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Empresa de origem chinesa cuja expansão é liderada pelo brasileiro e ex-Google Hugo Barra começa a vender seu primeiro aparelho no País, o Redmi 2, na terça-feira, 7 de julho, após um evento de lançamento tumultuado

Mais de um ano depois do surgimento dos primeiros rumores sobre a vinda da Xiaomi para o Brasil, o lançamento da empresa finalmente aconteceu na terça-feira (30) em São Paulo. Levando-se em conta a capacidade do Theatro NET, no Shopping Vila Olímpia, zona sul da cidade, estima-se que mais de mil pessoas tenham participado das duas sessões comandadas pelo o brasileiro Hugo Barra.

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Mineiro, Barra é um ex-Google e grande conhecedor do sistema operacional que roda também nos aparelhos da marca asiática, o Android. Responsável pela expansão da empresa fora da China, Barra foi quem trouxe a Mi, como também é conhecida, para o País. Mas nem tudo foi festa no evento tecnológico mais esperado do ano. 

Marcado para às 11h da manhã (10h30 para o credenciamento da imprensa), o evento só começou quando era quase meio-dia, depois de muita correria para fazer os Mi fãs, como são chamados os fanáticos pela Xiaomi, jornalistas e parceiros entrarem no espaço. A fila de fãs, aliás, começou a se formar dentro do shopping, às 9h, antes da abertura das lojas, às 10h. Uma hora depois, já dava quase duas voltas ao redor das escadas rolantes. Parecia abertura de loja da Apple. Bom, faz sentido: desde que começou a ganhar mercado, a Xiaomi vem sendo insistentemente chamada de Apple da China.

Enquanto isso, integrantes da organização, vestidos de vermelho, distribuíam o Mi Kit, uma sacola com camiseta laranja, chaveiro dourado do Mi Bunny, o coelho com chapéu comunista mascote da Xiaomi, e uma luminária portátil com conexão USB. Os clientes eram orientados a vestir a camiseta para entrar no teatro, enquanto os jornalistas deveriam usar um colete também laranja. Por volta das 10h30, a fila finalmente começou a andar, e cada um que entrava ganhava um pote de pipoca com o logotipo estampado. A animação era contagiante, com luzes iluminando o palco e música de festa tocando.

Mas às 11h, quando o evento deveria começar, o teatro inteiro ficou na escuridão. Não foi por muito tempo, mas o suficiente para atrasar o lançamento. Mais tarde, durante a apresentação, Hugo Barra pediu desculpas pelo atraso no lançamento que deveria ter começado pontualmente e explicou que foi preciso reconfigurar vários equipamentos afetados pela queda de energia.

Os primeiros problemas de verdade apareceram quando as poltronas começaram a ser ocupadas sem que a fila de espera diminuísse. Para participar do evento, os fãs precisaram se cadastrar pelo site da Mi Brasil uma semana antes, receber um e-mail de confirmação, ligar para uma central de relacionamento para só depois receber um código, a ser apresentado no dia. O que aconteceu é que várias pessoas que não receberam a resposta afirmativa foram até o local e conseguiram entrar, mesmo sem o código. Estava feita a confusão que estragaria um pouco o dia da Xiaomi e muito de alguns dos Mi fãs.

Mi fãs ganharam pipoca, camiseta, chaveiro do Mi Bunny, o mascote, e luminária portátil
Emily Canto Nunes/iG São Paulo
Mi fãs ganharam pipoca, camiseta, chaveiro do Mi Bunny, o mascote, e luminária portátil

Os Mi fãs

Um olhar um pouco mais atento enquanto as pessoas se aglomeravam foi suficiente para perceber que grande parte dos fãs eram homens, adolescentes ou jovens adultos e que estavam mesmo entusiasmados com a chegada da Xiaomi no Brasil. Tanto que Hugo Barra se aventurou a percorrer a fila fazendo "high-five" (o gesto de bater sua mão na palma de outra pessoa numa espécie de saudação). Alguns demoraram para reconhecer o brasileiro, outros correram para registar o momento, alguns bateram em sua mão.

O carioca Daniel Justino Alves, um do Mi Fãs escolhidos para ser VIP no evento, ainda não tem um aparelho da Xiaomi, mas disse que faz toda a diferença ter um brasileiro à frente da empresa. "O cara trabalhou no Google, ajudou a desenvolver o Android, ele é o cara", disse em conversa com o iG antes do início do evento. Para Alves, chip Qualcomm e câmeras com lentes Sony são suficientes para atestar a qualidade do produto chinês. Extra-oficialmente, a Xiaomi teria bancado a vinda de cerca de 15 fãs para São Paulo, fãs esses que sentaram nas primeiras fileiras do teatro.

Analista de sistemas de Frutal (MG), Raphael Ferreira representa o Brasil em uma das comunidades que a Xiaomi mantém com os fãs. Dono de um smartphone Redmi 1S comprado pela internet, que segundo ele chegou sem problemas com a Receita Federal ao Brasil, Ferreira é fã da customização do sistema. A plataforma MIUI possui um número imenso de interfaces possíveis. O próprio Barra mostrou no palco algumas das customizações feitas para a chegada da Xiaomi no Brasil.

Valdomiro Prado, outro Mi fã VIP, disse que a Xiaomi tem o melhor custo benefício e que melhor que isso "só se fosse de graça".

