas do mercado, menos sua arquirrival Sharp.

"Naquela época era tudo mais simples", afirmou Kashio. "Ainda assim, acho que não existe ninguém mais apaixonado por contar o tempo e os números quanto nós".

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