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Em conversa com a BBC Brasil, Jimmy Wales, fundador da enciclopédia virtual falou do funcionamento do site e de como as escolas deveriam se preocupar em treinar os alunos, uma vez que eles já consultam a Wikipédia

Americano do Alabama, Jimmy Wales fundou a Wikipédia em 2001, junto com o amigo Larry Sanger.
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Americano do Alabama, Jimmy Wales fundou a Wikipédia em 2001, junto com o amigo Larry Sanger.

Considerado um dos "gurus"da internet, Jimmy Wales, cofundador da enciclopédia virtual Wikipédia, esteve no Brasil na semana passada para participar de uma série de palestras em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Não foi a primeira, mas foi a mais longa visita de Wales ao país. Americano do Alabama, Wales fundou a Wikipédia em 2001, junto com o amigo Larry Sanger. A ideia era fazer uma enciclopédia "livre", que pudesse ser escrita e editada por qualquer pessoa.

Desde então, já teriam sido escritos, segundo a própria Wikipédia, mais de 35 milhões de artigos em 288 línguas.

Há quem critique a qualidade de muitos desses artigos. Wales nega que isso seja um problema significativo, mas diz que estão sendo tomadas medidas para que o conteúdo do site seja "melhor que o de uma enciclopédia tradicional".

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Entre um compromisso e outro no Brasil, o americano falou com a BBC Brasil sobre esses esforços e defendeu que os estudantes sejam "treinados" para usar a Wikipédia. Confira:

BBC Brasil - No ano passado, uma figura ligada ao governo foi acusada de alterar o perfil de jornalistas na Wikipédia. O que é feito para impedir que a plataforma seja usada por grupos políticos organizados ou grandes empresas como instrumento de propaganda?

Jimmy Wales - Esses comportamentos são proibidos pelas regras da Wikipédia. E nós bloqueamos e banimos da nossa comunidade de editores pessoas que são pegas fazendo isso.

Também é preciso considerar o custo de quebrar as regras: é bastante vergonhoso para qualquer político ou empresa se seus assessores de comunicação ou funcionários são flagrados fazendo esse tipo de coisa.

Sabemos que acontece, mas (isso acontece) com menos frequência do que a maioria das pessoas pensa.

BBC Brasil - Mas imagino que seja complicado identificar essas pessoas se qualquer um pode editar os artigos. Empresas ou partidos não podem pagar qualquer um para mudar as entradas da Wikipédia que são de seu interesse?

Wales - Existe uma comunidade monitorando as informações que são colocadas em cada artigo. Se alguém não está seguindo as regras da Wikipédia é logo identificado. As pessoas não podem simplesmente deletar informações que não querem ver expostas ou escrever coisas sem atribuí-las a fontes confiáveis.

Na realidade, no caso das empresas, vemos que o caminho mais efetivo (se elas querem colocar algo no site) é que nos abordem de forma transparente. Elas podem dizer: “Temos essa proposta para tal artigo”. Então a comunidade pode analisar essa proposta e decidir.

O que acontece se o processo não é esse é que eles começam a escrever coisas consideradas inapropriadas e acabam banidos.

BBC Brasil - A Wikipédia teve um crescimento impressionante nos seus 15 anos de existência, mas muitos dizem que a qualidade de muitos artigos é discutível. O que vocês têm feito para melhorar?

Wales - Há estudos acadêmicos feitos sobre a Wikipédia que mostram que, no geral, a qualidade dos artigos não é muito diferente dos de uma enciclopédia tradicional. Isso ainda não nos satisfaz – a proposta é ser melhor que uma enciclopédia tradicional.

E estamos levando a cabo uma série de iniciativas para avançar nessa questão. Uma das mais importantes é o que chamamos de Wikiprojects: as pessoas se reúnem para discutir tópicos específicos. Só para dar um exemplo, temos um Wikiproject sobre a Segunda Guerra Mundial, na qual as pessoas analisam todas as entradas relativas a esse tópico. Os artigos recebem nota e são categorizados por sua qualidade. Também é elaborada uma lista sobre o que é preciso fazer para melhorar cada um deles.

BBC Brasil - Como o senhor vê a Wikipédia em 10 anos?

Wales - A principal mudança em curso que deve ter um impacto no futuro do projeto tem sido o crescimento em línguas do mundo em desenvolvimento, na África, na Índia, mesmo em idiomas usados por pequenas comunidades. Também devemos continuar crescendo em acessos por celular e outras plataformas móveis.

