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Compra da divisão de celulares da Nokia aumentou em 30% o quadro de funcionários da empresa

Stephen Elop (ex-CEO da Nokia) e Steve Ballmer (CEO da Microsoft) no anúncio da transação entre as duas empresas
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Stephen Elop (ex-CEO da Nokia) e Steve Ballmer (CEO da Microsoft) no anúncio da transação entre as duas empresas


NYT

Seattle – Em um momento onde muitos acreditavam que o número de produtos da Microsoft deveria estar diminuindo, ele está prestes a ficar muito maior.

A compra das operações de dispositivos e serviços da Nokia por US$7,2 bilhões, quando for concluída no próximo ano, aumentará em 30 por cento o quadro de funcionários da Microsoft e acrescentará uma grande unidade de hardware a uma vertiginosa variedade de produtos – uma situação incomum em uma indústria onde o foco costuma ser mais valorizado do que a amplitude.

Isso é uma preocupação para todos, de acadêmicos a funcionários da própria empresa. Uma lista de oportunidades perdidas e investimentos decepcionantes na última década em áreas como smartphones, tablets e busca online levou à crença de que uma coleção mais ágil e focada de miniMicrosofts poderia reagir com maior eficiência ao interminável fluxo de tecnologias mordiscando suas fundações.

"É muito difícil ser um conglomerado tecnológico de base ampla", declarou David Yoffie, professor da Harvard Business School.

Há treze anos, os concorrentes da Microsoft e um juiz federal exigiram que a empresa fosse dividida devido ao seu poder no mercado. No entanto, a questão agora não é excesso de poder, mas tentar fazer demais.

Sede da Microsoft em Redmond (EUA): especialistas sugerem divisão da empresa
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Sede da Microsoft em Redmond (EUA): especialistas sugerem divisão da empresa

A Microsoft possui um console de videogame, o segundo maior mecanismo de busca online, um enorme portal na web, um gigantesco negócio de softwares, um sistema operacional para computadores, serviços de computação na nuvem e softwares de aplicativos.

A empresa é uma mistura de negócios onde concorrentes como Google, Yahoo, Oracle, Apple e Nintendo se especializam, colocando um enorme fardo sobre seu CEO, Steve Ballmer – que anunciou planos de se aposentar nos próximos 12 meses.

Novo CEO

A complexidade da Microsoft tornará ainda mais difícil a busca por um substituto para Ballmer, já que o cargo exigirá uma pessoa com um conjunto incomum de habilidades – incluindo fluência nos mercados de consumo e corporativo, hardware, software e serviços de internet. Ballmer anunciou recentemente uma grande reorganização na empresa em busca de mais agilidade, embora seu vasto portfólio de produtos deva permanecer intacto.

"Isso dificulta sua administração, o que é um desafio para a Microsoft independente de quem seja o sucessor", afirmou Yoffie. Muito antes de Ballmer anunciar sua aposentadoria, ele e Bill Gates, presidente e cofundador da Microsoft, haviam concordado que seria muito difícil encontrar um novo líder para a empresa. Segundo uma pessoa que conversou há vários anos com Gates sobre a sucessão, ele teria dito que apoiaria substituir Ballmer se conseguisse pensar em alguém que faria um trabalho melhor.

Da mesma forma, outra pessoa disse que o próprio Ballmer declarou, há alguns anos, que deixaria o cargo se um CEO melhor fosse encontrado. Essas pessoas falaram com a condição de não serem identificadas, pois as conversas foram particulares.

Larry Cohen, porta-voz de Gates, não respondeu a um pedido de comentários. Frank Shaw, porta-voz da Microsoft, também se recusou a comentar.

Divisão da empresa

Em 2000, quando a atuação da Microsoft era mais simples do que hoje, um juiz federal, Thomas Penfield Jackson, determinou que, devido a violações da lei antitruste, a Microsoft fosse dividida em duas empresas – uma focada no Windows e a outra em aplicativos. Um tribunal de apelações acabou anulando a decisão, após apontar que Jackson teria contaminado os procedimentos legais ao fazer comentários sobre o caso para a imprensa.

Analistas, professores de administração e funcionários da Microsoft passaram anos ponderando se, em retrospecto, essa divisão poderia ter dado às empresas resultantes a agilidade para competir melhor. Diversas unidades da Microsoft seriam grandes empresas autônomas, com o Windows representando US$19,2 bilhões em receita para o ano fiscal que terminou em junho, e sua divisão corporativa, dominada pelo Office, com US$24,7 bilhões. Uma terceira unidade, servidores e ferramentas, teve receita de US$20,3 bilhões no mesmo período – frente aos US$27,5 bilhões de receita com softwares na Oracle em seu último ano fiscal, que terminou em maio.

Investidores pedem que a Microsoft se livre de suas unidades menos lucrativas, vendo-as como um peso ao preço das ações. Richard Sherlund, antigo analista da Microsoft na Nomura Securities, acredita que o videogame Xbox e o mecanismo de busca Bing são bons candidatos para operações independentes.

Segundo Sherlund, a Microsoft poderia dar ao Facebook, com quem a empresa possui uma parceria ativa, o controle do Bing, em troca de uma parte da renda com o tráfego adicional que isso traria ao site do Facebook. Sherlund estima que a Microsoft tenha acumulado perdas de mais de US$17 bilhões nos negócios de busca e internet.

Ainda assim, embora tenha vendido ou gerado divisões menores no passado – o site de viagens Expedia surgiu na empresa no final da década de 1990 –, a Microsoft não mostrou interesse em abrir mão de produtos importantes.

Sinergias

Em sua defesa, a Microsoft aponta que sua longa linha de produtos gera muitas sinergias. O Xbox utiliza uma variação do sistema operacional Windows, enquanto o Bing oferece serviços de busca integrados com Windows, Xbox e o sistema operacional móvel Windows Phone.

Além disso, pode-se dizer que os concorrentes da Microsoft estão reconhecendo que eles também precisam desenvolver produtos em áreas antes consideradas fora de sua competência. O Google comprou a Motorola Mobility para ajudá-lo a entrar na indústria de hardware. A Apple está em um frenesi de aquisições de novatas para aprimorar seu serviço de mapeamento online. E a Amazon, antes inteiramente focada no consumidor, tornou-se uma importante fornecedora de serviços na nuvem para empresas.

Mesmo com essas mudanças, Yoffie afirmou que os grandes rivais da Microsoft ainda são mais focados do que ela. "Acho que a questão fundamental para o próximo CEO da Microsoft", argumentou ele, "seria qual é a sua visão da Microsoft".

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