De fato, quando Barra fala que os Mi fãs são o que há de mais importante para marca ele não está mentindo, nem exagerando. Todo o evento de mais de uma hora de duração foi para os fãs da marca. Parceiros e imprensa foram coadjuvantes. Barra até falou sobre alguns deles no palco, contou suas histórias, mostrou fotos e apontou para eles na plateia. Todo o tempo o executivo ressaltava a importância dos fãs, como a empresa interage com os fãs da marca nas redes sociais, e como até sua mãe, presente no evento ao lado da irmã de Barra, é obviamente uma Mi Fã. Família foi outra palavra bastante usada.

Do lado de dentro do teatro, a apresentação de Barra foi marcada pela emoção. O brasileiro estava visivelmente feliz. Não fossem os problemas ao seu redor, a apresentação teria sido perfeita: os mi fãs riam com ele, o aplaudiam e comemoravam com ele a chegada da empresa no Brasil. No final, ganharam até uma Mi Power Bank de 10.400 mAh comemorativa do evento. Do lado de fora, porém, os mesmos Mi fãs reclamavam com a organização e também nas redes sociais. O termo Xiaomi logo foi parar nos Trending Topics do Twitter.

A Xiaomi até colocou um telão do lado de fora do teatro para quem quisesse acompanhar, mas a solução para tentar minimizar o problema foi marcar um segundo evento às 15h e distribuir vale lanche do Mc Donald's para aqueles que ficaram de fora. Apazigou, mas as reclamações demoraram bastante para cessar. Para Xiaomi, foi um longo dia também no Twitter e no Facebook que certamente representou a perda de alguns fiéis seguidores no mundo virtual.

Comparações com o iPhone 6 e o Redmi 2 foram feitas algumas vezes
Emily Canto Nunes/iG São Paulo
Comparações com o iPhone 6 e o Redmi 2 foram feitas algumas vezes

Os produtos

Na área de experimentação para a imprensa, vários produtos da Xiaomi estavam expostos. Em sua fala, Barra citou outros produtos que a empresa comercializa na China, como um purificador de ar, mas, por enquanto, apenas três serão vendidos pelo site da empresa: Redmi 2, Mi Band e Mi Power Bank, uma bateria portátil de 10.400 mAh.

A começar pelo carregador, vale notar que várias outras empresas com operação no Brasil possuem soluções semelhantes. Como esse é um mercado cinza, no qual os produtos de fabricantes confiáveis se misturam com frios ou importados, é difícil dizer se a Mi Power Bank se saíra bem nas vendas.

A pulseira inteligente Mi Band enfrenta menos concorrência, visto que no Brasil as mais conhecidas são importadas ou mais caras, como a SmartBand da Sony. Ou seja, R$ 95 é um preço realmente competitivo. Além disso, entre os Mi fãs, a fama do acessório é muito boa, vários deles estampavam ela no pulso.

Já o Redmi 2 chega para competir no segmento de intermediários, o mais concorrido desde que a Motorola chegou com o Moto G, em 2013. Estará à venda no site por R$ 499 à vista e R$ 549 parcelado em até 10 vezes no dia 7 de julho, terça-feira. No palco do evento, Barra comparou o aparelho com o iPhone 6 (R$ 3.200), da Apple, que não é dual-chip, e que possui uma bateria menor do que os 2.265 mAh do Redmi 2. Também comparou com dois da Samsung, o A5 Duos e o Win 2 Duos, quem possuem o mesmo processador da Qualcomm 4G, o Snapdragon 410, e várias outras configurações semelhantes. O A5 é mais do que o dobro, R$ 1.160, e, no caso do Win 2 Duos (R$ 599), a câmera traseira é de cinco megapixels, enquanto a do Redmi 2 é de oito megapixels.

O quadro comparativo trazia ainda o LG G3 Beat (R$ 796), que possui um processador um pouco abaixo, o 400, e câmera frontal de 1.3 megapixels, enquanto o Redmi 2 tem 2 megapixels. O Moto G 2014 (R$ 890) também estava presente, com o dobro de memória de armazenamento, 16 GB contra 8 GB, tela de cinco polegadas e não de 4,7 como o da Xiaomi, mas que atualmente está custando R$ 890.

Não por um acaso, o ZenFone 5, de configurações semelhantes, mas com 2 GB de RAM e processador Intel, não foi citado. A Asus foi a última grande marca a chegar no Brasil antes da Xiaomi. Embora não esteja entre as maiores, Apple, LG, Sony, Samsung, Microsoft e Motorola tem alcançado alguns sucesso. Lançado em outubro de 2014, o ZenFone 5 foi anunciado por R$ 499 em um lote promocional de comemoração aos 25 anos da Asus. As três mil unidades foram vendidas em três horas. Em 24 horas, e já com o preço oficial de R$ 599, o ZenFone 5 chegou a 10 mil unidades vendidas segundo a fabricante taiwanesa.

Como já era sabido, a Xiaomi fabricará localmente seus smartphones com a ajuda da Foxconn, que tem fábrica em Jundiaí (SP), mas Barra adiantou que a empresa importou um pequeno lote para dar início às operações. A pergunta que fica é: a Xiaomi já tem fã e produto o suficiente para incomodar a concorrência?