BBC Brasil - A ideia é que, com esse esforço para aprimorar a qualidade, a plataforma possa ser usada, por exemplo, em trabalhos escolares – como, no passado, as enciclopédias tradicionais?

Wales - Acho que ela já é usada de forma substancial por estudantes. Sempre que falo com alunos universitários eles brincam: “Nunca teríamos nosso diploma sem vocês”.

Por isso, o que deveríamos estar discutindo nas escolas não é se, e sim como usar o site. Quais são os pontos fortes e os pontos fracos dessa ferramenta, o que procurar em cada artigo. Essa deve ser uma parte importante da educação, já que tanta gente hoje se informa pela internet. Precisamos nos assegurar que os jovens e crianças estão recebendo instruções para fazer isso da maneira correta.

As pessoas vão usar a Wikipédia quando saírem da escola de qualquer maneira, então é importante que sejam treinadas para isso.

BBC Brasil - A internet e mídias sociais têm servido de palco para algumas pessoas com visões radicais ou extremistas. Se todos podem editar as entradas da Wikipédia, isso não se torna um problema? O que vocês fazem para garantir artigos equilibrados?

Wales - Não percebemos isso como um problema. Na realidade, nossa percepção é oposta: achamos que a internet está levando à destruição do extremismo já que, com ela, as pessoas começam a ser expostas a uma grande variedade de ideias diferentes das suas e têm um maior entendimento (dos fatos). É muito difícil ser extremista em um mundo em que as informações sobre tantos temas estão tão amplamente disponíveis.

Na Wikipédia, nosso estilo já é muito neutro, muito calmo, procuramos fontes confiáveis. Mas acredito que, de maneira mais ampla, na internet também estamos vendo a morte do extremismo.

BBC Brasil - Veículos da imprensa dos EUA e Grã-Bretanha já o retrataram como o único "guru" da internet que não ficou bilionário. Foi uma opção?

Wales - Na realidade, eu também sou fundador do site Wikia.com, que é website número 17 no mundo, um projeto comercial que está dando muito certo. A (operadora móvel com rede virtual) The People's Operator (TPO), na qual tenho participação, está indo super bem também. Então acho que essa ideia de que vivo na pobreza é equivocada. É claro que a Wikipédia (cujos direitos foram cedidos a uma fundação) é muito mais importante do que tudo isso. Mas, no caso, o objetivo era ter um impacto global, não lucrar um bilhão. Então tenho muito orgulho de participar desse projeto.

BBC Brasil - Um dos desafios da Wikipédia é o financiamento. Aceitar anúncios desvirtuaria o projeto?

Wales - Essa seria uma opção muito ruim para a Wikipédia. Eu pessoalmente sou contra os anúncios e uma das principais razões é que a Wikimedia Foundation, a ONG que fundei para operar a Wikipédia, hoje é guiada por seu senso de missão.

Mas se começássemos a vender anúncio, a organização começaria a ter preocupações com sua receita publicitária. Poderia preferir ter um milhão de leitores a mais nos EUA do que na África, por exemplo, simplesmente porque os americanos têm mais recursos e lá o mercado publicitário está mais desenvolvido.

Além disso, a equipe poderia começar a se interessar mais sobre o que você está lendo na Wikipédia. E talvez tivesse um incentivo para direcioná-lo para páginas com anúncios. Hoje, o que você está lendo na Wikipédia só interessa a você. O leitor é guiado apenas por seus próprios interesses.

BBC Brasil - Você já anunciou que tem interesse em trazer a operadora de telefonia TPO para o Brasil. Por que o mercado brasileiro parece interessante mesmo nesse momento de crise?

Wales - Por enquanto já estamos operando na Grã-Bretanha e em algumas semanas estaremos nos EUA. Temos pretensões globais. Depois disso, vamos pensar em que outro mercado para entrar e o Brasil é um dos lugares em que temos interesse. Trata-se de um mercado grande, de grande potencial para o nosso setor.

Hoje, os consumidores brasileiros não têm muita opção quando se trata de operadoras móveis com rede virtual - o nosso modelo de negócios. Esse modelo, aliás, só foi recentemente aprovado no país. Por ele, as operadoras não tem torres de telefonia, atuam em parceria com outras empresas. Por enquanto, acredito que só há uma empresa começando a explorar esse mercado brasileiro – a Virgin Mobile - e acho que nem colocaram seus projetos em prática ainda. Mas dentro de alguns anos haverá muitas operadoras com redes virtuais e queremos ser uma delas.

Não estou muito interessado nos ciclos econômicos. Há outros fatores que são mais importantes para quem está fazendo negócios no Brasil. É um país com potencial de longo prazo.


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